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Constantino, o Grande

2 de fev. de 2018
24 min de leitura


”Com este sinal vencerás ”

”O homem que , em 312 , ia mudar de um golpe os destinos do Império e o curso da história era um jovem príncipe de trinta e dois anos , por quem a Fortuna – ou a Providência – parecia ter sempre velado. Filho daquele Constâncio Cloro que , como César e depois como Augusto do Ocidente , sempre dera provas nos seus Estados , não só de firmeza, mas até de clemência , nascera em Naisso (Nisch) , na atual Sérvia, por volta do ano 280.

Pelo lado paterno , estava ligado a urna nobre família romana da Ilíria, com a qual era aparentado o imperador Cláudio II , o Gótico. Sua mãe, que o cristianismo viria a rodear de veneração e de glória, era Helena, mulher de condição bastante modesta – criada de estalagem , diziam as más línguas , ou filha de um hoteleiro da Ásia Menor, diziam outros – que, seja como for, Constâncio não desposara legalmente. Educado na corte de Nicomédia , sob os próprios olhos de Diocleciano , isto é, em parte como pajem e em parte como refém , Constantino entrou aos quinze anos para o exército e aos dezoito era já ‘ ‘ tribuno de primeira fila’ ‘ – pouco mais ou menos general de brigada – e tornara-se conhecido por urna coragem física indefectível .

Quando Diocleciano se retirou, Galério achou prudente conservar junto de si um rapaz tão lançado , tão corajoso , por quem os soldados nutriam uma louca admiração . Conta-se mesmo que , mais tarde , o velho Augusto sanguinário tentara ver se a sorte o livrava desse possível rival: aproveitando-se da sua bravura um pouco orgulhosa , lançara-o em estranhas aventuras, desafiando-o uma vez a combater um leão (sic !) e outra um sármata gigantesco ; mas o jovem príncipe arrostara incólume todos os perigos. Suficientemente esperto para farejar as ciladas que lhe armavam – e receando talvez alguma maquinação definitiva – , Constantino não esperava senão uma ocasião propícia para afastar-se de Galério. Como seu pai Constàncio o tivesse reclamado oficialmente, porque estava muito doente e tinha necessidade de um adjunto na expedição à Inglaterra que preparava contra os pictos , o jovem príncipe arrancou do Augusto licença para se ausentar e abalou imediatamente pela estrada de Bolonha do Mar, tendo o cuidado , para maior segurança , de ir mutilando os cavalos de posta em cada etapa, para que , quando Galério reconsiderasse e se lançasse no seu encalço , não tivesse meios de o alcançar.

Muito alto e forte , de tez morena, espáduas largas e nuca espessa, Constantino era desses homens cujo aspecto físico já obriga a respeitá- los. Entregue às ocupações impostas pela sua categoria, mantinha habitualmente um ar de gravidade serena, a que uma real gentileza e uma ironia natural emprestavam um matiz de afabilidade levemente zombeteira. Todas as suas estátuas o apresentam majestoso , sério , de fronte austera , a boca ávida e com qualquer coisa de pueril e de inocente nos olhos muito abertos. Inteligente , mas de cultura medíocre, estropiava o grego e respeitava as letras, embora não as praticasse.

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Do ponto de vista moral , era dotado de uma natureza complexa , cujas contradições são significativas : modelo de uma vontade férrea que bruscamente desfalece , cede por vezes ao desânimo e passa a aceitar todas as influências ; homem generoso , amigo da clemência, muitas vezes explode em violências sanguinárias e se mostra de uma terrível crueldade , misto de humildade sincera e de um orgulho que nenhum louvor poderá apaziguar. Por todos os traços que nele se notam é , literalmente , um bárbaro, não no sentido moral e pejorativo da palavra , mas no sentido psicológico , um homem de transição , instável, ligado a tradições e princípios que não compreende , mais instintivo do que político , mais supersticioso do que racional, um homem inteiramente voltado para o futuro .

Quando Constância Cloro morreu em York durante a campanha britânica, em 306 , as legiões proclamaram-no Augusto , sem que Galério tivesse sido consultado ; este limitou-se a conceder ao jovem a dignidade de César , com o que Constantino se conformou provisoriamente. As brilhantes vitórias alcançadas sobre os alamanos e os francos , a construção de uma ponte sobre o Reno , em Colônia , a captura dos reis germanos Ascárcio e Raguese , que foram lançados às feras , acabaram por garantir-lhe a dedicação das suas tropas.

Torna-se então um poder, o único poder do Ocidente. Por isso , quand  no ano seguinte Maxêncio , filho de Maximiano , invejoso desses louros e ressentido por se ter visto preterido em favor de Maximino Daia, dá um golpe de estado em Roma, proclama-se Augusto e coloca no poder , junto de si , o seu velho pai , é para Constantino que se voltam os dois novos senhores da Itália, pretendendo pregar entre os três uma peça aos senhores do Oriente. Constantino desposa Fausta , a sedutora filha de Maximiano que conhecera em Nicomédia e que o tinha presenteado com um capacete de ouro por ocasião da sua aventurosa partida. Mas , nestes tempos conturbados , os entendimentos políticos são frágeis. Passam-se alguns meses e Maximiano tenta liquidar o genro. Fausta, avisada, finge entrar na conspiração e previne o marido , que vigia o sogro , apanha-o em flagrante 7 e arranja as coisas para que o encontrem enforcado numa prisão. Como na mesma ocasião – 311 – Galério dava a alma ao Criador , a situação ficava relativamente clara: no Oriente , Maximino Daia e Licínio , herdeiros de Galério; em Roma, Maxêncio. Mas duas cabeças no Ocidente, Constantino e Maxêncio , estavam de acordo em pensar que uma delas sobrava.

Muito naturalmente , o Augusto de Roma declarou-se o único soberano legítimo , o único descendente dos grandes imperadores , cujos palácios ocupava. Além disso , não é verdade que se parecia com eles sob muitos aspectos , já que reparava estradas , empreendia grandes trabalhos e multiplicava faustosamente os espetáculos populares ? Era um tipo curioso este homem baixo , moreno , com o cabelo cortado à escovinha , de um temperamento desiludido e cético , indulgente para com os cristãos mas restaurador dos ídolos , e que pouco se importava com o ofício das armas , mesmo nesses dias de grande violência.

Na primavera de 312 , depois de ter firmado a fronteira do Reno e de ter concluído um acordo com Licínio , a quem deu sua irmã Constança em casamento, Constantino entrou em campanha. Levava consigo menos de 40. 000 homens , mas todos gauleses , germanos e bretões ; no seu entender, eram suficientes para dispersar os cem mil soldados da corte ou mercenários da África que Maxêncio tinha reunido às pressas. Ao passo que o Augusto de Roma não se atrevia a sair da cidade , porque um oráculo lhe anunciara que morreria se transpusesse as muralhas , Constantino dirigia pessoalmente uma campanha verdadeiramente napoleônica.

Atravessou os Alpes sem qualquer entrave junto ao monte Genebra ; tomou Susa à força e , depois de repelir um ataque de cavalaria pesada no Pó , Turim , Milão , Verona e Módena abriram-lhe sucessivamente as portas. Em Roma, onde a princípio haviam zombado do audacioso que vinha combater tão longe das suas bases , o terror começou a alastrar-se.  Foi discutido em conselho se se deveria esperar o inimigo por trás das poderosas muralhas construídas outrora por Aureliano ou se seria preferível ir ao encontro dele , desbaratá-lo em campo raso e libertar depois os portos que a sua frota acabava de bloquear. Contra a vontade de Maxêncio , que pensava no oráculo , optou-se pela segunda solução. Não tinham os Livros Sibilinos anunciado que “o inimigo dos romanos devia morrer” ?

A 27 de outubro de 312 , avançando pela Via Flamínia, Constantino pôde avistar Roma de longe. A cidade da Loba – que ele nunca visitara , pois sempre vivera no Oriente ou nas Gálias – , com as suas muralhas coroadas de ameias , os seus monumentos que brilhavam ao sol , os aquedutos gigantescos que para ela convergiam através da campina, era agora a parada que ele apostava naquele jogo do seu destino. No dia seguinte, 28 de outubro , ao raiar da manhã, o exército de Maxêncio atravessou o Tibre pela ponte de Mílvio e por outra ponte de barcas que se formara para duplicá-la. As forças de Roma avançaram , pararam no desfiladeiro das Saxa Rubra – as ” Rochas Vermelhas ” , hoje Primaporta – , recuaram ao serem perseguidas e foram compelidas a travar batalha de costas contra o rio , numa posição deplorável. Logo no primeiro embate , os italianos e os cartagineses bateram em retirada ante a pressão dos soldados nórdicos; apenas alguns grupos de pretorianos se deixaram matar. Constantino , a cavalo, dirigia o ataque à frente dos seus gauleses. Maxêncio , posto em fuga, foi apanhado no turbilhão dos soldados em debandada , caiu na água devido ao desmoronamento da ponte das barcas e afogou-se. Encontraram no dia seguinte o seu cadáver boiando no rio ; cortaram-lhe a cabeça e passearam-na pela cidade, espetada na ponta de uma lança.

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Esta vitória decisiva continha um sentido infinitamente mais sério do que o de um simples ajuste de contas entre dois ambiciosos. Com efeito, ocorreu no decorrer da batalha um acontecimento de importância histórica excepcional: Constantino aderiu ao cristianismo. Até então tinha sido pagão , um pagão tolerante , propenso talvez a incluir o Evangelho numa concepção sincretista do mundo , ou talvez atormentado como seu pai pela inquietação e pelo desejo de converter-se. Três anos antes , invocava ainda o Sol Invictus e afirmava ter tido uma aparição de Apolo. No dia seguinte ao da vitória, torna se um cristão convicto ; não são só os historiadores cristãos que o afirmam ; o fato depreende-se também dos panegíricos e inscrições oficiais . Deu-se uma reviravolta provocada por um evento cujo caráter estranho viria a favorecer o aparecimento de muitas lendas , mas de cuja realidade não podemos duvidar.

Os quatro documentos oficiais sobre o episódio são os seguintes: sobre o arco do triunfo , erigido em 313 para comemorar a sua vitória, lê-se uma inscrição na quel Constantino proclama que venceu por uma ”inspiração da divindade ” ; semelhante fórmula podia ser aceita tanto por cristãos como por pagãos. Redigindo no mesmo ano o livro IX da História Eclesiástica, Eusébio declara formalmente que , na sua luta contra Maxêncio, Constantino ” invocou Cristo e a Ele deveu a vitória” ; mas não entra em detalhes. É por Lactâncio, que escrevia em torno de 318 , e pela Vida de Constantino do mesmo Eusébio , que data de quinze ou vinte anos mais tarde , que . se conhecem os célebres pormenores.

Uma noite – diz Lactâncio – , pouco antes da batalha, Constantino teve um êxtase durante o qual recebeu de Cristo a ordem de colocar sobre o escudo das suas tropas um sinal formado pelas duas letras CH e R ligadas; é este , com efeito , o monograma que se encontra nas moedas e inscrições constantinianas. Quanto a Eusébio , informado – segundo diz – pelo seu herói imperial , que no fim da vida lhe teria contado todos os pormenores do episódio , eis a sua versão : momentos antes de entrar em luta com Maxêncio, Constantino apelou para o Deus dos cristãos e então , em pleno dia, viu no céu , para os lados do poente , uma cruz luminosa com estas palavras em grego: ” Com este sinal vencerás “. Na noite seguinte , Cristo apareceu-lhe e mostrou-lhe a cruz , convidando-o a mandar fazer uma insígnia que a representasse . Essa insígnia é o Labarum , estandarte em forma de cruz que , a partir daí, acompanhou sempre os exércitos de Constantino .

Tanto quanto se têm discutido as circunstâncias deste episódio , têm-se discutido incansavelmente as razões psicológicas da “conversão ” de Constantino. Alguns viram nela apenas um ato político que , medindo o poder do cristianismo , se propunha atraí-lo para o jogo do imperador . Outros , indo mais longe , suspeitaram da sinceridade do gesto de Constantino e, baseando-se no fato de não se ter batizado senão vinte e cinco anos mais tarde , consideram a sua conversão como manobra de uma ambição astuciosa, e, quanto à história das visões , vêem nela apenas uma fantasia romanesca. No entanto , pelo que se conhece deste homem , o fato nada tem de inverossímil.

Perseguido , como a maior parte dos seus contemporâneos , pela obsessão do sobrenatural , sabendo que o seu adversário recorria aos oráculos pagãos e persuadido de que , segundo as afirmações de Lactâncio , os inimigos de Jesus tinham todos um fim trágico , Constantino pode perfeitamente ter-se sentido arrastado a implorar a Cristo , como o viria a fazer Clóvis na véspera da batalha de Tolbiac . Uma vez vencedor, cumpriu a sua promessa e encetou uma política cristã . Seja como for, a sua determinação foi providencial , no sentido mais histórico da palavra. Não haverão de exagerar o alcance do seu gesto os artistas cristãos que , sobre os sarcófagos do século IV – evocando a vitória de Ponte Mílvio e Maxêncio ”tragado pelas águas juntamente com as suas tropas” -, hão de representar Constantino sob os traços de um novo Moisés . A história acabava de dar uma reviravolta decisiva.

O “Edito de Milão ” de 313

No dia seguinte ao da sua vitória , 29 de outubro de 312 , Constantino entrou triunfante em Roma. Foi muito bem recebido ; as classes altas detestavam Maxêncio, que as sobrecarregava de impostos , e o povo , como sempre , aderiu facilmente ao vencedor. Este mostrou-se moderado, mantendo nos seus lugares a maior parte dos funcionários , proibindo sob pena de morte a delação , limitando-se a licenciar as tropas pretorianas e a mandar matar um filho de Maxêncio e alguns dos seus amigos e fiéis , o que , para aquele tempo , era verdadeiramente o mínimo . A reparação , à sua custa , dos aquedutos romanos em mau estado tornou-o muito popular. Quanto à questão religiosa , não encontrou dificuldade . Com a evidente preocupação de não contrariar os seus súditos pagãos , aceitou sem hesitar as honras ” divinas ” que a bajulação tradicional lhe quis prestar, permitindo que lhe fosse dedicado um templo e lhe erigissem uma estátua dourada 8.  Estava-se ainda – e estar-se-ia até o fim do reinado – numa época de transição.

Mas , se Constantino não quis ferir as suscetibilidades pagãs , nem por isso deixou de manifestar os sentimentos que experimentava para com o cristianismo . Mandou cunhar imediatamente nas moedq.s o medalhão CH-R , e o Labarum 9 continuou a flutuar por cima dos seus exércitos . Maximino Daia recebeu uma carta em tom cominatório , em que era convidado a suspender sem mais delongas a perseguição aos cristãos . O procônsul da África recebeu outra, com a ordem de devolver à Igreja os bens confiscados. Parece que , já nesse inverno de 312 – 313 , o tesouro público contribuiu para a reconstrução dos edifícios de culto e que o papa Milcíades obteve da imperatriz Fausta o suntuoso palácio de Latrão , onde pouco depois reuniu um concílio. Mas em breve viriam a ser tomadas medidas mais categóricas.

Em fins de janeiro de 313 , Constantino deixou Roma e encontrou-se em Milão com o seu colega do Oriente , Licínio , que acabava de desposar sua irmã Constança. As cerimônias das núpcias imperiais desenrolaram-se paralelamente às conversações entre os dois novos cunhados , em que se debateram os pontos fundamentais das suas políticas e, em especial , da política para com o cristianismo . As entrevistas duraram possivelmente dois meses ; já nos primeiros dias de abril , Licínio teve de tornar a partir em guerra contra o terceiro colega dos dois , Maximino Daia . É, portanto , de fevereiro ou março de 313 que devemos datar os textos que iriam mudar tão decisivamente o curso da história e que um costume já muito antigo designa pelo nome de Edito de Milão .

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A expressão não deve ser tomada ao pé da letra . Não chegou até nós qualquer texto , assinado e promulgado em Milão , que fixe as bases da política cristã. O que conhecemos são apenas algumas cartas de Constantino e outras de Licínio , as primeiras mencionadas por Eusébio e as segundas por Lactâncio , que transmitem , acompanhadas de comentários , um certo número de cláusulas . Tem-se perguntado se o Edito de Milão não teria sido um simples ” protocolo ” assinado pelos dois Augustos após as suas entrevistas, com o fim de passar a limpo as decisões que tinham tomado em comum.

A discussão é bastante inútil . A despeito de algumas diferenças de expressão , os elementos fundamentais dessas decisões encontram-se em todos os textos e o seu sentido é perfeitamente claro . Quando entrou como vencedor em Nicomédia , em 13 de junho de 313, Licínio mandou fixar um rescrito que impunha as cláusulas desses textos. ” Enquanto estávamos felizmente reunidos em Milão , Constantino-Augusto e eu , Licínio-Augusto , e tratávamos em conjunto dos grandes interesses do Estado… ” Em Milão, não houve nenhum edito formalmente rubricado , mas pôs-se em execução a nova política definida pelos senhores das duas partes do mundo ; é daí que data o que tem sido perfeitamente designado sob o nome de paz constantiniana 10

As decisões de fevereiro-março de 313 dividiam-se em duas grandes partes: na primeira, os imperadores assentavam um princípio para o futuro e, na segunda, liquidavam o passado . ” Procurando solicitamente tudo que interessava ao bem público” , consideravam que ” entre as muitas coisas úteis ou , para melhor dizer , antes  de todas as outras coisas , importava estabelecer as regras relativas ao culto e ao respeito da Divindade ”. (Observe-se a propositada imprecisão da fórmula: tanto podia ser subscrita por Licínio , que era um pagão , como por um cristão).

Estas regras reduziam-se praticamente a uma só : ” A liberdade de religião não pode ser tolhida e é necessário permitir , quanto às coisas divinas , que cada um obedeça às moções da sua consciência”. A seguir, aplica-se o princípio aos cristãos , que eram os únicos súditos de Roma perseguidos nos últimos tempos . Os imperadores declaram categoricamente : ‘ ‘ Nós queremos que todo aquele que queira seguir a religião cristã possa fazê-lo sem qualquer receio de ser incomodado . Os cristãos têm plena liberdade para seguirem a sua religião ‘ ‘ . Não se podia ser mais solene : é uma declaração absoluta de tolerância . Mas não poderia ela inquietar os pagãos , que teriam medo de represálias ? Os Augustos precisam : ‘ ‘ O que concedemos aos cristãos é igualmente concedido a todos os outros . Cada um tem o direito de escolher e praticar o culto que preferir , sem ser lesado na sua honra e nas suas convicções . Depende disso a tranqüilidade do nosso tempo” .

A segunda parte já não é de ordem doutrinal , mas prática. A Igreja , agora reconhecida, tem o direito de ser ajudada a reconstruir as suas ruínas: o culto , agora lícito , deve ter condições para poder ser praticado . As decisões imperiais distinguem duas espécies de construções cristãs : as igrejas , ” lugares de assembléias ” , e as propriedades coletivas, certamente os cemitérios e outras . ” Sem indenização , sem reclamação de preço , sem demora e sem processo ” , tudo será restituído aos fiéis , e o Estado se encarregará de indenizar terceiros que tenham adquirido de boa fé esses bens. O edito de Galério , em 311 , e a decisão de Maxêncio na mesma ocasião , haviam já estabelecido regras muito aproximadas , mas por razões de oportunismo político ou de interesse pessoal do imperador . Mais importantes eram estas prescrições de  313 , pois associavam o princípio das reparações legítimas ao da liberdade espiritual .Era o início de uma nova ordem .

Não se pode avaliar a importância de tal acontecimento. Sob o ponto de vista histórico , nenhum lhe poderá ser comparado , depois da morte de Jesus , quanto à sua importância para o desenvolvimento do cristianismo. Neste momento preciso , viam-se recompensados os esforços heróicos dos Apóstolos e dos Mártires : a Revolução da Cruz triunfava . E o evento assumia um significado ainda maior porque não partia de um príncipe enfraquecido como Galiano no século anterior, de um moribundo aterrorizado como Galério , ou de um cético indeciso como Maxêncio , mas de um imperador no auge da glória, capaz de quebrar todas as resistências e que agora se inclinava livremente diante do Deus novo.

A Revolução da Cruz triunfava mesmo antes do que o permitiam supor os termos das decisões de Milão. A história obedece a imperativos lógicos, e há tomadas de posição que configuram o futuro muito mais do que as simples aparências o fazem prever. Pela simples razão de terem estabelecido estes princípios , Constantino e seu cunhado constituíam-se a partir daí como defensores do cristianismo; por isso , quando Licínio repelir um ataque de Maximino Daia e o venceu duramente 11 , levando-o ao suicídio na primavera de 313 , mandou imediatamente anular nos seus novos Estados todas as medidas de perseguição , tornando-se assim um fiador da paz de Cristo . Num regime tão subordinado ao Estado , tão centralizado e tão autoritário, em que a personalidade do imperador irradiava um brilho tão vivo , o simples fato de que o príncipe se mostrasse benevolente para com os cristãos bastava para que a balança pendesse para o lado deles 12

Em princípio, portanto , as decisões de Milão estabeleciam a igualdade entre o cristianismo e o paganismo. A religião de Cristo tornava-se uma religião ” lícita” , juntamente com muitas outras , como por exemplo a de Mitra ou a dos deuses egípcios. Mas o resultado era muito mais importante. A corrente geral de opinião e o conformismo das massas , que se haviam oposto à expansão cristã , vão agora trabalhar a seu favor. Não tinhamos imperadores reconhecido oficialmente que se haviam enganado todos os que tinham tentado destruir o cristianismo ? Não era evidente que o Deus dos cristãos era mais forte do que as velhas divindades pagãs, pois fizera triunfar o seu amigo ? Em vez de atribuir à impiedade dos cristãos as desgraças que ocorriam , como se tinha feito tantas vezes no passado, não seria necessário ir buscar as verdadeiras causas desses males à recusa que Roma opusera durante tanto tempo à nova fé? O próprio Constantino não devia estar longe de pensar assim , e, se nalguns meios tradicionais e intelectuais se considerava a mudança em curso como um espantoso retrocesso , o conjunto do povo, simplista e supersticioso , depressa se convenceria de que a vitória de Cristo estava inscrita no segredo do destino.

Não se caminhará , pois , para um regime de ” liberdade das consciências” , em que paganismo e cristianismo , aceitando-se mutuamente , lutariam com armas iguais sobre o terreno das almas , mas sim para um rápido declínio das velhas formas pagãs e o triunfo definitivo do Evangelho.

A própria noção de ” liberdade das consciências ” não tinha qualquer raiz na alma antiga. O paganismo poderá levar mais de dois séculos a desaparecer e conhecerá ainda momentos de vigoroso rejuvenescimento , como no tempo de Juliano , mas nem por isso deixou de ser mortalmente atingido em 313

A consciência de Constantino

Constantino dispôs de um quarto de século para aplicar os princípios que estabelecera em Milão (313 – 33  ) e, com efeito , o seu governo contribuiu tão poderosamente para consolidar as posições adquiridas pela Igreja que os ulteriores ataques do paganismo já não poderão abalá-la. Mas quer isto dizer que temos de encarar estes vinte e quatro anos , sem reservas e sem reticências , como o reinado de um cristão ? A realidade dos fatos é menos simples , e não podemos tomar ao pé da letra os historiadores cristãos Eusébio , Sócrates , Sozomeno , Teodoreto e Orósio , ou mesmo São Jerônimo, que tendem a representar Constantino como um cavaleiro de Cristo rachando ídolos , derrubando templos e estabelecendo sobre a terra o Reino de Deus.

O homem é um ser complexo. Não se pode negar que Constantino manteve para com o cristianismo uma atitude de reverência e afeição sincera que , nos últimos tempos da sua vida, se converteu em verdadeira fé.” Tenho um completo respeito pela regular e legítima Igreja católica’ ‘ , escreveu ele em 315 ; e vinte anos mais tarde : ” Professo a mais santa das religiões e ninguém pode duvidar de que sou um fiel servidor de Deus” . A partir de 317 , o Labarum com o monograma de Cristo torna-se obrigatório em todos os exércitos . Cunham-se, quase por toda a parte , moedas que incluem o monograma CH-R; as da oficina de Tarragona trazem até a marca da cruz. São freqüentes as decisões administrativas que favorecem os cristãos , tais como isenção de taxas municipais para os seus sacerdotes , proibição de os judeus apedrejarem aqueles dentre os seus que se quisessem converter, autorização para testar em favor da Igreja, jurisdição civil outorgada às vezes aos próprios bispos , e muitas outras concessões que poderíamos citar.

Mas , em sentido contrário , podem-se evocar muitos fatos que parecem manter uma situação equívoca e provar que Constantino não tinha rompido todas as amarras com o paganismo . Se não celebrou em 313 os jogos seculares – o que fez o historiador Zózimo dizer que essa omissão foi a causa da perda do Império – , conservou o título de divino e a dignidade de Sumo Pontífice , que todos os seus predecessores tinham ostentado, embora seja também verdade que nunca exerceu as funções litúrgicas do pontificado pagão e se fazia representar por um Promagister. Por ocasião da sua entrada em Roma, mandou restaurar alguns templos e autorizou até a nomeação de um colégio de sacerdotes para o culto dos seus antepassados, a Gens Flavia. Em 319 , ao promulgar editos sobre a arte divinatória, não proibiu os arúspices ,limitando-se a restringir as suas atividades e a proscrever as operações de magia. Em 335 , uma lei na África confirmava os privilégios dos flâmines e dos sacerdotes municipais. E – coisa estranha -, quando fez de Bizâncio a sua cidade , a cidade da sua vontade e da sua fé, deixou que lá se restaurassem ou edificassem templos pagãos a Ceres , a Reia e aos Tíquios , gênios tutelares das cidades. Como estes , poderíamos ainda evocar muitos outros exemplos que parecem estabelecer uma flagrante contradição.

Que razões podem explicar esta atitude ambígua? Antes de mais nada, com certeza , a necessidade política . Num Estado em que o cristianismo estava bem longe de contar a maioria dos cidadãos entre os seus fiéis, teria sido muito difícil para Constantino desfazer de um só golpe uma situação que já vinha de há mais de dois séculos. Por muito poderoso que fosse , era-lhe necessário usar de prudência e contemporizar. Chegou-se a escrever que ‘ ‘ os cristãos compreendiam a imensa vantagem que lhes adviria se Constantino tivesse ido até o coração do paganismo para asfixiá-lo com mais segurança” 13 . Ora , isto é atribuir-lhes um maquiavelismo bem negro ; é mais provável que eles simplesmente compreendessem as dificuldades que o seu protetor encontrava , e que a ambiguidade relativa da sua atitude e a propositada imprecisão de certas fórmulas lhe fossem desculpadas pelos serviços que lhes prestava.

Mas há talvez outro gênero de observações a fazer, que são de caráter mais tocante . Este homem , que nós adivinhamos constantemente torturado e perseguido por temores supersticiosos , querendo o bem mesmo quando praticava o mal , perturbado no fundo mais secreto do seu ser por hereditariedades contraditórias , não poderá , sem exagero, ser considerado como exemplo de um desses combatentes das lutas interiores em que cada um de nós pode reconhecer os seus próprios movimentos ? Nesta época, está sempre presente a preocupação pela vontade divina , qualquer que seja a forma sob a qual ela se exprima. Pagãos ou cristãos , quase todos os homens têm o sentimento de viverem sob o domínio – a proteção ou a ameaça – de potências invisíveis . Em muitas das suas cartas , Constantino exprime o temor de irritar o ‘ ‘ Senhor Supremo ‘ ‘ .

Ele , o visionário insone, que , durante noites e noites passadas em claro, rumina os seus receios , ele que tantas vezes foi visto meditando diante do mar ou dos vastos panoramas das planícies , extremamente sensível a essa impressão metafísica que dão as perspectivas da terra – esse homem é talvez o protagonista de um drama interior que a sua política mal permite entrever. Tendo optado por Cristo , em 312 , num movimento súbito e quase involuntário , não seria somente depois , através de muitos obstáculos e incertezas 14, que teria traçado o seu caminho para a luz definitiva? O seu batismo in articulo mortis teria assim o sentido de um verdadeiro e comovente fecho de abóbada .

É provável , pois , que tenha havido na consciência de Constantino uma evolução no seu caminho para Deus . Quanto mais tempo passava, mais ele se com’portava como cristão e até com uma espécie de ostentação , que se explica talvez pelo desejo de propaganda. No palácio imperial, em Constantinopla, será colocado perto da porta de entrada um quadro que mostra o imperador em oração , com os olhos postos no céu . Um outro , disposto no interior, representá-lo-á atravessando um dragão com o ferro do Labarum. Mandou construir um oratório particular, onde gostava de passar longo tempo em oração , diante do único ornamento que esse grande amigo do fausto tinha querido colocar : uma simples cruz . Na capela imperial , vê-lo-ão muitas vezes dirigir as cerimônias ” como um hierofante ” , e comporá uma oração que os seus soldados terão ordens de aprender. Nas suas visitas oficiais às províncias , distribuirá geralmente medalhas de ouro e de prata com alusões cristãs . Escreverá uma carta ao seu rival iraniano , o rei Sapor II, convidando-o a converter-se ao cristianismo . E quando sentir aproximar-se o seu fim , mandará edificar uma basílica com doze sarcófagos de pórfiro em comemoração dos santos Apóstolos , e um décimo terceiro reservado para ele.

Um autor anônimo desta época caracterizou maravilhosamente a complexidade dessa personalidade , qualificando-a com estes três epítetos : praestantissimus , puptlus, latro . O primeiro corresponde perfeitamente ao soberano prestigioso , ao poderoso restaurador do Império , ao construtor de Constantinopla, ao homem que , envergando pesados tecidos cravejados de pedrarias e um cintilante diadema, resplandecia com um orgulho sobrehumano. O segundo designa com precisão o ” espírito de infância” que ele conservou apesar de tudo , e em nome do qual muito se lhe deve perdoar, esse espírito de infância que o fazia tantas vezes tratar os bispos e os padres com um respeito filial e repetir freqüentemente que sabia estar ” entre mãos mais poderosas do que ele ” . Mas, na sua marcha para Deus , havia igualmente o terceiro epíteto , o latro , o bandido , o aventureiro , o bárbaro que se metia de permeio ; e este epíteto também se manifestava com frequência. Tal é , portanto , o último traço de um esboço psicológico desta persona!idade tão atraente: a sua terrível violência e a sua propensão para derramar sangue com uma facilidade extraordinária . Como é natural , para compreendermos este homem até nos seus piores defeitos , temos de tentar situá-lo na sua época , quando a vida humana tinha um valor muito relativo , e compará-lo com os seus contemporâneos – um Galério ou um Maximino Daia -, ao pé dos quais ele parece bem pouco culpado . No entanto , como é que pode ser digno de que lhe silenciem as violências um homem que mandou lançar às feras os chefes germanos vencidos , que torturou até a morte seis mil prisioneiros suevos e que foi o assassino do seu cunhado Licínio , do seu próprio filho Crispo e de sua esposa Fausta ?

Já em 314 , logo após o seu primeiro triunfo , Constantino entrara e mconflito com Licínio ; derrotou- o , tirou-lhe a Ilíria, a Grécia e a Macedônia e repeliu-o quase totalmente para a Ásia. E de ano para ano , as relações entre os dois cunhados foram-se azedando. A verdade é que um dos dois sobrava . Quanto mais o Augusto do Ocidente se mostrava cristão , tanto mais o do Oriente , cético por temperamento , se portava como anticristão .

Uma regulamentação propositadamente minuciosa e irritante , que pretendia proibir aos cristãos as reuniões de homens e mulheres , e aos bispos que saíssem de suas dioceses e se reunissem em sínodos , provocou certas resistências , a que Licínio respondeu com uma perseguição em regra. De novo se viram execuções capitais no Oriente . Por isso , quando , em 324 , a propósito de u m incidente de fronteiras , Constantino decidiu liquidar o cunhado , pôde armar-se em campeão da fé e em defensor da liberdade das consciências . Vencido perto de Andrinopla, depois de postas a pique as suas trezentas galeras à entrada dos Dardanelos , Licínio foi obrigado a capitular . Constança obteve de seu irmão o perdão do marido ; foi, porém , uma graça muito provisória , porque , sob o pretexto de que o banido, refugiado em Tessalônica, conspirava contra ele , Constantino mandou- o estrangular seis meses depois . Os autores cristãos da época esforçaram-se por justificar o crime ; São Jerônimo , mais prudente , relata-o sem comentários.

A política – mesmo a ” política cristã” – podia explicar que o grande imperador se tivesse desembaraçado de um rival , de um rebelde contra as leis de Cristo que comprometia a sua obra . Mas como se poderá desculpar o duplo drama palaciano que se seguiu a esta primeira tragédia? Nenhum historiador conseguiu até hoje penetrar nas verdadeiras razões desse drama. Tendo chegado a Roma em julho de 326 , Constantino foi bastante mal recebido. A cidade censurava-o por lhe ter dado uma rival triunfante e, por outro lado , os seus modos de ” Rei dos Reis ” prestavam-se a pesados gracejos . Ocorreram incidentes bastante graves , que exasperaram o Augusto.

Terá sido a propósito desses incidentes que Fausta, a imperatriz , excitou a cólera do príncipe contra Crispo , filho de um primeiro casamento de Constantino , jovem César cheio de ardor, vencedor da batalha naval dos Dardanelos ? Terá ela insinuado que o herdeiro do trono era muito popular em Roma, procurando assim preparar o lugar para os seus próprios filhos ? A crônica escandalosa fez correr que as verdadeiras razões do drama eram de uma ordem mais íntima e que entre a ” beleza perigosa ” da diva e a juventude de Crispo existiam relações escabrosas , um misto de atração e despeito. Terá a mulher de Putifar acusado injustamente José? O certo é que pouco depois Crispo foi preso , encerrado na fortaleza de Pola e executado.

A notícia provocou um reboliço enorme em todo o Império , e foi terrível a cólera da velha imperatriz Helena, que logo veio recriminar o filho pelo assassinato do mais querido dos seus netos . Transtornado , despedaçado, tremendo de remorsos e angústia , Constantino não encontrou outra saída senão um novo crime . Uma manhã, no momento em que Fausta ia tomar banho , os guardas invadiram a sala , atiraram-na para dentro da piscina e, dilacerando-lhe com as espadas a carne nua , mantiveram-na no fundo da água fumegante , que em breve se tingiu de sangue. Razão de Estado ? Motivos de disciplina moral ? Estariam errados os pagãos que escarneciam deste Augusto cristão de mãos ensangüentadas ? A mensagem de Jesus não tinha verdadeiramente trazido a paz a esta alma de boa vontade, mas dominada pelo medo e pela violência.

(7) Em condições muito pitorescas. Maximiano , para maior segurança, tinha resolvido agir por si próprio e assassinar o genro na cama. Mas, prevenido por Fausta , Constantino mandou um eunuco deitar-se em seu lugar e ficou com os seus guardas numa sala ao lado. Quando o sogro assassino corria para fora do aposento , empunhando ainda o gládio manchado com o sangue do infeliz eunuco e gritando: “Fausta, o tirano morreu ! ” , encontrou na sua frente o ” tirano ” e os seus homens que , sem demora, se apoderaram dele. Cenas como esta são características dos costumes da época e permitem-nos compreender as desconfianças e as violências desses senhores do mundo que se sentiam permanentemente ameaçados. (8) Foi então que a cidade de Cirta, na África , passou a chamar-se Constantina Arles , na Gália, também adotou esse nome . (9) Discute-se a origem da palavra. Há quem sustente que é de proveniência gaulesa, o que é admissível , já que foi da Gália que paniu a ofensiva contra Maxêncio , e os gauleses eram muito numerosos no exército de Constantino. A forma era a de um T maiúsculo , com o estandarte ftxado na barra superior (10) P. Batiffol.

(11) Lactâncio conta que Licínio deveu a sua principal vitória à intervenção de um anjo. que lhe teria ditado uma oração que devia ensinar aos seus soldados. Esta oração,citada no texto,  está redigida em termos tão vagos que podia ter sido pronunciada tanto por um pagão como por um cristão. (12) Da mesma maneira. quando Licínio entrar em conflito com seu cunhado, campeão incontestável de Cristo , voltará a perseguir os cristãos (cfr. par. A consciência de Constantino).

(13) Ferdinand Lot.

(14) Para nos apercebermos das incertezas que o comum dos homens podia então experimentar, vem ao caso citar o fato de que Lactâncio, um escritor cristão fanático . continuava a crer no poder divinatório dos livros sibilinos. Nem tudo era simples no desenraizamento que separava a alma dessas velhas tradições pagãs que só estariam totalmente monas ao fim de vários séculos.

ROPS, Daniel- Coleção de História sagrada: história da igreja de Cristo (Vol I)

 
 
 

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