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AS CHANCES DE DEUS

Portinari – Futebol em Brodósqui, 1935

“Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás’”. (São Lucas 13, 6-9)

Na parábola acima, o dono da figueira é Deus e o vinhateiro Jesus, nosso principal mediador junto do Pai. A figueira estéril, evidentemente, somos nós. Os figos inexistentes são nossa fé assim pequena e nossa caridade tão mesquinha.

A gente já sabe o que acontece com a figueira, quando ela é cortada por esterilidade: vai parar naquele fogão a lenha que nunca se apaga, e o cozinheiro também já sabemos muito bem quem é.

A Igreja não se cansa de falar dos riscos do adiamento da conversão. Santo Agostinho dizia que, depois que já estava convencido da veracidade do cristianismo, o demônio sempre lhe insinuava: “Hoje ainda não. Aproveita a vida mais um pouco. Carpe diem.”

Padre Paulo Ricardo, em sua recente meditação sobre o filho pródigo, observou que a conversão tem dois momentos: um inicial, de mudança de mentalidade (metanoia, μετάνοια), que deve ser completado pelo seguinte, que é a mudança de direção (epistrepho, ἐπιστρέφω), que é botar efetivamente os pés na estrada — a estrada nova, a única que leva ao Cristo.

Um risco muito grande, ao menos para quem gosta de livros, como nós, é o de ficarmos no primeiro estágio da conversão, permanentemente embevecidos com a beleza do cristianismo, da moral católica, do papel da Igreja na construção da nossa civilização (nas ciências, nas artes, na música, na literatura etc.).

Não dá para transitar de um momento a outro sem a graça divina, mas, como Jesus sempre ensinou a bater na porta do Pai, a sermos chatos e insistentes, continuemos a rezar e a pedir a viravolta completa: o epistrepho.

Muitos de nós já estamos na prorrogação da partida e com grandes chances de ver a decisão ser levada para os pênaltis. O time adversário tem, na linha de frente, três temíveis atacantes: a carne, o demônio e o mundo. Deus nos concede essa prorrogação, generosamente, para ver se saímos desse preguiçoso (e sempre perigoso) zero a zero. Um único gol e já teremos, enfim, as mãos um pouco menos vazias para o encontro definitivo com Ele.

E pensar que os santos ganham sempre de goleada, com muitos deles definindo a partida já no primeiro tempo…

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