DE VOLTA À CIPRIANO
Por Fabio Morais

Eu já disse aqui, em mais de um post, que a suposta oposição que Cipriano fez à Igreja romana enquanto Igreja líder (do ponto de vista jurisdicional) das demais igrejas, foi motivada pela disputa dele, S. Cipriano, com o Papa Estêvão.
Os protestantes se agarram a isso como sanguessugas se agarram à carne humana.
Muito bem.
PARA EFEITO DE ARGUMENTAÇÃO, vou aceitar que é verdade.
Que Cipriano contestou a autoridade jurisdicional do bispo de Roma sobre a Igreja inteira.
Mas que fique bem claro, de uma vez por todas, QUE O MOTIVO QUE DETERMINOU A TAL POSTURA DE CIPRIANO DURANTE A CONTROVÉRSIA COM O BISPO DE ROMA, NÃO CORRESPONDE AO ENSINO DO BISPO DE CARTAGO ANTES DA REFERIDA DISPUTA.
O Cipriano ANTERIOR ao conflito com o Papa, reconhecia-lhe o primado de jurisdição.
Os protestantes usam muito a frase de Cipriano, onde ele diz que a todos os apóstolos foi dado “igual poder e autoridade”.
Ora, embora rigorosamente, possa-se interpretar isso como uma alusão à DIGNIDADE APOSTÓLCA EM SI (na qual eram todos os apóstolos iguais) e não impugne, necessariamente, um primado de jurisdição exercido por Pedro, a questão merece ser considerada.
Com efeito, já expus aqui (e muitos viram) que nos chegaram DUAS VERSÕES do tópico 4 da primeira parte do “Catholicae Ecclesiae Unitate”.
E DEMONSTREI que AMBAS SAÍRAM DA PENA DO PRÓPRIO CIPRIANO.
Ora, a versão que traz a expressão que, a princípio, parece igualar EM TUDO os apóstolos, de modo a excluir qualquer chefe efetivo entre eles, está na versão do texto escrita ANTES do desacordo com Estêvão, como nos diz J.N.D. Kelly (versais minhas):
“Existe, porém, outra versão do texto…que: (a) fala do estabelecimento de “uma só cadeira” (unam cathedram) e da concessão da primazia a Pedro (primatus Petrus datur), e;
(b) NÃO MENCIONA OS OUTROS APÓSTOLOS RECEBENDO A MESMA AUTORIDADE CONFERIDA A PEDRO. Parece provável que esse trecho também tenha surgido da pena de Cipriano, SENDO MAIS ANTIGO que o ‘textus receptus’, E REPRESENTA SUA ATITUDE ANTES da disputa acerca da necessidade de rebatizar hereges e cismáticos travada com o papa Estêvão” (Doutrinas Centrai da Fé Cristã, Editora Vida, 1994, p. 155).
Há, portanto, por assim dizer, DOIS Ciprianos, como se percebe a partir do texto de Kelly.
Um Cipriano anterior ao conflito com Estêvão e cônscio da supremacia papal, e outro durante o conflito, movido por ideias particulares das quais resolveu não abrir mão.
Ora, é ao Cipriano anterior que nos devemos apegar.
Porque o posterior, aferrado às suas convicções pessoais, desgarrou da verdadeira Tradição Católica.
E, agindo assim, sob franca influência dos próprios conceitos que julgava inabaláveis, não merece (NO PONTO EM QUESTÃO) o nosso assentimento.
Com muito acerto Joseph De Maistre:
“Lorsque les adversaires de la monoarchie pontificale nous citent usque ad nauseam les vivacités de ce même S. Cyprien contre le Pape Etienne, ils nous peignent la pauvre humanité au lieu de nous peindre la saint tradition…Il faut de plus ne jamais perdre de vue cette grande règle…que le témoignage d’un homme ne saurait pas être reçu, quelque soit le mérite de celui qui le rend, dès que cet homme peut être seulemente soupçonné d’être sous influence de quelque passion capable de le tromper” (Du Pape, 1, I, c. 8, ed. 1919. pp. 68-70)
Que eu próprio traduzo, diretamente do francês, que os protestantes deste grupo, certamente, ignoram (pois mal sabem português):
“Quando os adversários da monarquia pontifícia nos citam, ad nauseam (1), a vivacidade de São Cipriano contra o Papa Estêvão, eles nos pintam afragilidade humana, em vez de nos pintar a tradição sagrada…Mas nunca devemos perder de vista esta grande regra … que o testemunho de um homem não pode ser recebido, qualquer que seja o mérito deste, quando tal homem possa estar sob a influência de alguma paixão capaz de enganá-lo”.
De fato!
O Cipriano que se opôs ao Papado enganou-se, equivoucou-se!
E De Maistre nos disse o por que!
E um Cipriano equivocado, JAMAIS será autoridade decisiva para um católico comprometido com a Sagrada Tradição EM SEU CONJUNTO.
O Pe Leonel Franca, em livro que encomendei e prometi citar, é também muito claro, em debate com José Oiticica (versais minhas):
“Efetivamente, a paixão turbara a tal ponto Firmiliano e Cipriano que os arrastara às mais visíveis contradições. QUEM LÊ CIPRIANO CALMO E TRANQUILO JÁ NÃO O RECONHECE NOS ESCRITOS DESTE PERÍODO [da controvérsia com Estêvão]. OS PRÓPRIOS CRÍTICOS PROTESTANTES e racionalistas revelam estas incoerências: “Quando Cipriano…tenta ainda conservar a unidade da Igreja, falta-lhe o solo sob os pés e as suas afirmações vacilam no ar. CONSOANTE O SEU CONCEITO, A UNIDADE CATÓLICA DEVERIA LOGICAMENTE ACHAR-SE ONDE SE ACHA O BISPO DE ROMA” (O. Ristchl, Cyprian von Karthago, Göttinge, 1885, p. 140). E Harnack: “INDUBITAVELMENTE no conflito com Estêvão PÔS-SE CIPRIANO EM CONTRADIÇÃO COM AS SUAS OPINIÕES ANTERIORES sobre a importância da Cátedra romana na Igreja” (Lehrbuch der Dogmengeschichte, I, Freiburg, 1909, p. 421). Calar, portanto, propositadamente quanto sobre o Papa ensinou o bispo de Cartago, sereno e tranquilo e respigar expressões veementes e despeitosas saídas num momento de irritação e de animosidade, é fechar voluntariamente os olhos à verdade, é deixar a limpidez diáfana de um dia primaveril para querer traçar um roteiro seguro entre os nevoeiros de uma noite revolta de tempestade. Polêmica que recorre a semelhantes processos históricos já está julgada” (Polêmicas, Agir, 1953, pp.417-418)
Falou o verdadeiro terror dos hereges!
E nem a Igreja Universal (com exceção dos dois concílios africanos promovidos pelo bispo de Cartago) DEIXOU DE ACATAR A DECISÃO DO PAPA ESTÊVÃO.
Assim, quando os donatistas tentaram renovar o erro de Cipriano, o grande S. Agostinho os refutou com uma autoridade indiscutível:
“Semelhante costume… não havia na Igreja primitiva e DEPOIS REPELIU-O TODO O ORBE CATÓLICO COM A MAIOR FIRMEZA DE AUTORIDADE” (De bapt., III, 2).
“Catholicus orbis robustissima firmitate consesiones exclusit”
Eis o que diz o maior luminar da Igreja primitiva.
Estêvão prevaleceu!
Porque era o Papa, o chefe, o líder de TODA A IGREJA.
A tese equivocada de Cipriano, perdeu-se na noite dos tempos.
Em que pese o prestígio e autoridade dele…
Tais são os fatos.
Cipriano, o dissemos, desgarrou da Tradição.
Neste ponto, está sozinho.
E não é, para nós, normativo.
Embora tenha sido um CATÓLICO verdadeiro, martir e santo.
Agora, senhores protestantes, parem com essa insistência ridícula sobre Cipriano em um momento infeliz de sua trajetória.
E refute, Samuel Boaz, este post.
Fique sabendo, rapaz:
Em um hangout, eu faria picadinho de você…
—— Por Maria, Fábio Morais.
——– (1) Argumentum ad nauseam (em português, “argumentação até provocar náusea”) é uma expressão latina que se refere à argumentação por repetição, que consiste em repetir insistentemente a mesma afirmação até o ponto de, metaforicamente, provocar náusea.
Fonte: https://www.facebook.com/groups/oswpgrcia/permalink/1045404365609946/
















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