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DIFICULDADES DE UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO CONSERVADOR NA BÉLGICA – Cornelis J. Schilt

29 de mai. de 2022
6 min de leitura

[Cornelis J. Schilt é especialista em história da ciência moderna e do conhecimento. Ele estudou Física, Astrofísica e História e Filosofia da Ciência. Tem doutorado pela Universidade de Oxford. É pesquisador de pós-doutorado na Universidade Livre de Bruxelas e vive com sua família na zona rural flamenga].

Quando John Henry Newman (1801-1890) escreveu sua Apologia pro vita sua (1864), vivia uma vida agitada, religiosa e intelectualmente. De membro proeminente do Movimento de Oxford dentro da Igreja Anglicana, ele se converteu ao catolicismo romano aos quarenta e poucos anos, e logo se tornou um dos apologistas mais notáveis ​​da Igreja. Mal sabia ele que o melhor ainda estava por vir. A conversão de Newman não foi um despertar instantâneo: veio gradualmente, acompanhada de momentos prolongados de dúvida e de dor. Diante da morte de um velho amigo querido, na época de sua conversão, ele escreveu:

“Ele estava em boa fé… Eu esperava que sua última doença trouxesse luz à minha mente, sobre o que eu deveria fazer. Não a trouxe. Escrevi uma nota, que dizia assim: ‘Chorei amargamente sobre seu caixão, ao pensar que ele me deixou na obscuridade quanto ao caminho da verdade, e o que eu deveria fazer para agradar a Deus e cumprir seu desígnio.'”

Como jovem acadêmico e ministro anglicano, Newman foi um ardente porta-voz da fé anglicana como via média entre o protestantismo e o catolicismo, particularmente através de uma série de folhetos publicados em 1834. No entanto, a partir do final da década de 1830, seu pensamento e sua escrita sofreram uma mudança profunda, e ele começou a considerar seriamente o catolicismo como uma opção viável. Nada disso, porém, ocorreu facilmente. Mesmo antes de se converter formalmente, colegas e amigos romperam com ele; depois, até a maioria de sua família o abandonou. No entanto, a principal preocupação de Newman não era com sua própria dor e sofrimento: “Minha grande angústia é a perplexidade, inquietação e ceticismo que estou causando a tantas pessoas… Senti, por vários dias, uma verdadeira dor em meu coração; e, de vez em quando, todas as queixas do salmista pareciam ser minhas.”

Newman tornou-se uma grande fonte de inspiração quando, há meia década, eu me converti ao catolicismo, levado por um profundo desejo de espiritualidade e unidade dentro da Igreja universal. Ele nunca virou as costas para a igreja que deixou e permaneceu em contato próximo com muitos amigos anglicanos (às vezes, com relacionamentos restaurados depois de décadas). Pessoalmente, permaneço grato pela educação calvinista que recebi, pois me ensinou a amar e estudar profundamente as Escrituras, terreno em que seria desejável uma via média entre o protestantismo e o catolicismo.

No início deste ano, Newman adquiriu um significado ainda maior, quando experimentei uma segunda conversão: uma conversão política. No meu coração, sempre fui um conservador. Em particular quando se trata de questões de fé e família, de vida e morte, de estética, de literatura e de pedagogia, sou e permaneço profundamente tradicional.

No entanto, pouco disso vem à tona quando se olha para o meu perfil público. Como acadêmico, historiador da produção de conhecimento no início do período moderno, atualmente pesquiso e ensino em uma universidade “livre”. Antes disso, eu estava em Oxford, naquela que é, possivelmente, sua faculdade mais “plural” e “liberal”. Até muito recentemente, minha esfera do Twitter consistia principalmente de acadêmicos liberais, mas as discussões em que eu estava envolvido giravam em torno de assuntos muito distantes do domínio político. Achei que era possível viver nas sombras, abster-me de participar ativamente de debates sobre questões sociopolíticas, morais e éticas. Parecia que, de certa forma, eu ia me defendendo das balas relacionadas ao Black Lives Matter, ao movimento Rhodes Must Fall, e questões como aborto e ideologia de gênero. Mas, a cada expressão sorridente, eu ia morrendo um pouco.

Havia duas razões muito convincentes para não falar. A primeira era um medo mórbido de ser descoberto e prejudicado. A segunda era uma dúvida mórbida sobre a validade e o valor de minhas próprias ideias e posições sobre essas questões. Ambos eram profundamente pessoais e profundamente institucionais. Eu cresci em um ambiente onde se destacar era considerado uma coisa ruim. Qualquer pessoa com apenas um grama a mais de inteligência acima da média era considerada um incômodo, ou pior ainda, uma ameaça. Em vez de aprender a orgulhar-se de minhas capacidades e habilidades, e trabalhar duro para tirar o máximo de mim mesmo, fui treinado a ficar quieto e a evitar “ostentação” ou “exibição”.

Além disso, nunca aprendi a apreciar adequadamente os valores da tradição em que cresci. O cristianismo dos países baixos está morrendo lentamente porque a Igreja não percebeu que as gerações mais jovens não aceitam mais receber cegamente seus costumes e suas tradições. Em vez de definir e legitimar essas tradições valiosas, as igrejas as jogam ao mar para apaziguar os nunca satisfeitos (ou continuam a navegar perto de Cila e Caríbdis de olhos vendados, com resultados previsíveis). A igreja em que cresci era do último tipo, com pouco espaço para um jovem crente intelectualmente curioso. Coloque-se nessa mistura um parente próximo, cujo extremismo de direita zombava de tudo que eu considerava valioso, e o produto do medo e da dúvida não é nada surpreendente.

No plano institucional, essas razões pessoais foram exacerbadas por um clima hostil em relação a tudo que considero sagrado. Não há nada de liberal em uma faculdade ou universidade “liberal”, quando se trata de opiniões não consideradas “liberais”. Abomino o aborto, mas o simples trazer o assunto à tona já parece uma monstruosidade. Com os direitos LGBTQ+ espalhados por todos os lugares, uma discussão sobre a definição de casamento como uma união entre um homem e uma mulher, biologicamente definida, está fora de cogitação. Sugerir que o conflito israel-palestino possui mais de um ângulo, é semelhante a escrever uma carta de demissão. O pior, em tudo isso, é a experiência de autocoerção passivo-agressiva para evitar trazer à tona tudo o que possa perturbar a paz cuidadosamente cultivada. Abaixo a cabeça de vergonha por ceder; às vezes, até mesmo temendo expressar algo que poderia ser considerado apoio a esse novo totalitarismo, e tudo para salvar minha pele e não ser descoberto.

Ao longo desses anos, duvidava se deveria realmente permanecer na academia. A oportunidade de fazer pesquisas relativamente independentes, e ensinar aos alunos sobre os fundamentos da ciência moderna, me impeliu ao doutorado em história da ciência e começar a carreira acadêmica. No entanto, o conflito entre os valores sócio-políticos do instituto e os meus não desapareceu magicamente. Na verdade, está ficando pior. Quando li, pela primeira vez, sobre as reuniões do Equity Canoe, no Evergreen State College, mal pude acreditar no que via. Quando vi as imagens, foi ainda pior do que eu poderia imaginar. Pensava que fosse uma aberração, uma faculdade enlouquecida, uma exceção. Eu estava enganado. O clima acadêmico atual está rapidamente seguindo a rota do Evergreen State College. Palavras como “diversidade”, “equidade” e “inclusão” tornaram-se a novilíngua do totalitarismo.

No início deste ano, um acadêmico que respeito sugeriu que era melhor eu não colaborar com outro acadêmico por causa de suas ideias “polarizantes”; isso poderia prejudicar minha reputação e impedir minha estabilidade profissional. Foi um momento de grande alívio, porque de repente eu sabia exatamente o que devia fazer: colaborar. Isso abriu um mundo no qual eu nunca pensei que entraria, devido aos medos e dúvidas descritos acima. Esse acadêmico era Yoram Hazony; nos encontramos pessoalmente na semana seguinte, e o resto é história.

Nunca mais vou viver de mentiras. Continuo com medo, mas não duvido mais da validade e relevância de minhas crenças ortodoxas e conservadoras. Eu preferiria ser condenado ao ostracismo pela verdade, do que me esconder com vergonha e viver uma mentira. Recuso-me a abraçar um “liberalismo” totalitário e iliberal, baseado em versões distorcidas da verdade, justiça e história. Como intelectual e como historiador que se especializou exatamente no período em que essas distorções começaram a se manifestar mais ostensivamente, acredito que tenho o dever de gritar que o rei está nu. Não mais “medo e dúvidas”, mas um justo frygt og bæven (temor e tremor). Como Newman, tenho medo da perplexidade, inquietação e ceticismo que poderei causar a tantas pessoas e o sofrimento que experimentarei. Mas nunca mais vou viver de mentiras.

Se há algo que a história confirma, é a validade e a justiça do conservadorismo. No entanto, se há algo que o conservadorismo precisa, é de um maior enraizamento na história. Enquanto estamos falando, a história está sendo reescrita por acadêmicos liberais cuja agenda não é corrigir erros do passado, mas violar os direitos do passado. É uma agenda mais uma vez elaborada sobre a trindade profana da diversidade, equidade e inclusão, o mesmo tipo de pseudo-historiografia adotada por regimes totalitários para controlar a narrativa. Como Orwell escreveu em 1984,

“Você percebe que o passado, a partir de ontem, foi realmente abolido?… Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, ruas e prédios foram renomeados, todas as datas foram alteradas. E esse processo continua dia a dia e minuto a minuto. A história parou.”

Se alguma coisa devemos fazer, é preservar para a posteridade o mundo como ele era e lutar por sua redescoberta pelas gerações futuras.


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