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MARVADA PINGA


A vida rural nunca foi um paraíso: o roceiro não era um ser isento do pecado original. Estava a milhas de distância do inconvincente bom selvagem de Rousseau, que teria nascido puro, mas foi depois corrompido pelas estruturas sociais. No entanto, as virtudes que em geral possuía — exigidas no duro e direto embate com a natureza e mantidas com a ajuda da moral cristã — eram seriamente ameaçadas quando esse homem rústico se transplantava para grandes centros urbanos.

Esse transplante foi intenso nos anos quarenta e cinquenta: nesse período, pelo menos metade da cidade de São Paulo era proveniente do interior e da roça, e muitas dessas pessoas não terão vivido sempre felizes com a transformação que suas vidas tiveram.

A música regional paulista, dita caipira, de certo modo documentou alguns aspectos do êxodo rural, ora fazendo rir, ora fazendo chorar. Era dirigida, em boa parte, a esses autoexilados das grandes cidades, menos ou mais deslocados, visando alimentar a saudade da terrinha, ao mesmo tempo que deixava mais rica a indústria do disco (precioso filão que foi astutamente explorado pelo radialista Cornélio Pires, ainda nos anos vinte do século passado).

Mas não foi só o negócio fonográfico que saiu ganhando com a migração em massa do homem do interior: também a indústria e comércio de bebidas lucraram muito. Uma das consequências daquele desenraizamento foi, certamente, a grande sedução dos tragos, então disponíveis na cidade grande com uma gama de sabores e efeitos até então desconhecidos pelo roceiro inadaptado, que buscava na bebida alguma compensação para a diferença que ele descobria existir entre o feijão e o sonho (ele que, até então, só conhecia o gosto da cachaça ou, no máximo, da cerveja).

As modas-de-viola, entre outros assuntos, também falaram sobre isto. O compositor Adauto Ezequiel, que usava o pseudônimo de Carreirinho em suas duplas e fez muito sucesso a partir dos anos cinquenta, escreveu mais de uma vez sobre cachaça, cachaceiros e algumas consequências desse vício.

Na moda-de-viola “Meus parentes”, por exemplo, aparecem as bebidas urbanas mais comuns à época: “A cerveja é minha prima, /O vinho é meu primo-irmão, /A cachaça é minha tia, /O meu tio é o conhaque alcatrão. /O meu pai é o danado do chope, /Nunca pode faltar na função. /Se eles não estiver numa festa /Não tem graça nem animação! /Os meus parentes são mesmo danados, /Pra deixar fandango bom”.

Observe-se como são tratadas com afeto e familiaridade. Em geral, a pinga é a bebida predominante nas modas que tratam do assunto, mas aqui é só mais uma entre outras bebidas, curiosamente “convidadas” a uma festa de cateretê, dança tradicional e roceira — inusitada simbiose que reflete, de certo modo, o momento em que se dava o encontro das duas culturas: a urbana, cheia de opções, e a rural, mais austera. E a primeira já seduzindo a segunda com a sua riqueza de gostos e efeitos.

Naquelas comparações de Carreirinho, as bebidas são vistas como parentes e membros de uma família, ou seja, do que havia de mais próximo e concreto para o homem da roça e das pequenas cidades. No imaginário do poeta e de seu público, a verdadeira pátria era a família e os principais pontos de referência de um indivíduo, na comunidade, eram os parentes. Não é possível pensar na vida roceira desligada do grupo familiar, responsável por conservar os princípios morais herdados de dois mil anos de cristianismo.

E foi em nome dessa mesma moral cristã, preservada principalmente pela instituição familiar, que o mesmo compositor, noutra moda-de-viola, vinha risonhamente admoestar os que cruzavam a linha vermelha da bebida alcoólica. É o caso de “Os quatro espíritos da pinga”. Depois do autor confessar que também bebe “um pouquinho/ Pra dar mais inspiração”, passa a recriminar o beberrão, classificando-o em quatro tipos ou “espíritos”: “espírito do pavão”, caracterizando aquele que bebe para aparecer (“Vira em volta, empola o peito/ E é metido a bonitão”); “espírito do macaco”, o que faz palhaçadas no estado de bebedeira (“Se mete a provocar riso/ Em qualquer repartição”; “espírito do leão”, que se torna valente por causa da bebida (“Só serve pra estragar festa/ E arranjar confusão); e o “espírito de porco”, o “bebum” completo, que bebe até cair (“Dorme até numa sarjeta/ Sonha que está num colchão”). O porco – animal ao mesmo tempo desprezível e fundamental na dieta do caipira – representa o tipo extremado do cachaceiro, aquele que se entrega absolutamente ao vício e “rola no chiqueirão,/ Perde toda a moral/ E sua reputação”.

Nosso poeta é, aqui, porta-voz da moral conservadora, que impunha limites e moderação no consumo de bebidas, ao mesmo tempo que explora a comicidade da bebedeira. Carreirinho corrige rindo, utilizando o método multissecular que sempre funcionou na educação dos povos, o ridendo castigat mores dos latinos (correção dos costumes pela ridicularização do erro).

Os colegas de ofício desse compositor também pensavam e escreviam da mesma forma (vejam-se as letras de Raul Torres, Serrinha, Teddy Vieira, entre outros). A atitude desses poetas populares para com a bebida era sempre ambígua, enaltecendo-a e logo adiante censurando-a; ora destacando-se o seu papel importante na festa e na música (“Já veio a pinga/ Tudo ali bebeu/ O meu peito velho/ Já desenvolveu”); ora apontando o lado negativo do álcool (“Tem uns que sabe beber, /Tem muita gente que não”).

É uma indecisão que, de algum modo, exprime a própria consciência dilacerada do caipira deslocado, ainda preso às velhas normais morais que condenam os vícios e as paixões desordenadas, mas já solicitado para novas aventuras e desventuras urbanas que inevitavelmente o debilitariam moralmente. Foi o que ocorreu, sobretudo a partir dos anos sessenta, quando o cristianismo começou a silenciar sobre a vida eterna e exigir menos rigor no combate espiritual.

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