MEDITAÇÃO DE FINADOS

[Se os mortos estão enterrados no coração dos seus, qualquer dia pode ser Dia de Finados. Qualquer hora, qualquer momento poderia sê-lo. Depois do nosso sepultamento, quando já estivermos na Pátria definitiva, ainda um resto há de ficar de nós, por aqui, nas lembranças dos que ficaram: alguém se lembrará da nossa voz, nosso semblante, nossos tiques, nossas manias, alguma palavra dita, algum fato marcante etc. E isto até que cheguemos, definitivamente, ao fim. Nesse aspecto, ninguém morre de repente: partimos pouco a pouco, em lenta viagem, até que o tempo, por fim, jogue sem dó a derradeira pá de cal no que sobrou de nós na memória de nossos entes queridos (ou nossos desafetos), que permanecerem no mundo depois de nós].
Nossos mortos são enterrados Em nosso próprio coração? Se assim for, qualquer dia então Pode ser Dia de Finados…
De fato. Após o passamento, Algo de nós há de ficar, Como lembrança solta no ar, Zanzando etéreo pelo vento.
Alguém, quando estiver a sós, Vai se lembrar de nossa voz, De nossa escoliose lombar, Até chegarmos lentamente, Definitivamente, Ao térreo fim de todos nós.
Não há quem morra de repente. De entre as coisas do mundo impermanente, Parte-se pouco a pouco, em lenta viagem, Até o tempo, por fim, jogar sem dó A derradeira pá de cal na imagem Que sobrou da alma após o pó.
















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