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AS VIRTUDES ENLOUQUECIDAS DE CHESTERTON

4 de fev. de 2022
2 min de leitura

O contato muito próximo de Chesterton com intelectuais de esquerda, sobretudo os fabianos ingleses de sua geração — principalmente H. G. Wells e Bernard Shaw —, levou-o a refletir sobre um aspecto fundamental da modernidade: o paradoxo das virtudes enlouquecidas, sobre as quais nunca deixou de pensar.

Para ele, nada pode ser cristão sem que seja, ao mesmo tempo, profundamente paradoxal. É da essência da doutrina cristã o paradoxo, como essencialmente paradoxal é a própria realidade, cuja apreensão pela grande literatura sempre teve um gosto de coisa superiormente, misteriosamente contraditória.

Chesterton tocava explicitamente no assunto já no livro Ortodoxia, obra de 1908, anterior à sua conversão católica. Segundo ele, as virtudes cristãs, ao se desgarrarem da Igreja, depois da Reforma, passaram a circular sozinhas pelo mundo, e então se extraviaram, enlouqueceram.

Um exemplo é a migração da caridade para o universo político, que resultou nas piores catástrofes sociais modernas, a partir da Revolução Francesa. O permanente amor de Deus para com suas criaturas humanas foi, certamente, o que inspirou, pelos caminhos tortuosos do secularismo, o enlouquecido amor fraterno dos revolucionários franceses (expresso no martírio que impuseram às religiosas carmelitas decapitadas, tal como foi retratado na novela Sozinha no patíbulo, de Gertrud von Le Fort (e que Bernanos transformaria em libreto para uma ópera de Francis Poulenc). Para Chesterton, o revolucionário só aceita dos santos o espírito de independência, jamais o senso de justiça.

Foi também a virtude cristã da caridade (em sua modalidade enlouquecida) que fez Chesterton, na juventude, aderir de maneira enviesada à causa socialista, pois as opções fora do socialismo lhe pareciam medonhas: liberais esnobes e escarnecedores queixando-se de impostos e das classes trabalhadoras, ou darwinistas defendendo a eliminação dos mais fracos (não suspeitava, então, de como o socialismo e o darwinismo se dariam bem, ao longo do século XX). A justiça mandar dizer, no entanto, que nosso escritor foi sempre um adepto relutante da causa igualitarista, relutância que certamente viria da suspeita de que o amor cristão não respirava à vontade no novo ambiente, separada de suas virtudes congêneres.

Outra face suspeita que a caridade enlouquecida pode ostentar, nos tempos modernos, é aquela que se recobre com a suavíssima pele da tolerância. Chesterton soube ver como ela tinha, no fundo, se transformado em perigosa timidez, especialmente no debate sobre Deus, quando a liberdade religiosa acabou produzindo um respeito tão exagerado pelas demais religiões que, na prática, já não é mais permitida a discussão da crença alheia.

Estamos, aqui, navegando em pleno mar do relativismo, em que todos devem afogar, para sempre, as suas queixas quanto às opções do próximo, enquanto o próximo mais esperto vai disto se aproveitando para, sorrateiramente, impor a sua concepção ou a sua própria intolerância religiosa.

 
 
 

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