HISTÓRIA DE SÃO NORBERTO – Augusto Frederico Schimidt

São Norberto era um pregador humilde. Filho de nobres, ligado pelo berço à família dos imperadores, Vendeu um dia os seus bens e os distribuiu Pelos necessitados. Andava descalço mesmo no inverno.
Quando o fizeram arcebispo de Magdeburgo, Gemeu e chorou longamente antes de obedecer. Sua tristeza foi imensa. Sentiu-se subitamente afastado da sua ambição, Que era a pobreza neste mundo. Sentiu-se coroado pelos espinhos de um grave poder. No entanto, intimado pelo Legado do Papa, obedeceu E veio de Anvers, onde estava, a Magdeburgo, Montado num burro e vestido como um mendigo, Com o seu burel esfarrapado.
Veio vindo pelas estradas meditando. Pesava-lhe a honraria; o contato com os grandes do mundo o ofendia. Nunca desejara Norberto o comando da Igreja. Queria apenas transmitir a fama do Cristo Pela palavra e fundar conventos. Queria ser um dos últimos, o último, se possível, Na escala das grandezas.
Sua sede de pobreza era inesgotável E o devorava. Quanto mais pobre, quanto mais nu dos bens do mundo, Mais próximo se sentia o Santo do Coração de Deus.
Veio vindo na triste montaria, Carregando a cruz da sua investidura, Até avistar, de longe, a cidade. Então saltou e, como sempre, de pés nus, Continuou o resto da viagem E o seguiam o clero e o povo vindos ao seu encontro.
E, depois de entrar, em mortificante triunfo, Em Magdeburgo, e depois de empossado como Bispo, Levaram Norberto com acompanhamento luzido Aonde devia viver. Aconteceu, porém, que o porteiro, não o conhecendo, o distinguiu entre todos, Proibindo-lhe que atravessasse os portais do Palácio, Porque não era aquela a hora dos pobres entrarem, Nem justo que um pobre incomodasse os Ricos e o Clero E com eles viesse misturado.
Ao ouvirem tratar, assim, Norberto, os poderosos Clamaram contra o porteiro, em termos violentos, Avisando-o de que estava perdido, Pois o Pobre era o próprio Senhor. Ouvindo isto, fugiu o guardião, temeroso e turbado, E corria. E eis que Norberto o perseguia, sorrindo, E lhe ia dizendo: — Por que foges, irmão, se entre todos Foste o único a me reconhecer?
(In Augusto Frederico Schmidt, A fonte invisível, 1949)
















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