DO SOFRIMENTO À GRATIDÃO

Ao fazer, à noite, o balanço dos sofrimentos experimentados desde o começo do dia, percebemos que foram incontáveis. E o que fazemos com eles? Jogamo-los na lata de lixo das lamúrias, como se fossem coisas inúteis e sem valor.
Nada é mais reciclável que o sofrimento: pode se transformar em pérola preciosa, que será de grande utilidade e valia na portaria da Eternidade.
No sofrimento é lícito duvidar do amor de Deus? Nós, com frequência, sobretudo quando estamos dentro ou diante de uma grande dor, exigimos provas urgentes da misericórdia divina, esquecendo-nos de que a grande prova desse amor já foi dada no próprio ato, anterior a todas as dores e sofrimentos, em que fomos amorosamente gerados: o dom gratuito da vida (que é eterna). Sem esquecer, naturalmente, aquela outra prova do amor divino que foi dada no Golgota.
É preciso ser grato a Deus, permanentemente. Hic et nunc. Per omnia secula secolorum. Se um dia merecermos a eternidade junto de Deus, cada milésimo de nosso tempo eterno (com o perdão do paradoxo) será espontaneamente ocupado em agradecer, agradecer e agradecer. Cada célula do corpo ressuscitado será, pela mais lógica das consequências, algo como a vibração sonora de um ininterrupto cântico de louvor e ação de graças.
Agradecer, antes de tudo, pela criação do universo do qual somos partes, tal como ele é, sem tirar nem acrescentar nada. Deus podia ter criado outro cosmos, melhor do que este, mas de cuja tripulação não fizéssemos parte. Existir para sempre, mesmo que tenhamos de passar algumas décadas iniciais no precário barraco deste mundo, é infinitamente melhor que inexistir (contanto que a alma se salve, obviamente; do contrário, seria preferível nunca ter visto a luz do mundo).
Agradecer, também, pelo dom da vida humana, pois podíamos ter nascido umas grotescas e inumanas bactérias. Imagine-se ser um pobre bastonete de escherichia coli, soturno habitante das sombrias cavernas intestinais!
Ou, então, podíamos ver o mundo pelos olhos atônitos de uma barata — semelhante àquela que perseguia o estranho personagem GH da estranha Clarice Lispector, no mais íngreme romance da literatura brasileira, cuja leitura certamente é um daqueles sofrimentos que, se convenientemente oferecidos a Deus, podem ser úteis no purgatório, ajudando na remissão de alguma pena temporal —, embora ler Clarice Lispector seja um daqueles sofrimentos que podem perfeitamente ser evitados, para benefício da própria alma.
A gratidão, como a caridade, não desaparecerá com a morte. O sofrimento sim, a gratidão não: é eterna.
















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