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Como o cristianismo construiu nossa cultura

20 de abr. de 2020
18 min de leitura

O impacto da cosmovisão Aquilo que cremos tem influência em como vemos e interpretamos o mundo, impactando nossa maneira de viver e agir em sociedade. A isso é atribuído o nome de Cosmovisão. Segundo o professor Ronald Nash: “cosmovisão é um conjunto de crenças sobre as questões mais importantes na vida. (…). É um esquema conceitual pelo qual, consciente ou inconscientemente, aplicamos ou adequamos todas as coisas em que cremos, e interpretamos e julgamos a realidade.”[1]

Esse esquema de crenças é um compromisso arraigado no coração do homem. Não me refiro ao coração como comumente se crê nos dias de hoje, como algo sentimental e avesso a razão, mas como o filósofo holandês Herman Dooyweerd define, como “raiz e centro religioso de nossa existência e experiência humanas em sua inteireza.”[2]

Esse compromisso do coração permeia culturas e filosofias através dos séculos, e através dele podemos ver como o homem vive e se relaciona com o mundo a sua volta. E a partir desse entendimento sobre cosmovisão, podemos entender as diferenças culturais.

Como prova de que a cosmovisão é importante, pense por um instante, se eliminássemos a influência cristã da literatura, não existiriam as obras de Dante, Shakespeare, John Bunyan, C.S Lewis, John Milton, T.S Elliot, Dostoiévski, Tolstoi e etc.

Se eliminássemos a influência cristã da música, não teríamos as obras de Sebastian Bach, Handel, Tchaikovsky, Beethoven.

Se eliminássemos a influência cristã da arte, não teríamos obras de Rafael, Giotto, Michelangelo, Caravaggio, Da Vinci, Rembrandt, Velázquez…

O que mais foi influenciado pelo cristianismo?

Arquitetura, ciência, sistemas econômicos, jurídicos, ética, moralidade, família, filosofia, instituições de educação e caridade, linguagem e diversas outras coisas.

Toda a base a civilização ocidental foi lançada pelo cristianismo, que soube extrair o que de melhor os gregos e romanos tinham, e colocaram a serviço de Cristo.

O apóstolo Paulo nos diz: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” [3]

Esta é a versão de Paulo para o chamado à não-acomodação e à santidade que é dirigido ao povo de Deus no decorrer de toda a Escritura. Desafiando-os a que não se acomodem à cultura predominante, mas sim que sejam transformados por Deus.

O cristianismo não é simplesmente algo que permeia a vida espiritual, ele abarca toda a nossa realidade.

Isso se dá pelo fato de que a cultura tem por base a religião, como o grande poeta do século XX, T.S Eliot diz: “nenhuma cultura apareceu ou se desenvolveu a não ser em conjunto com uma religião.” [4] Pois a religião consegue penetrar nas raízes do pensamento e trazer a unidade mesmo em meio as diferenças. Ou como diz o historiador cultural Christopher Dawson explica, “um povo não é o acúmulo indivíduos distintos artificialmente unidos […], mas é a unidade espiritual pela qual e para qual seus membros existem.” [5]

O cristianismo foi essa unidade espiritual, que durante séculos e mais séculos foi o pilar formador da cultura ocidental. Como Dawson continua a dizer: “Toda a educação, toda cultura literária, toda arte, e todos os temas do bem-estar social, como a ajuda aos pobres e o cuidado com os doentes, foram incluídos na esfera de influência da Igreja.” [6]

Veremos como o cristianismo, apesar de estar espalhado por culturas e países diferentes, foi a unidade transcende que uniu diversos povos diferentes sob a mesma cosmovisão, e como isso foi a força propulsora mais poderosa que formou a civilização ocidental. Diversas das coisas que usufruímos hoje como, ciência, universidades, parlamentos, abolição da escravidão, direitos humanos, moralidade, artes, música, língua, literatura, arquitetura e diversas outras coisas, deve-se a cosmovisão cristã, que foi moldada ao longo dos séculos pelo ensino das Escrituras.

Iremos analisar três aspectos, a dignidade da pessoa e o nascimento da educação, seu desenvolvimento para as universidades e a ciência, e por fim, a questão da mulher na sociedade.

A dignidade da pessoa e o nascimento da educação

Uma das coisas que todos dão muito valor é a educação, e foi no cristianismo que a educação ganhou apelo popular e de disseminou pela cultura.

O Novo Testamento foi escrito em grego koiné (grego popular), mas conforme a língua grega deixou de ser popular no império romano e o latim começou a substituí-lo, o monge Jerônimo levou a cabo o processo de tradução das Escrituras do grego para o latim. Essa Bíblia latina ficou conhecida como Vulgata, porque foi escrita em latim “vulgar”, “comum”, a língua do povo. Isso se deu por volta do ano 405 d.C. Escrever na língua do povo era uma forma de que aquele conteúdo pudesse ser aprendido e ensinado. Isso continuou sendo feito através dos tempos. Com o avançar dos anos, surgiu a necessidade de traduzir do latim para a língua local, Lutero traduziu do latim para o alemão, Wycliff para o inglês, e assim a palavra de Deus continuava se espalhando.

O período inicial do cristianismo foi extremamente conturbado. Após enfrentar as duras perseguições do império romano, ele também viu a era das invasões dos bárbaros, que levaram ao fim do império romano do ocidente em 476 A.D. Os bárbaros eram povos pouco desenvolvidos em termos culturais, eles subjugaram pela força a cultura romana, não restando nenhuma instituição de pé, exceto a força unificadora da fé cristã, representada pela Igreja, e que foi a responsável por conservar e desenvolver a cultura da época, sendo a guia espiritual e moral da Europa durante mais de um milênio. E foi sob essa tutela, que tivemos o surgimento de diversas coisas, dentre elas o apelo pela educação e o sistema universitário.

Como o historiador medieval Charles Haskins afirma: “As universidades, assim como as catedrais e os parlamentos, são um produto da Idade Média.”

A educação sempre esteve ligada a questão da dignidade da pessoa. Nosso Senhor Jesus Cristo pediu que se anunciasse o Evangelho “a toda criatura” (Mc 16, 15), a educação cristã não podia ficar reservada a uma “elite”, mas deveria alcançar todas as pessoas.

Uma prova de que a visão cristã de educação e dignidade andavam juntas, foi a educação para alguns esquecidos da sociedade. Enquanto os gregos antigos tinham o costume de usar garotos cegos como escravos remadores e garotas como prostitutas, os cristãos no século VI criaram o tifolocômio (typholos– cego; komeo=cuidar de.) em Jerusalém, para receber e cuidar de pessoas cegas e surdas. No século XIII, o rei Luís IX construiu o Hospice dês Quinze-Vingts em Paris, onde cristãos começaram a ensinar os cegos a ler com letrar moldadas em alto relevo. Isso cresceu de tal maneira, que em 1834, um cego organista de uma igreja chamado Louis Braille, inventou o sistema de letras de seis pontos em relevo, criando o alfabeto Braille. O qual missionários cristãos espalharam por todo o mundo, inspirando instituições a se importarem com os cegos. Eles apenas seguiam o espírito de Cristo no cuidado com a pessoa, mesmo as rejeitadas.

Falando em pessoa, essa foi mais uma “criação” cristã. O conceito de pessoa é uma criação do cristianismo, devido ao desenvolvimento teológico da doutrina da dupla natureza de Cristo e principalmente da Trindade, que é baseado em 3 pessoas distintas (Pai, Filho e ES) possuindo uma única e mesma natureza.

De forma resumida, ser pessoa é ser alguém, e não algo, ou qualquer coisa, ou um mero elemento pertencente a um grupo qualquer. De modo geral, para os gregos e romanos, ser “pessoa” era pertencer a algo, como na visão grega pertencer a Pólis e ser cidadão, e para os romanos ser sujeito do direito romano. Como por exemplo, o escravo não fazia parte da Pólis e não possuía direitos, ele não era considerado uma pessoa, podendo ser vendido como uma “coisa”.

A visão de que todo ser humano é criado a imagem e semelhança de Deus, possuindo igual dignidade, sendo assim, possuidor de direitos dados pelo Criador, transformou tudo isso. E isso surgiu pela primeira vez na história com a visão judaico-cristã.

Dessa visão de que todo ser-humano é digno, pois foi criado por Deus, temos a base de incentivo a educação.

Durante boa parte do período medieval, quase toda igreja possuía uma escola em anexo, na qual crianças podiam estudar. Os monastérios também possuíam centros de ensino e uma estimada vida intelectual. Como a historiadora Regine Pernoud afirma: “A criança, na Idade Média como em todas as épocas, vai à escola. É, em geral, a escola da sua paróquia ou do mosteiro mais próximo.”[7] E com o passar dos séculos, essa educação foi ampliada e culminou na criação das primeiras universidades.

As duas primeiras universidades foram fundadas em meados do século XII, que foram as universidades de Paris e Bolonha. As universidades de Oxford e Cambridge foram fundadas por volta de 1200, seguidas por uma onda de diversas instituições no séc. XIII; Toulouse, Orleans, Nápoles, Salamanca, Sevilha, Lisboa, e muitas outras. Recorde-se que eram instituições intensamente cristãs, todos os professores eram ordenados pela Igreja, constituindo a maioria dos primeiros cientistas famosos.[8]

Em 13 de abril de 1231, o Papa Gregório IX emitiu a bula ‘Universitas Parens Scientiarum’, que concedeu à Universidade de Paris o direito à autonomia de governo, permitindo-a elaborar as suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas e submeteu-a diretamente à jurisdição pontifícia, emancipando-a da interferência local, o que foi um marco na história da educação.

Próximo ao período da Reforma Protestante na Europa, em 1517, já existiam aproximadamente 100 universidades espalhadas pelo continente. Lutero, em sua Carta aberta a nobreza alemã, apela pela melhoria da educação, e para que todas as cidades alemãs criassem e mantivessem escolas cristãs para as crianças e jovens. João Calvino também é de extrema importância para a educação no período da reforma, especialmente na Suíça e nos países do norte, tendo sido o fundador da universidade de Genebra, que foi um polo intelectual muito importante de seu tempo.

Mesmo após o período da reforma e com a imigração de diversos protestantes para o Novo Mundo, as universidades se espalharam ainda mais.

Nos EUA, para onde muitos puritanos foram, antes de 1776 foram fundadas as universidades de Harvard, Yale, Columbia e Brown, e ao todo mais de 120 universidades confessionais foram espalhadas pelo país posterior a esse período.

Essa estima pelo saber tinha um fundamento. Como já falamos, a educação era uma forma de proporcionar dignidade da pessoa. Mas também era tido como um ato de contemplação a Deus, através da razão e sabedoria. A educação teve um papel fundamental para a dignidade do homem, e isso só foi possível graças a cosmovisão bíblica.

Toda essa busca pelo saber e o cultivo da razão dada por Deus levou ao nascimento da ciência, que foi o desdobramento natural do saber adquirido, desenvolvido e sistematizado pelas universidades. A ciência não nasceu num vácuo cultural, mas ela é fruto de um modo de pensar moldado pela cosmovisão cristã que construiu toda uma cultura.

O Nascimento da ciência

A cosmovisão exerce um papel de grande importância no fundamento da sociedade e no seu desenvolvimento como vimos. E a cosmovisão cristã proporcionou todo o fundamento necessário para o nascimento e desenvolvimento científico do ocidente.

Se a ciência é o estudo da natureza e suas causas, a visão bíblica deu a cultura ocidental suas premissas fundamentais. Não são todas as culturas que fornecem as “ferramentas” para a construção da ciência, como explica o filosofo e historiador italiano Giovanni Reale: “Com efeito, a ciência não é possível em qualquer cultura. Há ideia que tornam estruturalmente impossível o nascimento e o desenvolvimento de determinadas concepções, e até mesmo ideias que impedem toda a ciência em seu conjunto, ao menos como hoje a conhecemos.” [9]

O antropólogo americano e escritor científico, Loren Eiseley, complementa: ” A ciência exige algum tipo de solo fértil para florescer.” E quando questionado sobre que tipo de solo seria esse, admite: “É o mundo cristão que finalmente deu à luz de uma maneira clara e articulada ao método experimental da própria ciência.”[10]

Então vemos que certas visões de mundo irão impulsionar ou simplesmente bloquear os desenvolvimentos culturais, dentre eles o científico.

O salmista abertamente diz: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”. [11]

O surgimento da ciência não foi uma evolução da sabedoria antiga. Foi a conclusão natural da doutrina cristã. Primeiro, o mundo é real e não apenas uma ilusão, como algumas visões panteístas ensinam. A natureza existe porque foi criada por Deus para que o homem tenha domínio sobre ela, conforme Genesis 1:28. O mundo material não era ruim, como alguns gregos ensinavam, mas a criação de Deus era “muito boa”, conforme o próprio Deus atestou. Então, para amar e honrar a Deus, é necessário compreender e apreciar as maravilhas da Sua obra. Porque Deus é perfeito, a sua obra guia-se por princípios imutáveis. Através do poder da razão, que é um dom de Deus, e da observação, é possível desvendar estes princípios.

Esses segredos da criação, foram princípios fundamentais, conforme Alfred Whitehead, um especialista em filosofia da ciência explica: “A maior contribuição da Idade Média para a constituição do movimento científico foi a certeza de que existe um segredo, um segredo que pode ser descoberto.”[12] E foi esse segredo, baseado na racionalidade de um Deus criador e intencional, que formou as leis naturais e ordenou o universo, que foi o diferencial do ocidente cristão de outras culturas. Em outras palavras, a cosmovisão bíblica lançou as bases da ciência.

Esse pressuposto da Sabedoria de Deus, da ordem e da estabilidade natural que as Escrituras trazem acerca da criação, deu forma ao pensamento ocidental. O livro bíblico de Provérbios, no capítulo 8, traz essa personificação da Sabedoria, quando diz: “ Quando ele preparava os céus, aí estava eu, quando traçava o horizonte sobre a face do abismo; Quando firmava as nuvens acima, quando fortificava as fontes do abismo, Quando fixava ao mar o seu termo, para que as águas não traspassassem o seu mando, quando compunha os fundamentos da terra. Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável e enchendo-me de prazer com os filhos dos homens.” [13]

Eis uma grande diferença da visão cristã. A maioria das religiões nem sequer acredita numa criação do universo. Muitos veem o universo como eterno, e apesar de se comportar em ciclos, ele não tem objetivo e nem propósito. Ou o veem como uma entidade misteriosa, incompreensível e imprevisível. Para os que tem essas crenças, não há ocasião para celebrar a razão, a ordem e muito menos o conhecimento científico.

Stanley Jaki, um renomado historiador da ciência, fez um estudo mostrando que das sete grandes culturas, entre elas a grega, hindu, egípcia, maia, chinesa, arábica e babilônica, a ciência “nasceu morta” em todas elas, devido a sua concepção errônea de mundo, principalmente em relação a criação do universo e as lei naturais.[14]

No hinduísmo, por exemplo, como explica o professor indiano Vishal Mangawaldi; “uma cultura pode ter indivíduos capazes, mas eles não procuram leis na natureza se creem que essa natureza é encantada e governada por milhões de pequenas divindades, como um deus do rio, da chuva […].” [15] Exatamente como a cultua hindu concebe a realidade criada.

O animismo das culturas antigas, cujo o conceito era de que a divindade era imanente as coisas criadas, impediu o desenvolvimento da ciência porque excluía a possibilidade de leis naturais constantes e lógicas. Mesmo o islamismo não sendo uma religião animista, eles possuem uma visão autoritária de Alá, para eles, sugerir leis fixas da natureza era limitar o poder de ação de Alá, e isso era blasfêmia.

A cosmovisão desses povos os impediu de explorar a natureza de forma sistemática e bloqueou qualquer possibilidade científica na cultura.  De uma forma ou de outra, todas essas culturas impediram o desenvolvimento da ciência devido a sua cosmovisão.

O cristianismo, por outro lado, ao confiar na razão, apoiada nos princípios eternos de Deus, enxergava o mundo como algo a ser desvendado e entendido. Essa ideia de um conflito entre ciência e fé é recente, e não faz sentido algum. Como bem coloca o historiador David C. Lindberg: “Isso é uma grande distorção.” [16] Ou como coloca Rodney Stark: “Ciência e religião não são apenas compatíveis, são inseparáveis. O impulso científico foi fruto do trabalho de estudiosos cristãos e devotos.” [17]

Esse solo fértil da cosmovisão cristã fez brotar a ciência e gerou seu desenvolvimento. Como afirmou Max Planck, um dos maiores cientistas do século XX e vencedor do Nobel de Física: “Tanto a religião quanto a ciência precisam para as suas atividades a crença em Deus, e além disso, Deus se apresenta para a primeira no começo e para o segundo no final de todo o pensamento. Para o primeiro [religião], Deus representa a base, para os segundo [ciência] – a coroa de qualquer raciocínio relativo à visão de mundo.” [18]

A crença de que o cristianismo é inimigo da ciência não se mantêm de pé diante dos fatos. Diversos historiadores da ciência nos mostram que o desenvolvimento científico do ocidente foi feito em berço cristão. E não somente isso, os grandes cientistas que mudaram o rumo das ciências foram cristãos, e fizeram ciência com base em sua cosmovisão cristã.

Desde os cientistas medievais  como Mondino de’Luzzi (1270-1326), que realizou uma das primeiras dissecções humana na Universidade de Bolonha, Nicolau d’Oresme foi (1125-82) com grandes contribuições em mecânica e astronomia, passando pelos jesuítas, que dominaram diversas áreas da ciência, principalmente a astronomia, tendo quase 40 crateras lunares sido batizadas com seus nomes,[19]  até os grandes e conhecidos nomes como, Kepler, Copérnico, Newton, Pascal, Robert Boyle, Pasteur dentre tantos outros, inclusive diversos ganhadores de prêmios Nobel.

Pois como Galileu expõe: “A Bíblia e os fenômenos da natureza procedem igualmente da palavra divina, a primeira, ditada pelo Espírito Santo, e os últimos como executores do mandamento de Deus.”[20]

E como o apóstolo Paulo nos explica: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis.”[21]

A mulher na sociedade

Não foi necessário movimento organizado politicamente, ou leis impostas pelo Estado que vieram em resgate da mulher no mundo antigo, mas bastou o Evangelho penetrar na cultura para que a vida da mulher fosse melhorada de alguma forma.

O sofrimento e a injustiça abarcam todo nosso mundo caído devido ao pecado, e as mulheres não foram as únicas a enfrenta-lo, mas pela graça do Evangelho, que transformou vidas e corações, elas puderam enfrenta-lo em melhores condições. Assim como o início da abolição da escravidão não foi fruto de um movimento revolucionário ou de revoltas civis, mas sim de transformação da cultura pela lente do Evangelho. Foi o próprio evangelho a peça chave de transformação das cosmovisões que transformou a sociedade no seu trato com a mulher.

Desde a antiguidade, as mulheres não tinham um papel de destaque na sociedade, muito pelo contrário. Na Palestina do século I, o historiador judeu Flávio Josefo nos mostra que o testemunho das mulheres não era bem aceito pela sociedade. “Não deixe o testemunho de mulheres ser aceito.” [22] O mesmo acontecia em Roma. No que diz respeito à mulher, o essencial deste direito foi brilhantemente exposto pelo jurista Robert Villers: “Sem exagero nem paradoxo, a mulher em Roma não era sujeito de direito. A mulher é unicamente um objeto.“[23]

Mas isso mudou de forma bem radical. Em Lucas 8, além dos 12 apóstolos também são relatadas que mulheres que haviam sido curadas e que seguiam a Jesus, bem como o sustentavam com seus bens.

Vemos nos capítulos finais da epístola de Paulo aos Romanos, escrita ainda na década de 50 d.C., que Paulo saúda pelo menos 15 mulheres que tinham posição de liderança na congregação romana. Sem contar Lídia[24], comerciante de púrpura, mulher importante que abriu a sua casa para receber Paulo e seus companheiros em viagem, sendo uma das primeiras mulheres batizadas na Europa.

Mas o ponto alto da relação da mulher com a causa do Evangelho, foi que mesmo no século I, tendo um testemunho desacreditado perante a sociedade, Deus as colocou como primeiras testemunhas e responsáveis por dar a notícia do fato mais relevante da história do mundo, a ressurreição.

O cristianismo historicamente atraiu muito mais mulheres do que homens, a ponto dos romanos o desprezar como “uma religião de mulheres”.  Isso é historicamente provado, através de inscrições de túmulos e pesquisas históricas. Como o grande historiador Henry Chadwick afirma: “O cristianismo foi especialmente bem-sucedido entre as mulheres.”[25]

Mas por que as mulheres eram tão atraídas ao cristianismo?

Além do motivo óbvio da salvação e perdão dos pecados, a visão sobre as mulheres que o cristianismo pregava era diferente das outras culturas.

O cristianismo desempenhou um papel crucial na extinção de práticas como o sacrifício humano, a escravidão, o infanticídio e a poligamia. Assim como o divórcio, incesto, infidelidade, e o aborto. Todos esses pontos foram cruciais para a elevação da condição da mulher na sociedade, trazendo mais segurança e dignidade a elas.

Essa preocupação com as mulheres pode ser vista desde da Igreja em Atos, no cuidado especial das viúvas. Enquanto em outras culturas as viúvas eram desprezadas e excluídas socialmente, e as vezes até mesmo mortas, no cristianismo eram acolhidas e cuidadas. Como a própria Escritura exortava: “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades.”[26]

A vida da mulher melhorou em diversos aspectos, desde o matrimônio, essa mesma instituição que hoje é considerada falida, mas que ao ser santificado pelo ideal cristão, proibindo divórcio e tornando equivalente o pecado de traição, trouxe muito mais segurança a mulher e foi fundamental para manutenção da família[27]. O próprio historiador Edward Gibbon, que culpava o cristianismo pela queda do Império Romano, foi obrigado a admitir; “Os cristãos restauraram a dignidade do matrimônio. ”[28]

Também o infanticídio, hoje mais comumente também conhecido como aborto, era uma prática terrível que assolava o mundo antigo. As práticas pagãs de sacrifício infantil são narradas por um cristão do século II.  “Eu vejo seus bebês recém-nascidos expostos por vocês aos animais selvagens e as aves de rapina, ou sendo cruelmente estrangulados até a morte. Há também mulheres entre vocês que, por tomarem certas drogas, destroem os inícios do futuro do ser humano enquanto este ainda está no útero, e são culpadas de infanticídio antes de serem mães. Essas práticas certamente foram dadas a vocês pelos seus deuses.”[29]

O abandono de bebês indesejados era uma prática comum no império romano, e bebês do sexo feminino eram mais rejeitados do que do sexo masculino. Um estudo baseado em inscrições funerárias foi capaz de reconstruir 600 famílias romanas, e descobriu que apenas 6 delas tinham criado mais de uma filha.[30]

O cristianismo foi a única voz a se levantar contra tais práticas. Toda forma de infanticídio foi condenada (o aborto entre elas), o que favoreceu mais nascimentos, principalmente de bebês do sexo feminino. Ou seja, o cristianismo proporcionou que mais mulheres nascessem, aumentando consideravelmente a população feminina.

Por todo esse cuidado com a mulher que a cosmovisão cristã fornecia, elas foram sendo atraída e foram essenciais na propagação do evangelho por toda a história. Durante a idade média por exemplo, muitas rainhas e princesas ao se converterem, foram as pregadoras do evangelho em seus lares, levando muitos reis a também se converteram e permitir a entrada no cristianismo em suas terras. Como por exemplo; no século V, Clodilte, a rainha dos francos, através da sua influência teve seu marido o rei Clóvis I batizado, tornando a Gália (futura França), o primeiro reino cristão da história. Poderíamos ainda mencionar diversas outras rainhas como, Teodósia da Espanha, Berta da Inglaterra, Santa Odília, da Alsácia, ou ainda Santa Batilde, jovem vendida como escrava que depois se tornou regente dos reinos dos francos no século VI, sendo de extrema importância na abolição da escravatura no seu tempo.

Com o avançar dos anos, após tremendos avanços no campo familiar e com o aumento da perspectiva de não ser morta ao nascer, as mulheres cada vez mais exerceram seu papel na sociedade e passaram a formar comunidades religiosas dotadas de governo próprio, algo inusitado em qualquer cultura do mundo antigo. Elas dirigiam as próprias escolas, conventos, orfanatos e hospitais. Além de terem sido rainhas, princesas, abadessas, cientistas, escritoras e diversas outras coisas. Tudo isso apenas com a transformação social causada pelo evangelho de Cristo. Podemos citar Fabíola, que fundou o primeiro hospital público em Roma no século IV para cuidar dos pobres e necessitados.[31] Ou Santa Teresa D’Avila, que reformou a Ordem religiosas das Carmelitas Descalças, fundando 32 mosteiros pela Europa em pleno século XVI, sendo uma das pessoas mais admiradas de seu tempo.[32] E Faltonia, que foi uma famosa poetisa cristã do século IV, tendo sido incluída por Giovanni Boccaccio como uma das mulheres mais influentes da Idade Média.[33]

Após a visão cristã permear a sociedade e causar grandes mudanças sociais, elevando a condição humana de modo geral, a vida da mulher na sociedade passou a ser muito melhor do que em outros tempos ou culturas. O ideal de igualdade como seres criados à imagem e semelhança de Deus dissolveu as barreiras em diversos aspectos.

Conclusão:

A cosmovisão cristã foi a grande arquiteta da nossa civilização. Se os seguidores de Jesus tivessem permanecido como uma obscura seita judaica, maioria das pessoas não teria aprendido a ler e os restantes estariam a ler rolos de pergaminhos escritos a mão. Se não tivesse existido uma teologia dedicada a razão, a sabedoria, ao progresso e a igualdade moral, hoje o mundo inteiro estaria subdesenvolvido; num mundo com muitos astrólogos e alquimistas, mas sem cientistas. Um mundo onde aprisionar o mais fraco é justificável e subjugar uma mulher pode ser um ato moral. Não foi islamismo, o hinduísmo ou a mitologia grega que criou o mundo que conhecemos, mas sim a visão bíblica cristã.  Não digo que o cristianismo fez tudo sozinho, mas ele soube moldar as outras visões a traze-las cativas a Cristo.

O sociólogo Rodney Stark traz uma interessante conclusão em seu livro, mostrando que alguns pesquisadores chineses investigaram as causas da diferença entre o mundo ocidental e oriental, eles concluem:” estudamos tudo que se possa imaginar, de uma perspectiva histórica, política, económica e cultural. Primeiro, pensamos que foi porque tiveram melhores armas do que nós. Depois, pensamos que foi porque tiveram o melhor sistema político. A seguir, passamos ao sistema económico. Mas durante os últimos vinte anos, percebemos que o coração da vossa cultura é a religião: o cristianismo. Foi a base moral cristã da vida social e cultural que possibilitou o surgimento do mundo ocidental como conhecemos.” [34]

A cosmovisão cristã é poderosa pois está arraigada na palavra eterna de Deus, e somente isso tem o poder de transformar os corações a ponto de transformar toda uma cultura. Pois “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão”.[35] “essa é a Palavra que vos foi evangelizada.”[36]

[1] NASH, Ronald Cosmovisões em Conflito p.25

[2]  DOOYWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental p. 183

[3] Romanos 12:2

[4] ELIOT, T.S Notas para Definição de Cultura p.18

[5] DAWSON, Christopher, Progresso e Religião p.82

[6] DAWSON, Christopher, Progresso e Religião p.206

[7] PERNOUD, Regine Luz Sobre a Idade Média p.98.

[8] STARK, Rodney A Vitória da Razão p.100

[9] REALE, Gionanni, ANTISERI, Dário, História da Filosofia Vol. 1 – Filosofia Pagã Antiga p.21

[10] EISELEY, Loren Darwin’s Century p. 62.

[11] Salmos 19:1

[12] WHITEHEAD, Alfred, A Ciência e o mundo Moderno p.28

[13] Provérbios 8 27:31

[14] JAKI, Stanley The Savior of Science p.21-49

[15] MANGAWALDI, Vishal O livro que fez o seu mundo p. 259.

[16] LINDBERG, David The Beginnings of Western Science p.146

[17] STARK, Rodney A Vitória da Razão p.61

[18] PLANCK, Max, Religion und Naturwissenschaft, 1958, 27.

[19] WOODS, Thomas Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental p.96

[20] GALILEI, Galileu Cartas a grande duquesa Christina da Toscana. 1615.

[21] Romanos 1:20

[22] JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas 4.8.15

[23] VILLERS, Robert apud PERNOUD, Regine. A mulher no tempo das catedrais p.15

[24] Atos 16

[25] CHADWICK, Henry. The Early Church, 1967

[26] Tiago 1:27

[27] DA COSTA, Ricardo et al. Visões da Idade Média p.162

[28] GIBBON, Edward Apud Thomas Woods. Como a Igreja católica construiu a civilização ocidental p.202

[29] FELIX, Minucius, ‘The Octavius’ of Minucius Felix p.83

[30] LINDSAY, Jack. 1968. The Ancient World: Manners and Morals

[31] WOODS, Thomas. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, p.162

[32] MILLER, Rene-Fullop. Os Santos que abalaram o mundo p.365-380

[33] CORTIJO, Ocaña, 2012, p. 206-207

[34] STARK, Rodney The Triumph of christianity p.276

[35] Mateus 24:35

[36] 1 Pedro 1:25

 
 
 

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