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JESUS CRISTO VERDADEIRO DEUS E VERDADEIRO HOMEM

28 de jan. de 2018
10 min de leitura

JESUS

CRISTO VERDADEIRO DEUS E VERDADEIRO HOMEM

(As duas naturezas em Cristo)

Voltando a falar das controvérsias Cristológicas em Éfeso e, agora seguindo para Calcedónia, vemos que Isso foi tudo menos o fim da controvérsia cristológica. A solução do conflito efésio, tão longe ficou clara, não era aceitável para ninguém e tinha de ser resolvida em uma ou outra direção. A narrativa de duas décadas depois do Concílio de Éfeso, de muitas maneiras, pertence mais à história da polícia Imperial ou eclesiástica que à história da mensagem cristã; não obstante, a dinâmica interna da doutrina da pessoa de Cristo ser continuado a estar em operação e é a isso que temos que dar atenção aqui. Depois de 431, a doutrina podia ter se desenvolvido em diversas direções, cada uma das quais tinha sua própria validade lógica na evolução da doutrina cristológica. A teologia da habitação do Logos no íntimo do ser, pelo menos conforme representada por Nestório, tinha sido condenada no Concílio de Éfeso, não sem uma audição, mas certamente em um entendimento de sua principal intenção; e pareciam ter sido exigidos alguns apelos à mais alta corte ou talvez a outra sessão da mesma corte. Os delegados orientais do concílio de 431, liderados por João de Antioquia, acusou o concílio de “heresias apolinarianas, arianas” e exigiu que aqueles que tinham aprovado a teologia de Cirilo “aceitassem de novo a fé nicena sem acréscimos estranhos [e] excomungaram as proposições hereges de Cirilo” (Concílio de Éfeso procedimentos dos orientais 15). Mesmo que a própria causa nestoriana não pudesse mais ser defendida como posição teológica, a distinção entre as duas naturezas, como um ensinamento amplamente mantido, parecia estar ameaçado pela aprovação abrangente de Cirilo.

A teologia da união hipostática, por sua vez, tinha sido certamente vindicada quando sua designação de “um e o mesmo Cristo” como o sujeito de todos os predicados cristológicos, incluindo a divindade e a crucificação, tinha sido reconhecida como idêntica ao Credo de Nicéia. Contudo, nada tinha ficado mais óbvio nas controvérsias cristológicas durante o século após o Concílio de Nicéia que a inadequação da estrutura conceitual nicena -ou, a propósito de Atanásio- para qualquer atenção séria ao problema do divino e do humano em Cristo. A vindicação em Éfeso seria vazia a menos que fosse acompanhada, ou em alguma medida seguida, de uma declaração bem mais elaborada de como a pessoa do homem-Deus era absoluta depois da encarnação. Mas parece ter sido inerente a essa teologia da união hipostática uma tendência para alcançar qualquer declaração desse tipo e afirmar com Eutiques:”Confesso que nosso Senhor, antes da união, tinha duas naturezas, mas, após a união, confesso uma única natureza” ( Concílio de Calcedónia Atos 527). Por isso, um sínodo de 449, controlando por essa posição, pôde declarar: “Quem ensina duas naturezas, seja anátema” (Concílio de Éfeso [449] Concílio de Calcedónia Atos 492-93). A união hipostática podia ser salva sem chegar a esse extremo?

Tanto a precedência quanto a prudência parecem exigir algum tipo de concessão, e, a despeito da polarização das posições dogmáticas, havia adeptos de cada posição que reconheciam isso. Os porta-vozes da teologia da pré-existência, da kenosis e da exaltação, tendo excomungado Nestório no sínodo romano de 432, aprovaram a ação do sínodo de Éfeso; mas vários documentos papais -incluindo o edito do papa Celestino, que tinha encarregado Cirilo de de executar a excomunhão e deposição de Nestório- deixou claro que ainda havia esperança de afirmar uma solução “apostólica” que reconciliasse, se não os extremistas, pelo menos o principal corpo de cristãos e os teólogos. Teodoreto, que de muitas maneiras assumiu o manto de Nestório como defensor da teologia da habitação do Logos no íntimo do ser, achou possível formular um documento de compromisso no qual de afirmava que “a união das duas naturezas acontece e, portanto, confessamos um Cristo, um Filho e um Senhor” e isso, por conseguinte, “de acordo com esse conceito de união sem confusão, confessamos que a Virgem santa é theotokos” ( Epístola de Cirilo de alexandria.3). De alguma maneira, Cirilo achou possível assinar esse documento para desgosto de muitos de seus partidários, foi bem-sucedida em fornecer a fórmula correta para o momento certo. Isso foi feito pelo principal intérprete da teologia de pré-existência , da kenosis e da exaltação, papa Leão , em seu Tomo To Flavian [A carta para Flaviano], que, com adições critériosas de outras tradições teológicas , veio a servir como a fórmula de reconciliação, para muitas facções, mas não todas elas, em Calcedônia, em 451. O texto da fórmula calcedônia -fundamental desde essa época para o desenvolvimento cristológico de todo ocidente latino, boa parte do oriente grego e algumas partes do oriente siríaco, diz:

“Todos nós, com voz uníssona, ensinamos a fé num só e mesmo Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo o mesmo perfeito na divindade e o mesmo perfeito na humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, com alma racional e com corpo, da mesma substância do Pai [homoousios] quanto à divindade e quanto à humanidade da mesma substância [homoousios] que nós, em tudo semelhante a nós menos no pecado; o mesmo que desde a eternidade é procedente do Pai por geração quanto à divindade e o mesmo que quanto à humanidade nos últimos tempos foi gerado pela Virgem Maria, Mãe de Deus, por nós e nossa salvação; sendo um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que nós reconhecemos com o existente em duas naturezas, sem confusão, sem mutação e sem divisão [en duo physesin asygdrytos, atreptôs, adiairetôs, achôristôs], sendo que a diversidade das naturezas nunca foi eliminada pela união, ao contrário, a propriedade de cada uma das naturezas ficou intacta e ambas se encontram em uma só pessoa e uma só hipóstase. O filho não foi dividido ou separado em duas pessoas, mas é um só e o mesmo a quem chamamos de Filho, Unigênito, Deus, Verbo [Logos], Senhor, Jesus Cristo, como desde o início a respeito dele falaram os profetas e o próprio Jesus Cristo nos ensinou e como nos foi transmitido pelo Símbolo dos Pais (Símbolo de Calcedónia [Fhilipe Schaff 2:62-63]).

A genealogia desse decreto deixa claro que “a fórmula não é uma criação original nem nova, mas foi, como um mosaico, reunida quase totalmente de pedras que já estavam disponíveis”. (Urbina [1951], p.398). Especificamente, a Fonte dessa fórmula foi chamada Segunda epístola de Cirilo para Nestório, a carta de Cirilo para os antioquenses junto com a união da fórmula de 433 e a obra Tome [Carta], de Leão; a frase “não foi dividido ou separado em duas pessoas” parece vir de Teodoreto. Embora talvez seja estatisticamente exato dizer que “a maioria das citações são de epístolas de Cirilo (Urbina [1951], p.400), as contribuições da obra Tome [Carta], de Leão, foram decisivas na polêmica contra o que era, conforme se entendia, as formas extremas das teologias alternativas da encarnação, bem como na redução do problema para as afirmações positivas sobre alcançar uma concordância geral, embora de maneira alguma universal. A fórmula como Tome [Carta], condenava qualquer noção de união hipostática que pudesse pôr em risco “a diversidade das naturezas” ou viola-se a regra de que a união era alcançada “sem confusão”. Essa fórmula, ao mesmo tempo, insistia que Cristo não foi “dividido ou separado em duas pessoas”, diferenciando-se de qualquer teologia de habitação do Logos no íntimo do ser que tornasse o Logos uma pessoa e o homem assumido por ele outra pessoa.

Claro que é bem outra questão se essas interpretações das alternativas cristológicas representavam uma leitura justa e acurada das várias teologias. A insistência na afirmação de que Cristo não foi dividido nem separado em duas pessoas não assola de fato o cerne de seu pretendido alvo, a necessidade de afirmar que o nascimento, sofrimento e morte de Cristo foram reais e simultaneamente de proteger a Trindade a fim de que não seja comprometida por esses fatos. Dizer que a diversidade das naturezas não é afastada pela união podia significar que as atividades e propriedades adequadas a cada natureza tinham de ser ontologicamente predicados só daquela natureza, embora verbalmente pudesse ser permitido predicá-las de “um só e mesmo Cristo”. A expressão “sem confusão” também seria interpretada em apoio à tese de que, uma vez que a encarnação não menos que antes dela, o humano era o humano e o divino era o divino. Mais explícita ainda, a expressão “sem mutação”, aplicada à natureza humana uma vez que era tudo como garantido por ambos os lados que a natureza divina era imutável, podia ser lida como um ataque à noção de que, por causa da salvação do homem, consistia na transformação de sua natureza humana em divina, a natureza humana de Cristo começou o processo de salvação por meio de sua união com as natureza divina. Embora a fórmula calcedônia não diga de fato alguma dessas coisas de forma inequívoca, ela parece permitir espaço para elas ; por conseguinte, podia até ser, e na verdade era, tomada como uma vidicaçao da posição nestoriana.

Na verdade, a relação da fórmula com outra alternativa era ainda menos clara e, com certeza, menos tranquilizadora no longo curso. É inegável que a fórmula ensinava uma união hipostática de tipos: combinando “pessoa e hipóstase em um só”. Ela também se refere à Virgem como theotokos e exigia que as naturezas, apesar de haver duas delas, fossem reconhecidas como “sem divisão”, “sem separação”. Para a teologia da união hipostática, esse foi um bom começo, mas nada além de um começo. Os problemas realmente difíceis foram ignorados ou descartados por engano. Não ficou claro, por exemplo, quem era o sujeito do sofrimento e da crucificação, pois esses eventos na história da salvação não eram tão mencionados. Presume-se que as referências a “um só e o mesmo” próximo do começo e próximo do fim indicariam que ele, na concretude de sua pessoa total tanto divina quanto humana, era o sujeito, mas isso não foi especificado. Reciprocamente, todas as advertências contra qualquer confusão das duas naturezas deixaram os proponentes da união hipostática insatisfeitos com seu ponto soteriológico fundamental: que a divinização suprema do homem teve seu início na união da humanidade de Cristo com sua divindade em uma inteireza íntima e inseparável de pessoa. E talvez o problema mais crucial de todos, evidente em qualquer declaração de credo, mas especialmente óbvia nessa, era o hermenêutico. O credo começava com a declaração de que foi “transmitido pelos santos pais” e concluía com referências específicas não só aos profetas do Antigo Testamento e aos ensinamentos de Jesus do Novo Testamento, mas também à autoridade do “Símbolo dos Pais”. À luz das deliberações em Éfeso e das questões na controvérsia, isso quase com certeza se referia ao Credo de Nicéia. Mas todos reivindicavam essa autoridade; e dependendo de qual dos “santos pais” alguém citasse -Niceia e, agora, Calcedônia- essa questão poderia ser interpretada de diversas maneiras.

Portanto, houve concordância em discordar. Mas foi mais que isso: era basicamente uma declaração da teologia da pré-existência, da kenosis e da exaltação formulada de tal maneira a transcender as alternativas especulativas ao ir além (ou abaixo) delas até a verdade dos evangelhos – pura, clara e simples. Mas a verdade, até mesmo a verdade dos evangelhos, nunca é pura e clara e raramente, simples. A cristologia calcedônia estabeleceu os termos para a teologia e a devoção da igreja latina, pelo menos, até a Reforma, e mesmo então as várias doutrinas concorrentes das doutrinas da pessoa de Cristo rivalizavam umas com as outras os seus protestos de lealdade à calcedônia. Mas, nas porções grega e siríaca da igreja, a ambiguidade dessa cristologia tornou-a consideravelmente menos bem-sucedida. Quer ela fosse considerada evasiva quer apenas ingênua, Essa cristologia foi pouco popular no Oriente fornecendo os termos para subsequentes controvérsias, em vez da solução para as antigas controvérsias. E no processo de alienação de grandes segmentos da cristandade que, mesmo depois de um milênio e meio, ainda não se reconciliaram nem com o Sínodo da Calcedônia nem com as igrejas que o aceitam.

DECISÕES DOS PRIMEIROS CONCÍLIOS SOBRE AS HERESIAS CRISTOLÓGICAS

“Um senhor Jesus Cristo perfeito em divindade e o mesmo perfeito em humanidade não sofreu em sua natureza divina mas em sua natureza terrena” Justiniano I A Confissão da verdadeira fé contra os três capítulos PG.86:1003)

Não havia ninguém na comunhão do cristianismo católico que “ousava dizer que a três naturezas na Trindade divina como a três hipóstases”. Não só os concílios de niceia, Constantinopla e Éfeso, mas também “os santos pais que se reuniram na calcedônia”(Justiniano I A Confissão da verdadeira fé contra os três capítulos [86:1013]) foram confirmados como Santos confessores. Não obstante, os ANÁTEMAS ligados à confissão deixaram óbvio onde estava sua a direção. Estes condenavam todos que ensinavam dois cristos, ou que negavam o Theotokos ou que negavam a unidade de Cristo em duas naturezas (e a despeito delas). Por isso, “se alguém defender Teodoro de mopsuéstia[…] que apresentou essas blasfêmias e se não o anatematizar e tudo que foi atribuída a ele, e alguém que tenha um raciocínio semelhante ao dele ou ainda raciocina dessa forma, que ele seja anátema”. A mesma coisa é aplicada ao apoio de nestório a Teodoreto: “Se alguém defender os escritos lembrados de Teodoreto e não os anatematizar, seja ele anátema” (Justiniano I A Confissão da verdadeira fé contra os três capítulos [PG. 86:1017]). Isso foi dirigido não só aos partidários desses condenados aqui, mas também, e acima de tudo, a todos os críticos monofisitas de calcedônia (Justiniano I A Confissão da verdadeira fé contra os três capítulos [PG.86:1019]); pois estava sendo afirmado aqui que esta interpretação dos decretos calcedônios era a válida, em vez da interpretação óbvia (e ocidental e, na verdade, nestoriana). Pois a igreja católica Condena esse falso ensinamento não contra “o templo” e contra habitação [do Logos] no templo, mas contra o único Senhor Jesus Cristo, o logos de Deus encarnado” (Justiniano I A Confissão da verdadeira fé contra os três capítulos [PG.86:1021]).

A condenação Imperial dos três capítulos encontrou alguma resistência de várias autoridades eclesiásticas, incluindo o Bispo de Roma, mas no fim ela foi aprovada e reforçada pelo segundo Concílio de Constantinopla, em 553. O concílio condenou qualquer um que sustentasse que “Deus Logos que realiza Milagres era outro que não o Cristo que sofreu” ( segundo concílio de Constantinopla 553 anátema 3 mansi 9:377) o Concílio reafirmou o Theotokos e rejeitou um mero christotokos (segundo Concílio de Constantinopla 553 ANÁTEMA 6 mansi 9:380). O primeiro anátema (segundo Concílio de Constantinopla 553 anátema 1 mansi 9:384) foi a reafirmação do Dogma ortodoxo da trindade, e ele declarava que “a Santíssima Trindade não sofreu adição de uma pessoa ou hipóstase quando um da Santíssima Trindade, Deus Logos, tornou-se encarnado” (segundo Concílio de Constantinopla 553 anátema 5 mansi 9:380). Além do catálogo usual de hereges e heresias a serem condenados — incluindo Ário, Eunômio, macedônio, Apolinário, nestório, Euteques (segundo Concílio de Constantinopla 553 anátema 11 mansi 9:384 ) — o concílio devotou cânones especiais aos ANÁTEMAS pronunciado sobre cada um dos três capítulos (segundo Concílio de Constantinopla 553 anátema 12-14 mansi 9:384 – 88) O nome de Orígines, em boa medida, foi acrescentado a lista; a condenação de várias doutrinas atribuídas a Orígines, que Justiniano tinha lançado em 543, com frequência, é incluída com os atos e as minutas do Conselho (segundo Concílio de Constantinopla 553 Cânones Mansi 9:396 -400), embora não pareça ter sido adotada oficialmente ali. O Concílio de calcedônia foi vindicado como um “sínodo Santo” e que tinha agido devotamente (segundo Concílio de Constantinopla 553 ANÁTEMA 6 mansi 9:380). Mas todo o tom da construção posto no Concílio de calcedônia era o dado a ele pela teologia Imperial que prevaleceu. O problema cristológico não foi resolvido no segundo Concílio de Constantinopla de forma muito mais eficaz que no de calcedônia e, durante o século VII, a controvérsias sobre se Cristo tinha uma vontade ou duas continuaria a assolar.

 
 
 

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