CONFISSÕES, LAMENTAÇÕES E ESPERANÇA A CAMINHO DE DAMASCO – Jorge de Lima

O mundo precisava de amor: Na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado: A Hóstia para matar fome e sede. E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai E Lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo. Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento, Dai-me complacências. Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a. Dai-me olhos de contemplação, Dai-me respostas, Dai-me um cavalo de Vosso Reino Que tomando as rédeas de minha mão me leve para Damasco. Pai Amado, sou cego, aleijado, e paralítico: Meus membros não darão na Cruz. Estou calejado de perenes quedas: Curai-me todo. Transformai-me como transformastes o vinho. Não me abandoneis em interrogação permanente. Dei-vos uma costela para fazerdes Eva E as 23 restantes a Satã para corrompe-la. Sou colono e amicíssimo de Lúcifer. Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra. Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco! Sou fornecedor de armas para os filisteus. Sou o que torpedeia a Arca e a Barca. Sou reconstrutor de Babel. Sou bombeiro do incêndio de Sodoma. Fui demitido da Vida, E Vós me enviastes outra vez. Demiti-me de novo que errei mais! Sou o assassino de Lázaro, Sou plantador de joio: Dai-me um cavalo para eu fugir! Quis afogar São Cristóvão, Transformei as algas em micróbios E as asas em aviões de guerra! Quis afogar São Cristóvão, Transformei as algas em micróbios E as asas em aviões de guerra! Deus Amado, Vós que tendes sido meu paraquedas, Meu ascensor, minha escada, minha ponte, Segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus! Dai-me um cavalo para eu fugir! Dai-me um cavalo de Vosso Reino E que eu sem querer vá para Damasco. Amado-Pai, no caminho de Damasco Basta uma sílaba para eu enxergar de-novo, Ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!
(Jorge de Lima, Obra poética. Pref. de O. M. Carpeaux. Rio de janeiro, Ed. Getúlio Costa, 1949, p. 262)
















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