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DALTON TREVISAN E A FAVELA DA CONDIÇÃO HUMANA

8 de jul. de 2022
3 min de leitura

O escritor paranaense Dalton Trevisan, o “vampiro de Curitiba”, está com 96 anos. São 96 invernos curitibanos nas costas desse irrecuperável pessimista: nada de ruim lhe escapa da condição humana, que ele reduz implacavelmente a um punhado de instintos malgovernados pela razão. Dalton parece detestar o mundo inteiro, incluindo os seus leitores, embora espere que continuem comprando seus livros. Pelo menos é assim que o vê o escritor Miguel Sanches Neto, também ele paranaense, que retratou o contista curitibano (e ex-amigo) de forma pouco lisonjeira em seu Chá das cinco com o vampiro, romance à clef publicado em 2002 pela editora Objetiva.

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Noutra época, li alguns livros de Dalton Trevisan. Do que mais gostei foi Pico na veia (Record, 2002). O escritor tem grande domínio do seu instrumento, é mesmo um virtuose, apesar de exagerar de forma quase irritante nas elipses, decorrente de uma de suas obsessões: a busca doentia da concisão.

Pico na veia é um livro sobre a condição humana — com a visão parcial que o escritor tem da condição humana —, mas o autor não esquece a sua própria aldeia, Curitiba, de cuja fama de cidade de primeiro mundo ele escarnece: parece-lhe mais justa a qualificação de “favela do primeiro mundo”.

Depois de mostrar a sordidez moral do homem em dezenas de pequenos escritos — contos, aforismos, poemas em prosa etc. —, o autor pergunta ao leitor mais atento: acaso isso é primeiro mundo?

Para o escritor, só do ponto de vista econômico é possível falar na existência de um “primeiro mundo”. Do ponto de vista moral, jamais.

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Gostei de Curitiba quando lá estivemos pela primeira vez, há uns quinze anos, eu e minha mulher. Chegamos no começo da noite, depois apreciarmos de longe as “ruínas” de Vila Velha e as araucárias sempre de guarda-chuva aberto. Segui as placas indicando Centro Cívico, onde ficava o quarto de hotel que havia reservado. Girei como barata tonta atrás da simpática rua Mateus Leme. Na manhã seguinte, levantei bem cedo e abri a cortina do quarto de hotel: só prédios. Prédios e céu branco, o branco da baleia de Melville. Lembrava um céu londrino.

Num daqueles prédios devia morar, certamente, o último crítico literário do Brasil, Wilson Martins. Era bem provável que, àquela hora, já estivesse em sua mesa de trabalho ou poltrona de leitura. Dalton Trevisan também já devia estar de pé em sua velha casa de esquina, no Alto da Gloria, não muito longe dali, preparando-se para escrever mais um conto sem fé na espécie humana.

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Diz a lenda que Dalton Trevisan vive fugindo dos outros. Impossível não me lembrar de uma piada contada pelo meu genro, que morou alguns anos em Curitiba:

— O que diz um curitibano, seu Zé, quando pega a mulher com outro?

— Não faço a menor ideia — respondi-lhe.

— Não diz nada. Curitibano não fala com estranhos.

Minha filha paulista gosta de lembrar, sem nenhum rancor, que em seu prédio de Curitiba a única pessoa com quem falava era uma cearense.

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Sem dúvida, Dalton Trevisan é um grande contista, descontando-se obviamente a parte onanística da sua obra, de eterno adolescente — faixa etária cuja sobrevivência no adulto o crítico Otto Maria Carpeaux já tinha percebido, com agudeza, na personalidade literária do escritor, quando nos anos cinquenta resenhou a sua primeira coletânea de contos, Novelas nada exemplares.

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Com perdão do trocadilho, Dalton é um escritor daltônico: só vê as piores cores.

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O “vampiro de Curitiba” nasceu em família católica, como a maioria dos brasileiros de sua geração, mas perdeu a fé muito cedo. Numa das poucas entrevistas que deu, disse de sua mãe, frequentadora de Missas dominicais, que era uma falsa católica: pensava que fosse católica, sem o ser de fato. É provável que Dalton Trevisan também tenha sido educado como falso católico, um falso católico que parece ter depressa assumido a visão luterana do ser humano, que via a inteligência como uma “prostituta do diabo”.

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São assim as almas dos personagens desse adolescente curitibano de 96 anos: barracos sem fundação nem colunas, erguidos de qualquer jeito na favela da condição humana. Nelas, o demônio se sente plenamente à vontade.

 
 
 

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