IMORTALIDADE DA ALMA NA TEOLOGIA CRISTÃ E NOS FILÓSOFOS GREGOS
Na época em que Tertuliano terminou de vindicar a doutrina bíblica da alma contra os filósofos, ele tinha invocado não só os estóicos (Tert. Amin. 12.3; 43.2), mas também Aristóteles (a quem ele parece não ter citado em nenhum outro lugar) e outras fontes filosóficas, cujo escopo abrangia os pré-socráticos Heráclito e Demócrito (Tert. Amin. 15. 3-5) a Ário Dídimo o estudioso da era augustiniana (Tert. Amin. 54.2). Tertuliano, para sua doutrina da ressurreição e da origem simultânea de corpo e alma, não pôde deixar de citar a mesma filosofia a cuja pretensões se opusera. Assim, ao mesmo tempo em que se pode dizer que Orígenes ilustra a modificação de conceitos filosóficos ao continuar a expor os temas bíblicos, pode-se alegar que Tertuliano ilustra a continuação e inevitável, se não sempre reconhecida ou mesmo consciente, influência de ideias filosóficas sobre a doutrina cristã. Cada um mostra que, na verdade, houve uma vitória da teologia sobre a filosofia clássica, mas também que a vitória não foi de maneira alguma unilateral como declaram alguns dos porta-vozes da doutrina cristã.
Para que os exemplos de Orígenes e de Tertuliano não sejam descartados como não representativos com fundamento no fato de que ambos foram condenados como heréticos, a incontestável retidão doutrinal de um são Gregório de Nissa pode ser considerada como prova para essa tese de que a tensão entre a doutrina bíblica e a filosófica continuou a caracterizar a teologia ortodoxa da tradição católica (Greg. Niss. Eun. 3.2.98-99). Mesmo que não seja exato sustentar que sua doutrina da trindade foi resgatada do triteísmo por um conceito do médio platonismo, sua percepção das doutrinas que vimos em Clemente, Orígenes e Tertuliano, as doutrinas da alma e da ressurreição, reforça a tese, como sugere o próprio título de seu tratado, A alma e a ressurreição. O tratado também insiste que “enquanto a filosofia pagã, sobre o objeto da alma, continua na direção de supostas implicações ao belprazer do pensador, não temos autoridade para tomar essa liberdade, a saber, de afirmar qualquer coisa que nos agrade. Pois tornamos a sagrada Escritura a regra é a norma. Somos obrigados a fixar os olhos nisso e só aprovamos o que pode ser harmonizado com o intuido desses escritos” (Gr. Niss. Amin. et resc). Contudo, Gregório, como seu mentor Orígenes não pôde escapar completamente do domínio da filosofia platônica; ; seu tratado sobre a alma, na forma e até mesmo no contexto, traiu reiteradamente seus ancestrais do Fédon ( Gr. Niss. Anim. et.resc), da mesma maneira que sua teologia mística documentou tanto seu desenvolvimento no pensamento platônico quanto sua transcendência desse pensamento. As duas doutrinas cristãs que talvez sejam as indicações mais confiáveis da influência contínua da filosofia grega na teologia cristã são estas: a doutrina da imortalidade da alma e a doutrina do caráter absoluto de Deus — ” Deus e a alma, é isso que desejo conhecer, nada mais”, Na conhecida fórmula de Santo Agostinho (Agst. Solilóquio 1.2.7). A ideia da alma imortal e racional faz parte da herança grega na doutrina cristã; Santo Tomás de Aquino e Filipe de melâncton são apenas dois dos muitos teólogos a compor tratados com o título [sobre a alma], cujo conteúdo foi determinado mais pela linguagem filosófica sobre a alma que pela bíblica.
A ideia da imortalidade da alma, na verdade, acabou por ser identificada com a doutrina bíblica da ressurreição do corpo, uma doutrina cujo um dos principais polêmicos objetivos originais era a imortalidade da alma. A equação pagã ou herética da alma com a vida é a declaração da imortalidade natural à parte da ação de Deus, o criador, foi rejeitada pelos pensadores cristãos com base no fato de que “a alma em si mesma não é vida, mas participa na vida conferida a ela por Deus”, por meio de quem só a alma recebeu a capacidade de durar eternamente. Portanto, “a alma participa na vida porque Deus que ela viva, assim ela não participará sequer dessa maneira quando Deus não quiser mais que ela viva” (Iren. Her.2.34.4). A declaração de Tatiano de que “a alma em si mesma não é imortal, mas mortal” (Tat. Or. 13) se baseou em suas suposições acerca da relação entre tempo e eternidade e entre corpo, alma e espírito. Contudo, ela da voz à insistência a respeito da doutrina da ressurreição em contraposição à imortalidade natural.
O fundamento para essa insistência era a doutrina cristã da criação. Como só Deus não teve início, e tudo o mais foi “trazido a existência pelo autor acima de todas as coisas, por isso acreditamos que haverá uma ressurreição do corpo depois da consumação de todas as coisas” (Tat. Or. 5-6). Atenágoras argumentou que a confissão de Deus como criador exigia uma doutrina da ressurreição quando da conclusão do propósito divino e que “o motivo para o homem vir a ser garantia sua ressurreição, pois ele, sem a ressurreição, não seria permanente como homem” (Atenag. Res.13). Mas a argumentação de Atenágoras, em contraposição a de Tatiano, já é uma indicação da síntese entre a imortalidade e a ressureição que era para ser a doutrina ortodoxa. As especulações de Orígenes sobre a pré-existência da alma e sua salvação final foram formalmente condenadas no século IV, mas tinha sido repudiada pela maioria dos teólogos desde o início. A doutrina da criação foi defendida por ser distinta da doutrina da queda do homem: o pecado e a imortalidade dos seres humanos não se deviam a alguma queda Pré-histórica da alma e seu subsequente confinamento no corpo, mas à primeira desobediência do homem. Uma vez que a doutrina da imortalidade da alma foi separada da noção da pré-existência da alma, ela pôde ser harmonizada com a doutrina da ressurreição. O tratado de Santo Ambrósio sobre a ressurreição proclamou a percepção padrão ao argumentar que a doutrina da imortalidade estava incompleta a doutrina da ressurreição (Ambr. Exc. Sat. 2.65); a ressurreição significava a atribuição ao corpo dessa vida eterna que a alma já possuía (Ambr. Exc. Sat. 2 50-52). O que os filósofos ensinavam sobre a imortalidade da alma não estava incorreto, mas apenas incompleto.
A IMORTALIDADE DA ALMA NA TEOLOGIA CRISTÃ E NA FILOSOFIA GREGA (Orígenes)
ORÍGENES também é retratado como um HELENIZADOR consistente; um de seus contemporâneos pagãos disse ao seu respeito que “embora seu modo de vida fosse cristão e contrário à lei, ele interpretou o grego e introduziu ideias gregas em fábulas estrangeiras” (ap. Eus. e. 6.19.7). A partir de um estudo das obras de Orígenes sobre a Bíblia fica evidente que ele dependia muito menos que Clemente da noção de tradição secreta e que tinha mais intenção até mesmo que Clemente em manter suas especulações nos limites da tradição (Hanson, 1954). Portanto a tensão entre a doutrina bíblica e a filosófica, era de fato, ainda mais contundente em Orígenes que em Clemente. Uma ilustração apropriada da tensão é a doutrina de Orígenes da ressurreição, à qual ele devotou dois livros e dois diálogos(todos perdidos, exceto por alguns fragmentos) (ap. Met.res.3.17.2-5). A doutrina de uma ressurreição literal do corpo físico foi “pregada nas igrejas[…] Para os ingênuos e para os ouvidos das multidões comuns que são levadas por sua crença a viver uma vida melhor” (Or. Cels. 5.18-19). Orígenes, reconhecia que compartilhava a doutrina da imortalidade da alma com os filósofos pagãos (Or. Cels. 3.81). Ele também ensinava “que a vida da alma não começou quando a alma foi unida ao corpo”, mas que a alma pré-existiu ao corpo e caiu naquela condição anterior (Daniélou, 1955, pg 289). Para outro cristão do século III, isso era “a brincadeira de alguns que pervertiam a escritura a fim de que sua opinião, de que a ressurreição é sem a carne, tivesse sustentação; supondo de forma racional os ossos e carne e mudando sua posição de várias maneiras ao sabor do vento por meio de alegorização” (Met. res. 1.39.2). O filósofo pagão não aprendeu o que Orígenes acreditava ser o verdadeiro sentido da doutrina cristã da ressurreição, embora o cristão literalista considerasse esse sentido como uma traição da mensagem bíblica para o espiritualismo platônico. Ao eliminar o pólo do pensamento de Orígenes de seu sistema isso o tornaria mais consistente; mas seria uma supersimplificação e uma distorção do seu pensamento, pois a doutrina bíblica e a especulação filosófica são componentes essenciais de sua teologia.
A doutrina bíblica e a especulação filosófica também estavam mescladas na teologia de Tertuliano, embora em proporções distintas, sua pergunta: O que Atenas tem que ver com Jerusalém?” (Tert. Presc. 7.9) e a retumbante resposta negativa que ele fornece repetidamente para a questão, as vezes, obscurece os elementos filosóficos de seu pensamento. As próprias questões examinamos em Orígenes, a ressurreição e a alma mostram a aversão de Tertuliano à filosofia e sua dependência dela. Seu tratado sobre a ressurreição reconhece um grau de afinidade entre a doutrina cristã e os ensinamentos de alguns filósofos (Tert. Res. 1-3), mas ele prossegue a fim de expor várias passagens bíblicas sobre a carne em antítese aos filósofos e aos heréticos (Tert. Res. 4); ele dá especial atenção a 1corintios 15 (Tert. 48-60). O tratado sobre a alma começa com um ataque parecido contra as doutrinas filosóficas (Tert. Anim.1.2-6), em especial a doutrina de Platão sobre a alma, que depois ele chamou de ” O fornecedor de todos os heréticos” (Tert. Anim.23.5). Ele teve de reconhecer mais uma vez os paralelos entre a verdade bíblica e o ensino filosófico (Tert. Anim.2.1). Mas ele pretendia, “de um lado, libertar os sentimentos sustentados por nós em comum com eles dos argumentos dos filósofos e, do outro lado, separar os argumentos que ambos grupos usavam a partir da opinião dos mesmos filósofos” (Tert. Amin. 2.5).
Tertuliano, em teoria devia lealdade só a Bíblia e às “mais frequentes admoestações” do paracleto montanista (Tert. Amin. 58.8); o que nós mesmos somos que também a escritura é (e tem sido) desde o começo” (Tert. Presc. 38.5). Mas não estava de maneira alguma óbvio o que as escrituras e a tradição da igreja (ou mesmo o paracleto) ensinavam sobre a origem e a natureza da alma humana. Portanto, ele se sentiu obrigado a “apelar aos estóicos para também me ajudar a enquanto declaro quase em nossos próprios termos que a alma é uma essência espiritual (considerando que o sopro de vida e o espírito são, em uma natureza, muito parecidos um com o outro), todavia, não tenho dificuldade em [nos] persuadir de que a alma é uma substância corpórea” (Tert. Amin. 5.2)
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