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DE JERUSALÉM AO VATICANO: A PEREGRINAÇÃO DO PAPADO Parte I

25 de fev. de 2018
16 min de leitura

PRIMÓRDIOS

Houve, sem dúvida, alguns dias angustiantes. Os discípulos também poderiam estar se sentindo abandonados. Eles viram o Cristo ressuscitado, é certo. Mas não tinham mais as aparições do Senhor Jesus com frequência, a presença do Mestre fazia falta, tudo se passava como se Jesus lhes tivesse segurado a mão por algum tempo depois tivesse optado por deixá-los agir sozinhos. Já não tinham com quem tirar as dúvidas e essa solidão devia os apavorar.

O que fazer? o que dizer? para quem falar? os discípulos não sabiam. Podiam contar a vida pública do profeta crucificado, Recordar seus milagres, tentar reconstituir suas palavras, sobretudo anunciar sua ressurreição. Quem teria fé nessa história incrível? quem levaria a sério as palavras têm um vencido?

Desses dias de incerteza, pouco sabemos. São os “Atos dos Apóstolos” que nos servem de guia. Quem pretende reconstruir a história do cristianismo primitivo defronta-se com três problemas: a situação das Fontes é tudo, menos abundante. A mais antiga história do cristianismo primitivo, que vem de Lucas pelo Atos dos Apóstolos, é a única fonte que dispomos para caminhada inicial até o Concílio apostólico, é ela própria declaradamente uma tentativa de reconstrução narrativa( Lucas 1,1-4) de tal forma que com essa apresentação do início fossem colocados os fundamentos normativos para as comunidades no tempo de Lucas, lembrando que, historicamente, esse documento (atos dos apóstolos) não é suficiente. Seria desejável que houvesse algumas informações complementares, sobretudo provas, se necessário, para o rigor dos indícios que corroboram esse relato. Seria o ideal, mas se não tivéssemos esse texto redigido por Lucas, não teríamos nada. Logo, precisamos nos contentar com ele, admitindo a possibilidade de confirmar Certos detalhes a partir de outras fontes.

Os atos contam com precisão os primeiros dias do que ainda não é a igreja constituída com seu prédio e missões, a igreja iria se iniciar naquela manhã, os apóstolos, isto é, aqueles que viram Cristo ressuscitado – reuniram-se numa casa em Jerusalém. É o último dia das festas das semanas, no ano 30. “A festa das semanas”, no calendário judaico, ocorre 50 dias após a Páscoa. Para os cristãos, 50 dias após a ressurreição – de onde a palavra Pentecostes – penta significa 50. Por que esta reunião? Os atos não explicam. Talvez porque para Lucas houvesse muito mistério. Os doze discípulos dispersados talvez estivessem habituados a ir a Jerusalém na época da páscoa judaica. Todos são fiéis ao Deus de seu povo. Guardando este fato, ele nos dá uma indicação preciosa. Após a morte e ressurreição e ascensão de Jesus, os discípulos frequentam o templo, (a igreja ainda não estava constituída), participam das preces. Não procuram ser singularizar. Não desejam ser apontados. Ao contrário, são os zelosos servidores da lei.

De repente, o céu – ou quase – desaba sobre suas cabeças. Vamos deixar de lado a línguas de fogo; não era fácil para Lucas de escrever, ou apenas mostrar o impulso elétrico, que entra no corpo desses homens comuns; as línguas eram Sem dúvida um processo. Na verdade, é o espírito santo que os Invade no segundo. Em um segundo estão livres do medo; eles já não se perguntam mais o que devem fazer. A missãoão de que foram incumbidos lhes parece clara. Vão pregar o Cristo Jesus, o homem-Deus ressuscitado. o que lhes Parecia Impossível tornar-se luminoso.

Que houve um fenômeno estranho, é evidente. O Milagre das línguas não é bem Um Milagre para os Judeus. O acontecimento pertence à tradição rabínica logo a seguir a revelação do Sinai (os dez mandamentos dados por Deus a Moisés). Lucas parece ainda mais constrangido pelo detalhe das línguas de fogo; e Ele, sem dúvida, para transmitir o lado extravagante da história, que introduz a noção do prulinguístimo. Afinal, a glossolália, ou seja, o dom das línguas, a capacidade de se expressar numa língua antes ignorada, pertence ao velho testamento. De repente, qualquer um consegue se expressar numa língua antes desconhecidas.

Mas isto não é o mais importante. O essencial são os efeitos da passagem (efusão) do Espírito Santo. Como Se Tudo se esclarecesse. Pedro será o primeiro a testemunhar. Nada deixa pressentir ao longo dos Evangelhos que o pescador do lago seja um orador. Se as palavras de modo um, descrevem vultos, o de Pedro parece quadrado, meio pesado. Ele sabe laçar a linha, puxar a rede, mas fala pouco. Quando o faz, diz em algumas palavras o que ele parece importante. Quer se trate de reconhecer em Jesus o filho de Deus ou de jurar nunca ter conhecido esse homem. Ele não se sente à vontade com a nuanças. Já Paulo parece uma cepa de vinho; Tiago tem silhueta de um velho Rabino empedernido. Pedro é uma estátua de mármore colocada no Pórtico de uma igreja que ainda não existe. Mas diante de um discurso, Pedro proclama solenemente com uma certeza. Quando se fez necessário. Era o momento da eleição de um novo apóstolo, era hora de substituir um dos membros no colégio Apostólico, que dirigia a pequena comunidade de Jerusalém – Judas enforcara-se, desesperado pela sua traição – insistiu-se expressamente em que o substituto devia ser “uma testemunha da Ressurreição” (Atos 1,22). Mais tarde, o maior Mensageiro da Nova fé, São Paulo, escrevendo a um grupo de fiéis, havia de exclamar: “se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a nossa fé (1 Coríntios 15, 14). Pedro se levantou encarou a multidão. Já não tinha medo; o galo que cantara quando tinha negado o mestre não voltaria a cantar. Foi então que, pela primeira vez, nos termos que já lemos,gritou sua fé inquebrantável em Jesus Messias. Começou nesse instante a história Cristã, com esta primeira declaração apologética que era também uma declaração de Guerra ao Mundo ( Daniel Rops, a igreja dos apóstolos e mártires).

Esse discurso fundador, essa primeira homilia, é simples e direta. O apóstolo diz o essencial. Mas as imagens que utiliza nos desorientam. Ele liga a revelação do Cenáculo à do Sinai; a mesma aproximação a propósito dos Ventos violentos. mais para os ouvintes as fórmulas utilizadas por Pedro lembram parágrafo por parágrafo, o que já ouviram mil vezes quando se tratou do encontro de Moisés com o senhor.

É a segunda indicação precisa que o relato de Lucas nos oferece. Ela confirma a primeira. A pregação de Pedro dirige-se aos judeus, não verdadeiramente a nós. A quem se deve revelar primeiro a Boa Nova? Perguntavam-se os apóstolos. Dessa vez, uma resposta eles é dada: eles pertencem ao povo de Israel – é ele que deve ser o primeiro a descobrir as palavras da salvação.

Obviamente, esse discurso fundador de Pedro tem um segundo significado: Pedro fala primeiro porque Jesus lhe confiou a incumbência oficial da futura igreja. Os apóstolos estão a essa altura convencidos de que nada dizem. Constatam apenas que Pedro usa os poderes que Jesus lhe concedeu. cumpre e lembrar que, nos dias imediatamente subsequentes a essa vinda do espírito Santo, Pedro falará ainda duas vezes: primeiro no templo, depois diante da Assembléia dos chefes do Povo (que detém uma autoridade política).

Dessa vez, não cabe dúvida. A aventura Começa por um debate fechado no interior da Comunidade Judaica.

A PRIMEIRA ESTRATÉGIA ESTRATÉGIA DOS APÓSTOLOS E FONTES DO PERÍODO DO CRISTIANISMO PRIMITIVO

O próprio Jesus, tinha transmitido as estruturas e organização aos Apóstolos do que viria a ser a Igreja visível: lendo os evangelhos, um dos principais aspectos sua atividade sobre a terra é o esforço prático de organização e de instrução que realizou, e cujos efeitos estão presentes até os dias atuais. Tudo nos prova que Jesus, Deus feito homem, sabia perfeitamente que, para lhe sobreviver, a sua obra teria necessidade de instituições humanas.

É verdade que temos poucas e muitas vezes acidentais notícias dos autores pagãos, estamos totalmente à mercê de fontes intracristãs para a história do cristianismo primitivo. contudo, o quadro é bem mais amplo do que os 27 de textos reunidos no cânon. Entre os escritos extracanônicos contam-se a didaqué/ ensinamento dos Apóstolos (110 – 120 DC), bem como a epístola de Barnabé (130 DC), entre os assim chamados “padres apostólicos” a primeira epístola de Clemente (96 DC) e as epístolas de Inácio (110 – 117 DC), assim como o primeiro escrito de influência gnóstica, ou seja, o evangelho de Tomé (110 DC). isso para citar apenas os mais importantes. Esses textos não foram acolhidos no Cânon, mas não surgiram mais tarde do que o mais recente escrito canônico: IIPedro (130 DC). Deve-se levar em conta também que tanto a localização temporal como a geográfica desses escritos dependem unicamente de indícios internos. Entre os escritos canônicos, as cartas São Paulo dirigidas à comunidade citam explicitamente lugar em que vivem essas comunidades destinatárias.

Podemos colocar esses escritos, essas Fontes, em categorias, que é ligada há uma periodização do cristianismo primitivo, temos uma primeira fase que, podem ser caracterizados os escritos como literatura usual e são representados pelas epístolas (autênticas) de Paulo, as quais tratam de problemas comunitários Concretos e se substituem a comunicação oral. Os escritos da segunda fase podem ser entendidos como literatura de memória. Eles se recordam da herança de Jesus (Evangelhos) ou dos grandes dos Apóstolos (epístolas), principalmente de Paulo. De forma anônima (deuteropaulinas) ou pseudônima (epístolas pastorais), acontecem uma recepção e uma evolução escrita de Paulo. Também sob o nome de outros Apóstolos começam a circular epístolas (epístolas católicas). Uma vez que Paulo havia escrito em seu nome próprio escrito epístolas a determinadas comunidades, com intuito de enfrentar problemas concretos, os autores da literatura de memória utilizam a autoridade de Jesus ou de um dos grandes Apóstolos para elaborar grandes linhas diretivas teológicas, assim como estruturas da organização. As comunidades são alinhadas à determinada a tradição personalizada, que por sua vez é o produto de uma consciente formulação teológica: os Evangelistas sondam e dão contornos novos à tradição de Jesus que chegou até eles, enquanto a escola de Paulo interpreta seu mestre de maneira especulativa (Efésios /Colossenses) ou pragmática (pastorais); nas epístolas católicas, enfim, criam-se tratados em nome de apóstolos.

A censura para a literatura de memória coincide mais ou menos com a morte dos grandes Apóstolos (Tiago: 62 DC.; Paulo e Pedro provavelmente durante a perseguição de Nero: 64 DC). Do ponto de vista antropológico cultural, o processo de escritura na herança praticamente equivale ao espaço de tempo de 40 anos em que as testemunhas oculares morrem e a lembrança, por isso mesmo, necessita passar da memória comunicativa para a cultural. Historicamente, o ano 70 foi decisivo para o cristianismo primitivo: com a destruição de Jerusalém, por um lado, o símbolo de Identidade do Judaísmo caiu por terra em pó e cinza; por outro lado, a Profecia da maldição proferida por Jesus contra o templo, e que lhe mereceu a morte, realizou-se de forma humilhante para o povo judeu. Todos os que invocavam o judeu Jesus tinha que colocar a questão de postura diante das próprias raízes judaicas e de como trabalhar teologicamente essa catástrofe.

Enquanto essa censura se delineia com clareza, a segunda censura, que indica o final da era Cristã primitiva, é bem mais difícil de distinguir. Quanto ao seu conteúdo o melhor que se consegue estabelecer é que escritores cristãos – agora de novo claramente identificáveis – conscientemente se dirigem para fora, vão se tornar os apologistas da fé cristã levando uma compreensão para sua convicção religiosa ou mesmo defendendo-a. De qualquer modo, procuram o diálogo com a população pagã como se pode ter nos escritos dos apologistas, a começar com Justino a partir de 150 DC.

É difícil captar a estratégia dos Apóstolos – o termo nada tem de chocante – sem se fazer um inventário do mundo judaico na época.

Antes de mais nada, os que imediatamente travarão o combate contra os discípulos de Jesus (eles ainda não tem nome). São poucos, mas poderosos. São os sumos sacerdotes e os saduceus. Os primeiros formam um grupo político Desde o ano 6 DC. Os segundos são apenas religiosos conservadores: mais precisamente um grupo aristocrático, político-religioso, colaborando com o ocupante romano para conservar o controle do sacerdócio ligado ao serviço do Templo de Jerusalém. Ambos tiveram um papel importante na condenação de Jesus. vão continuar a luta: na verdade, pressentem que esse grupo estranho corre o risco de perturbar a paisagem intelectual e religiosa da Comunidade Judaica. A curto prazo, eles em enganam: os zelotes é que vão preparar e deflagrar a guerra.

Os Atos mencionam três manifestações hostis contra os cristãos (o termo Cristão ainda não existe). Para começar, Pedro e João são presos pelo comandante do templo, porque estão pregando ali. São conduzidos ao Sanedrin (autoridade suprema do povo Judeu, composta de 71 membros, dentre eles o sumo sacerdote), que decide soltá-los. Mais uma informação apenas formulada: se a mais alta comunidade autoridade judaica libera os pregadores, isto significa que ela os julga inocentes. Portanto, sumos sacerdotes e saduceus não mandam nessa autoridade.

O que é é confirmado pelo segundo surto de perseguição: a Detenção de todos os Apóstolos. eles são encontrados juntos, julgados e finalmente soltos. Aliás, Lucas transmite o discurso de Há, um homem importante. Ninguém sabe se ele realmente disse as palavras que o evangelista põe sua boca. Mas gamaliel de fato existiu. Ele se tornará, afirma-se, um dos Mestres espirituais do mundo judaico. Saulo teria sido um de seus alunos. Ele teria tentado ensinar-lhe a moderação, sem ter tido verdadeiramente sucesso.

Seja como for, Lucas usa gamaliel para resumir a posição dos fariseus. Eles não podem se opor aos apóstolos, Pois também acreditam na vinda do Messias. Gamaliel é habilidoso: “Os que se levantaram diante de vós nos últimos anos fracassaram e seus discípulos desapareceram. Portanto, se este Jesus é um fantasma, uma ilusão ou um enviado do diabo, desaparecerá como as que a precederam. Mas se os apóstolos pregam a vontade de Deus, eles levarão a melhor. Não lanceis nosso povo numa batalha contra o todo poderoso”.

O terceiro surto de violência contra os cristãos será a morte de Estêvão. Ele será apedrejado, certamente em 36. Ana e seu clã se responsabilizarão por isso. E Paulo, presente aprovará. Estêvão será sem dúvida a primeira vítima depois de Jesus.

Portanto, segundo Lucas, três ataques sucessivos. Na verdade, eles reforçam a autoridade dos Apóstolos. Muitos judeus se convertem. Os discursos cristãos articulam-se em torno de algumas ideias simples. Primeiro, o testemunho dos próprios Apóstolos: eles viram Cristo ressuscitado, Ele falou com eles. As aparições de Cristo após a sua morte assumem então todo o seu sentido: ele devia cimentar a fé dos discípulos. Aqueles que o viram e nele tocaram constituem o colégio dos Apóstolos. E, porque afirmará ter visto o Cristo Vivo, Paulo vai se tornar, por sua vez, um dos membros do Colégio.

Em seguida, “os milagres” que esses homens vão fazer. Lucas conta a cura do paralítico que mendigava à porta do Templo. Chegada a hora, ele irá perante o Sanedrin testemunhar em favor daqueles que o curaram. Os apóstolos discordam: não tiveram qualquer participação nesse milagre. Foi Jesus que, através de suas preces, que curou o paralítico. Para os Judeus, isso é uma indicação: os apóstolos detêm uma parte da força do Cristo ressuscitado.

Finalmente, o tema principal dessa primeira pregação: Jesus é o messias. Ora, é a Pedra Angular do cristianismo Nascente. Para os Judeus, trata-se de uma afirmação incrível. O resto não os espanta: eles crêem em Deus e na lei, estão acostumados com a existência dos Profetas. Mas a identificação de Jesus como Messias é diferente. Todo o esforço dos Apóstolos apoia-se nesse ponto. É sobre ele que se desenvolve a conversão dos judeus. É a partir daí que as comunidades cristãs Nascentes escandalizarão uma parte do povo Judeu. A ruptura ocorrerá essencialmente aí.

Seja como for, hoje é impossível duvidar disto: é às comunidades judaicas que os apóstolos se dirigirão. Em Jerusalém, para começar, e logo na Galileia. Mais tarde, Antióquia é que será a cidade onde as estradas se cruzam. Aliás, foi de lá que mais tarde Barnabé e Paulo partiram para conquistar o mediterrâneo nessa época as primeiras comunidades cristãs começaram a sair do mundo judaico.

A IGREJA DE JERUSALÉM: ASCENSÃO E QUEDA

Já era uma igreja? sim, sem dúvida nenhuma. Só que a palavra ainda não existe propriamente. Igreja. “ecclesia” (em grego: ekklesia), significa “Assembléia”. O sentido atual não vai demorar aparecer: será utilizado para designar cada uma das Comunidades cristãs. Haverá as igrejas de Jerusalém, da Galileia, de Antioquia etc. Mas todos os cristãos terão, desde os primeiros anos, a sensação de pertencer a uma só igreja. Não há melhor prova que as epístolas de Paulo: elas se dirigem a esta ou àquela comunidade; levam em conta os problemas que estas enfrentam. Mas são válidas para todos os cristãos.

Os primeiros cristãos eram judeus e encontraram na nova fé uma continuidade com a antiga fé. Eles se lembravam que seu senhor mesmo tinha dito que seu propósito era cumprir a lei e os profetas, não aboli-los; e era inútil os heréticos negarem esse dito (Ireneu contra Heresias 4. 34.2 [ Harvey 2:270]; Mt 5. 17; Tertuliano contra Marcião 4.7. 4; 4 .9.15;4.12.14; Tertulialno contra Marcião 5.14.14. Desde os primeiros capítulos do livro de atos dos apóstolos obtemos uma imagem um tanto idealizada de uma comunidade cristã que continuou a seguir as escrituras, a adoração e as obervâncias da vida religiosa judaica. Os membros da igreja de Jerusalém, que Irineu chamou de “a igreja da qual toda igreja se originou, a capital dos cidadãos da nova aliança” ( Ireneu contra Heresias 3.12.5[Harvey,2: 58]), seguido de Tiago que, como “irmão do senhor”(Gl 1.19) era um tipo de “califa” (staufer[1952], recusou-se a seguir uma divisão fundamental entre sua vida anterior e sua nova condição. Eles, claramente, reconheciam que chegava algo novo – não algo inteiramente novo, mas alguma coisa recém-restaurada e cumprida. Mesmo depois da queda de Jerusalém, em 70 d.c, esses “nazarenos” mantinham a continuidade com o judaísmo; eles ” queriam observar as ordenanças dadas por Moisés, contudo, escolheram viver com os cristãos e os fiéis” ( Just. Dial.47.2). Mas as tensões no pensamento judaico, especialmente no período anterior a 70 d.c., se refletiram também no começo da teologia cristã. O grupo chefiado por Tiago manifestou relevante analogias com o judaísmo palestino, embora o grupo missionário que, no fim, veio a se identificar com Paulo, bem como os apologéticos do século II refletiam determinadas afinidades com o pensamento judaico da diáspora helenista.

Como acabamos de ver, a igreja de Jerusalém, de certa maneira, será a Matriz do que a igreja se tornará. Sem dúvida, por volta de 35-37, ela se compõe essencialmente de judeus convertidos. Primeiro, porque são eles que ouvem Os Sermões dos primeiros Apóstolos. Depois, porque Tiago é o chefe dessa comunidade. Ele não tocava em bebidas alcoólicas, recusava-se a se barbear. Aliás, comia muito pouco e quase não saía do Templo. Era ali que recebia os cristãos, e também os judeus. Tanto aqueles quanto estes, por mais espantoso que possa parecer, respeitavam-no. Tudo indica que houve, durante os primeiros anos, uma pré-Igreja judaico-cristã da qual Tiago foi o chefe.

Isso não dura muito, essencialmente porque o grupo vai se desagregando. De um lado, os judeus – fariseus na maioria – que não pretendem questionar novamente suas práticas religiosas. Do outro os convertidos ao cristianismo Nascente eles querem permanecer com às práticas de judeus. São fiéis às regras aprendidas desde a infância; tentam conciliar a antiga fé com a nova. Esse esforço não tem a mínima chance de dar certo: se Jesus é o filho de Deus, se é o Messias, se ressuscitou, a fratura com o judaísmo é inelutável. Enfim, há os helenistas: são judeus da diáspora, que falam grego ou já evoluem na cultura pagã grego-latina. É a primeira vez que os encontramos. Ees terão um papel decisivo, mas não tem consciência disso.

Quem são os helenistas? mulheres e homens que falam grego. Uns conhecem o aramaico, mas normalmente não se expressam na língua que foi a de Jesus. Entre eles, há judeus e não-judeus. Estes são os primeiros não-judeus a aderir ao que será o cristianismo. Eles não estão muito à vontade na comunidade de Jerusalém. Terão sido expulsos, escolhido uma espécie de exílio próximo? Nunca se saberá. Na maioria, voltarão a ser encontrados em Antióquia, que será o primeiro ponto de fusão do cristianismo das origens.

Sem dúvida, outros homens participam dessa comunidade em Jerusalém. Essênios, provavelmente. Até hoje, eles são um enigma para nós. Os essênios são uma Comunidade Judaica ascética, rompida com o partido dos saduceus – julgado corrompido pelos hábitos século – e com o ocupante romano. Essa comunidade se refugiou no deserto da Judéia, perto do Mar Morto. Desapareceu na época da guerra contra Roma, em 70 DC. Era contemporânea dos cristãos, com quem vivia lado a lado; porém parece que as duas comunidades se ignoravam. Os essênios nunca são citados, nem nos Evangelhos nem nos Atos. Esperava-se que os famosos manuscritos do Mar Morto esclarecessem o mistério. Pois aumentaram obviamente. Alguns historiadores ligam Jesus e seus discípulos muitas vezes com às idéias ou julgamentos que se encontram com as inspirações essênias, penso que, sem dúvida houve contatos, mas não creio em inspirações dos essênios, até porque tinham uma vida religiosa exotérica, João Batista, entre outros, sabia da existência dos essênios. Ele pregava e batizava a alguns quilômetros do local onde eles viviam: Qumran. Mas até aqui não sabemos mais sobre isso, o que vai além dessas informações é mera especulação.

Não se pode negar que os helenistas, que abandonaram Jerusalém, deixaram vestígios por toda parte. Alguns devem ter ingressado na comunidade de Galileia; mas desaparecerá na época da guerra. Outros se instalam em Damasco onde vivem, desde 37, são cristãos que os acolhem. Eles logo terão uma certa importância. É em Damasco que saulo, em 38, vem perseguir os cristãos. É nesse mesmo ano que ele se converte. Finalmente, foi na sinagoga de Damasco que Paulo pregou pela primeira vez.

Outros ainda tentam sempre implantar nas cidades das da Costa: Cesaréia, Jaffa, são mencionadas nos Atos. Estes se afastam da zona aramaico – aramaico é uma língua Popular, derivada do antigo hebraico, que se torna progressivamente uma língua religiosa. Eles pregam em grego nas cidades onde se fala essa língua. A propósito da conversão de Cornélio, Centurião Romano, Pedro intervém: “Não se pode recusar o batismo a um homem que se converteu sinceramente a fé de JESUS”. este episódio faz cair por terra a idéia de que Pedro era apóstolo somente dos Judeus. “Atos 10,34. Então Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, 35.mas em toda nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo. 36.Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.“Já está aí colocado, em duas linhas, o problema que vai dividir a pequena igreja das origens. (Há mais detalhes em texto de minha própria autoria o “A Igreja e o primeiro conflito doutrinário: helenista e judaizantes”).

Antióquia, enfim. Antióquia vai se tornar o centro do cristianismo grego. É uma cidade importante onde se misturam judeus, gregos, Cipriotas, romanos. no porto, trocam-se mercadorias, idéias, deuses. A comunidade cristã tem importância suficiente para que os apóstolos enviem Barnabé a fim de entrar em contato com esse grupo distante e a princípio meio exótico. É na mesma época que Pedro faz uma viagem a Samaria.

Portanto, desde então, os principais Apóstolos viajam. Estamos em 42 DC. Nesse ano, há dois acontecimentos. O primeiro: surge o termo cristão. Designa os partidários de Christos. Para as autoridades romanas, trata-se de uma qualificação política, Christos designa para eles os membros de um grupo messiânico, talvez distinto dos judeus, e que assume certa importância na região, estamos no reino de Cláudio (41-54), sucessor de Calígula.

O segundo acontecimento é a aliança entre Barnabé e Paulo. Barnabé é um personagem respeitado na igreja. Paulo é apenas um judeu de nascimento gozando da Cidadania Romana. Passou três anos, sobre os quais pouco se sabe, numa aldeia perto de Damasco. Em 41, ele foi a Jerusalém, viu Pedro e o outro Tiago. quase não lhe dão ouvidos. Desconfiam dele. Paulo não insiste e vai para Tarso, sua cidade natal.

O lance genial de Barnabé é ir procurá-lo. Conhece-o um pouco; sem dúvida pressentiu sua inteligência. Ouviu falar muito de nesse judeu Romanos singular que se converteu. Foi aliás Barnabé que o apresentou aos outros Apóstolos. A amizade deles será profunda, mais um dia será interrompida, veremos por quê.

O que eles conversaram, nunca saberemos. Seja como for, Paulo aceita seguir Barnabé. Morarão um ano juntos em Antióquia. Esta cidade se torna a partir de então, o verdadeiro centro do cristianismo. Em 44 DC, os dois voltam a Jerusalém. É sem dúvida nessa data que obtém de Pedro a autorização de ir para a Ásia menor, depois de embarcar para chipre, a primeira escala em direção ao mundo do ocidente. João Marcos irá acompanhá-los. Ele é discípulo de Pedro; é uma indicação. desconfia-se um pouco desse Paulo que diz, também, ter visto Cristo. Será para ter o direito de participar do Colégio dos Apóstolos? Barnabé aceita essa afirmação? Sim: a melhor prova é que ele acompanhará Paulo durante anos; mas um dia abandonará o amigo. Paulo é um tanto incômodo mas é ele que vai acelerar o movimento.

Continua Referência bibliográfica: Daniel Rops, a igreja dos Apóstolos e mártires. Jaroslav pelikan, tradição cristã volume I. Thomas Kaufman, Raymund Kottje, Bernard Moeller, Hubert Wolff, História ecumênica da Igreja. Georges Suffert, Tu és Pedro

 
 
 

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