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COMPREENDENDO O OCIDENTE (COMO CAMINHO PARA A PAZ) – Stefano Fontana

16 de mar. de 2022
3 min de leitura

Parto da crise ucraniana não para falar sobre a guerra, mas para me perguntar que coisa é o Ocidente, já que essa palavra é frequentemente usada nas notícias e comentários. Não vou comentar a guerra, mas talvez esclarecer esse ponto possa ser útil para refletir sobre o que está acontecendo e, sobretudo, sobre as perspectivas futuras.

O Ocidente não é um ponto geográfico, porque então a China também seria Ocidente, como o é para os americanos de Seattle. O Ocidente nem é uma aliança militar. O Ocidente não é nem o que acontece no Ocidente, porque nele acontecem coisas que contrastam com a verdadeira natureza do Ocidente. O Ocidente com O maiúsculo não é o ocidente com o minúsculo. É preciso distinguir entre Ocidente e ocidente, ou seja, como o Ocidente tem sido bastante reduzido, degradando-se quanto à sua origem e natureza. O ocidente de hoje tem bem pouco a ver com o Ocidente.

O que é, então, o Ocidente? É uma civilização na qual o cristianismo reuniu, purificando-os, a filosofia grega e o direito romano. Havia também outros elementos, que, no entanto, eram perturbadores: encaminhavam-se para rumos heterodoxos e degenerativos, ou então eram assumidos e iluminados pelo cristianismo. A crise no Ocidente começou há séculos, quando essa síntese civilizatória foi questionada pela primeira vez, depois erodida e finalmente quase demolida. Como disseram tantas mentes ilustres — de Karl Löwith a Carl Schmitt, de Marcel de Corte a G. K. Chesterton —, o que pertence ao Ocidente, hoje, deriva do Ocidente cristão por meio de um longo processo de secularização. Segundo Löwith, “a degeneração do sistema europeu tem uma única causa, a saber, a degradação política do poder espiritual”. Esse processo degenerativo fez Joseph Ratzinger dizer: “O Ocidente tem uma espécie de ódio de si mesmo (…) que só pode ser considerado como algo patológico; o Ocidente (…), em sua história, vê apenas o que é deplorável e destrutivo, não sendo mais capaz de perceber o que nele é grande e puro”.

O Ocidente é a Europa, juntamente com a Magna-Europa [países fora do continente civilizados pela Europa], mas “a Europa (…) parece esvaziada internamente, como que paralisada por uma crise circulatória, uma crise que põe em risco a sua vida, confiando-a transplantes que cancelam a sua identidade”; no entanto, o cristianismo “na Europa recebeu sua marca cultural e intelectual historicamente mais eficaz e, portanto, [o cristianismo] permanece entrelaçado de maneira especial com a Europa “(Ratzinger). Este processo degenerativo do Ocidente encontrou, muitas vezes, uma expressão trágica nas “guerras civis europeias”. Essa noção, que devemos ao grande historiador alemão Ernst Nolte, parece ser aplicável ainda hoje. Toda guerra civil é um suicídio; Bento XV disse que a guerra — falava ele da Primeira Guerra Mundial — teria sido o suicídio da Europa.

Contudo, se o Ocidente é isso e se isso é a Europa, a Rússia também faz parte do Ocidente e da Europa. É impossível contrapor o Ocidente e a Rússia. João Paulo II estava profundamente empenhado tanto em sinalizar a degeneração do Ocidente, como em sonhar com um Ocidente recomposto e com todas as suas almas, “a vocação da Europa à fraternidade e à solidariedade de todos os povos que a compõem, do Atlântico aos Urais “(5 de outubro de 1982). Este projeto de João Paulo II não deve se limitar a algumas situações históricas particulares, como ao então vigente sistema de dois blocos, ou, mais tarde, a guerra nos Balcãs. É válido em si e como tal; e é sempre válido, porque está enraizado na essência do Ocidente. A partir deste último ponto de vista, ele propôs a “nova evangelização”, que não deve ser entendida como um novo tipo de evangelização, mas como uma reevangelização do Ocidente, começando pela Europa. Ele também comprometeu toda a sua função apostólica ao propor o retorno a uma única Europa, que respirasse com os dois pulmões (disse-o em 1983 e depois várias outras vezes). Para ele, a Rússia fazia parte do Ocidente e fazia parte da Europa.

O Ocidente e a Rússia não são modelos contrastantes de civilização. É claro que este Ocidente e esta Rússia foram atingidos pela degeneração que mencionei. O secularismo, o relativismo, a irreligiosidade, a rejeição da moralidade natural afetam ambos: como uma única e mesma degeneração do Ocidente que assumiu duas formas, e não como dois mundos separados e contrastantes. O comunismo, que influenciou poderosamente a degradação da sociedade russa, foi um vírus ocidental; na verdade, para pensadores como Del Noce, foi o acontecimento mais consistente e devastador da moderna degeneração do cristianismo. Na verdade, agiu e continua a agir não apenas na Rússia, mas também mais a oeste.

Não falei de guerra, mas talvez assumir a visão que propus possa ajudar a elevar nosso olhar e nossas intenções, e a nos distanciar de qualquer posição reducionista, a qual, certamente, não colabora com a paz.

 
 
 

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