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MALES QUE VÊM PRA BEM

17 de nov. de 2021
2 min de leitura

“Ser ou não ser — eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma Pedradas e flechadas do destino feroz Ou pegar em armas contra o mar de angústias — E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; Só isso. E com o sono — dizem — extinguir Dores do coração e as mil mazelas naturais A que a carne é sujeita; eis uma consumação Ardentemente desejável. Morrer — dormir — Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte Quando tivermos escapado ao tumulto vital Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão Que dá à desventura uma vida tão longa. Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, A prepotência do mando, e o achincalhe Que o mérito paciente recebe dos inúteis, Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos, Gemendo e suando numa vida servil, Senão porque o terror de alguma coisa após a morte — O país não descoberto, de cujos confins Jamais voltou nenhum viajante — nos confunde a vontade, Nos faz preferir e suportar os males que já temos, A fugirmos pra outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós covardes. E assim o matiz natural da decisão Se transforma no doentio pálido do pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, Refletidas demais, saem de seu caminho, Perdem o nome de ação.” (Shakespeare, Hamlet, cena III, ato I, trad. de Millôr Fernandes)

*

Neste célebre monólogo de Hamlet — que começa com a mais grave de todas as perguntas: ser ou não ser? —, o poeta relaciona alguns males que fazem da vida humana um fardo muito pesado: as setas do destino, o mar das angústias, a ofensa dos opressores, o abuso dos poderosos, o desprezo dos soberbos, a morosidade da justiça humana, as humilhações da paixão amorosa, a desvalorização do mérito pessoal.

Por que suportar tanto peso, pergunta-se Hamlet, se um simples punhal poderia dar cabo de uma vida tão servil? Diante de tantos problemas, Hamlet pensou em suicídio (adiado pelo medo do que pudesse advir com a morte). Outros poderiam buscar soluções diferentes, como o hedonismo, o paraíso artificial do álcool e das drogas, a utopia socialista. Todas essas possibilidades de ação ainda estão bem vivas, perfeitamente na ordem do dia, quando a meta é enfrentar a pavorosa hidra da condição humana.

Algumas dessas soluções já eram propostas pelo mundo pagão. Quanto ao socialismo, parece ser produto de uma espécie de enlouquecimento das virtudes cristãs, como pensava Chesterton; uma leitura distorcida dos Evangelhos.

Na verdade, o cristianismo lança uma nova e permanente luz sobre a questão. Os males, que tanto afligiam Hamlet, e cuja lista Shakespeare não esgotou, já não são obstáculos completamente negativos; a infelicidade ou aflição que provocam agora têm um sentido, cooperando na purificação espiritual e a salvação da alma.

Perto da possível e futura bem-aventurança, para a qual tais males inegavelmente contribuem, se sofridos com a devida paciência cristã, não passam de um insignificante pedágio, uma desprezível moeda de troca — por mais que, em sua incômoda vigência, possam ferir as humanas criaturas.

 
 
 

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