Liturgia é obra do povo?

Liturgia
NÃO significa uma “Obra do povo” (Contra o Pelagianismo litúrgico) – Tradução por J. R. R.
Exemplos da palavra λειτουργία no Novo Testamento
Tornou-se algo bastante arrojado nas reformas litúrgicas dos anos 60 e 70 ensinar que a palavra grega para liturgia é λειτουργία (leitourgia) e que isso significa “serviço da parte do povo/obra do povo”. Isso leva a uma nova ideia de que λειτουργία, ou a “liturgia”, é algo que deve ser dirigida e até executada pelos leigos dentro de um contexto de adoração.
Mas será que λειτουργία significa uma “obra do povo”? Não.
A liturgia não é “obra do povo”, e eu irei mostrar a vocês exemplos na Sagrada Escritura. Mas antes de irmos às Escrituras, vamos dar uma olhada de fato na palavra grega:
A palavra “Liturgia” em grego:
λειτουργία, assim como várias palavras em grego, é uma palavra composta. O primeiro radical da palavra vem do grego “laos” que significa povo. (Há também a variação “leos” no grego ático que é a mesma palavra para “povo”). Essa palavra “laos”, ou “leos” no grego ático, é de onde deriva a palavra “leigos”. É uma palavra genérica para um coletivo de pessoas. A palavra grega Menelaos significa “resistência ao povo”, enquanto a palavra Nikolaos significa “conquistar o povo”.
A segunda parte da palavra vem do radical “ergon” que significa “obra/trabalho/ação”, como vemos nas palavras “ERGOnômico”, “enERGia” (Energos), sinERGia (SYNERGIA).
Quando se une os dois radicais do grego para descrever a algo, tem-se leitourgia ou λειτουργία.
A palavra λειτουργία significa “obra do povo” ou “obra para o povo”?
Está certo que o termo contém os dois radicais gregos para “povo” e “serviço”, mas como chegamos ao seu significado? Por um lado pode ser “obra DO povo”, significando um produto da união dos esforços do povo. Por outro, pode ser “obra PARA O povo”, significando algo feito para o benefício do povo.
Opção 1: A liturgia como “obra do povo”
A multidão de Kumbaya (uma espécie de liturgia comandada por Elvis Kingsley) dos anos 60 e 70 insistiu que no passado significou “algo que as pessoas trabalham juntas quando se unem”. Isso levou a ideia de que os leigos devem comandar as preces, ler os ensinamentos, preparar o altar, manusear cálices, manusear a comunhão, distribuir a comunhão, abençoar as pessoas na fila da comunhão, e purificar os recipientes. Afinal de contas, se liturgia significa uma “obra do povo”, então as pessoas devem estar participando de forma ativa.
Opção 2: A liturgia como “obra para o povo”
A tradição histórica recebida tem como definição a liturgia ou λειτουργία como algo que é feito para o bem das pessoas. Isso pode vir como um golpe severo para as legiões de cristãos a quem foram ensinados que a liturgia é uma “obra do povo”, mas essa é a mais pura verdade. Para Platão e outros pensadores gregos, λειτουργία é algo que alguém faz para o bem das pessoas. Consequentemente, o termo grego é normalmente usado em termos sacerdotais ou políticos a depender do contexto. Na Bíblia, normalmente é em termos sacerdotais, mas iremos examinar uma passagem em Romanos que é expresso em forma política:
Vamos olhar na Sagrada Escritura para assentar o debate:
Por conta do nascimento de João Batista, nós descobrimos que o seu pai, Zacarias, é um sacerdote aarônico da tribo de Levi. Sendo assim, ele servia no templo como sacerdote quando era a sua hora. A passagem explica que São Zacarias ia ao Templo para administrar (os ritos) e a palavra do original em grego é que ele vai lá para fazer a liturgia:
E sucedeu que, terminados os dias de seu ministério (λειτουργία), voltou para sua casa. (Lucas 1:23)
Por acaso Zacarias reuniu um amontado de pessoas para adorar a Deus? Não, a passagem explica que o dever dele era ir ao Templo e oferecer incenso a Yahweh. Ele fez isso para de forma cerimoniosa apresentar as preces do povo a Deus. Fica claro que a “liturgia” dele era algo que ele fazia como sacerdote para o benefício do povo, não algo que ele fazia como sacerdote com as outras pessoas presentes.
Vamos dar uma olhada em outro exemplo extraído em Hebreus:
Igualmente também aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os utensílios do serviço (λειτουργίας) sagrado. (Hebreus 9:21)
Esta é uma descrição de como Moisés consagrou o tabernáculo e seus utensílios para prestar culto no Antigo Testamento. O tabernáculo e seus respectivos utensílios só podiam ser manejados pelos Levitas, uma vez que os administravam para o benefício de Israel. Mais uma vez no vemos que λειτουργίας se refere ao que é feito pela classe sacerdotal em prol dos leigos.
A Liturgia de Cristo para o povo:
Agora, com efeito, obteve jesus (um) ministério (λειτουργία) tanto mais excelente, quanto é ele também mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. (Hebreus 8:6)
O autor descreve a Cristo como um Alto sacerdote que agora administra uma nova melhor aliança através de uma melhor λειτουργίας ou Liturgia. Novamente, esta λειτουργίας é algo que Cristo está administrando em nosso nome para nossa salvação. Notavelmente, isto é a entrega Dele do Seu Corpo e Sangue ao Pai para nossa redenção, algo que está presente em toda Liturgia da Missa.
O imperador romano como um liturgista:
E, não nos esqueçamos, que São Paulo chama ao terrível Imperador Nero de “liturgista”. Em Romanos 13, São Paulo explica como o imperador romano (naquele tempo, Nero) e todos os governantes são “liturgistas”:
3 Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela. 4 Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro (διάκονός ou diakonos) de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal.
5 Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência. 6 Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros (λειτουργοὶ ou leitourgoi) de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. 7 Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. (Romanos 13:3-7)
São Paulo trata ao imperador como διάκονός ou diácono, enquanto aos governantes por λειτουργοὶ ou “liturgistas”. Tenha em mente que esse imperador era o Nero, e mesmo assim ainda recebeu um título sacerdotal de Paulo. A propósito, é por isso que a realeza cristã usa faixas sobre os ombros que nem os diáconos.
Na verdade, a dalmática (veste própria dos diáconos) é um traje imperial tradicionalmente reservada para a corte bizantina. Eu não consigo me recordar da fonte agora, mas me lembro de ler certa vez que era permitido a Constantino ler as Escrituras na liturgia mesmo não estando batizado ainda devido a ele ser considerado um “semi-diácono” em razão de sua condição como imperador. E o imperador em Constantinopla seguia em procissão junto ao Patriarca e o clero, quase sempre usando uma dalmática.
De volta a “liturgia” a Romanos 13.
Ali é manifestado que ao imperador romano e seus governadores é dado o título de λειτουργοὶ. Eles não são liturgistas designando tarefas. Nero não está liderando as pessoas como se dissesse “Ajuntemo-nos, os ricos e soberbos”. Longe disso, esses dirigentes romanos são, segundo Paulo, apontados por Deus para administrar a justiça (em nome do povo) PARA o povo.
A liturgia como algo feito para o povo
Liturgia, pelo menos no Antigo e Novo Testamento, é algo sacerdotal ou político que é feito pelo bem do povo. Só é comunitário em ser aquilo que é feito para os outros.
Um sacerdote recitando a missa sozinho em um quarto de hotel está fazendo uma “obra para o povo” sem ter mais ninguém junto a ele.
De mesmo modo, o Papa reunir para uma missa 10.000 pessoa está também fazendo um “serviço para o povo”, mas as pessoas presentes não fazem disso uma “liturgia”. A liturgia é alcançada in persona Christi (em Cristo) para o povo. Tal qual Zacarias foi capaz de fazer a “liturgia” completamente só com seu incensório no Templo.
Quando Cristo morreu na cruz, Ele ministrou uma nova λειτουργία para as pessoas do mundo. Foi um ato litúrgico do qual ninguém participou dançando, atuando, lendo de um livro ou carregando algum utensílio. A verdadeira “participação ativa” foi feita pela Mãe de Deus, Santa Maria Madalena, pelas outras mulheres e pelo apóstolo João quando eles elevaram seus corações ao divino Mestre crucificado na cruz. Eles dolorosamente e silenciosamente receberam o sangue λειτουργία de Cristo para a salvação deles.
Já é chegada a hora de nós entendermos a liturgia como algo sacerdotal e que é feito por Cristo para o Seu povo. O cardeal Sarah resumiu bem isso recentemente com as seguintes palavras:
“A Liturgia trata-se de Deus e Sua obra para Seu povo. Quem quer que diga que devemos celebrar a nós mesmos na liturgia está corrompendo a liturgia bíblica. A Liturgia como uma “obra do povo” é um Pelagianismo litúrgico, a heresia que afirmava que o homem pode naturalmente trabalhar para sua salvação.”
Por Dr. Taylor Marshall.”
















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