GRACILIANO RAMOS E SUAS CONTRADIÇÕES

Graciliano Ramos viveu no espírito as grandes contradições de sua época — marcada, na política, pelos projetos salvacionistas do comunismo e do fascismo, que queriam resolver à força os problemas que a democracia brasileira, rasteira e fisiológica, não conseguia solucionar sob o império da lei.
Indignou-se com a degradação aviltante do homem nordestino e julgou, equivocadamente, que a única solução para esse problema estivesse no comunismo, com a eliminação das diferenças sociais e a transformação do Estado no grande patrão. Também errou quando, em sua visita à URSS, idealizou a figura monstruosa de Stalin, o ex-seminarista que mais vítimas fez na história contemporânea, junto com Hitler.
Mas Graciliano era, no fundo, um individualista: gostava de contrariar a burguesia de sua terra, mas também não aceitava que lhe ditassem normas literárias: recusou furioso o zdanovismo soviético, que pretendia exercer estrito controle da produção artística e cultural, definindo o que os escritores podiam escrever ou não. Um dos mandamentos do decálogo zdanovista era a criação de “heróis positivos”, modelares, dando o bom exemplo socialista aos leitores, contribuindo para a construção da sociedade sem classes e a destruição do decadente espírito burguês.
O curioso é que esse escritor, que não aceitava personagens estereotipados, transformou-se num deles quando foi objeto de uma biografia escrita pelo jornalista Dênis de Moraes, O velho Graça (lançada pela editora José Olympio em 1992). O biógrafo foi atrás dos documentos e das fontes primárias, reuniu tudo, mas realizou no fim de tudo uma obra bastante desigual. Em suas 407 páginas, o autor de Vidas secas aparece como nunca foi em sua vida: um super-herói comunista sem equívocos e hesitações, não muito distante dos personagens que frequentam os romances típicos do realismo socialista.
O biográfo Dênis de Moraes não queria que seu herói errasse. Acabou equivocando-se ele próprio, e onde não podia equivocar-se, ao transformar o Graciliano que realmente foi no Graciliano que ele gostaria que fosse. É o pecado mortal dos biógrafos mais comprometidos com ideologias do que com a realidade.
Graciliano errou em seus compromissos políticos. Mas errou onde podia errar, num território que não lhe comprometeu a glória literária.
















Comentários