NESTE DEGREDO ONDE TUDO É CÁRCERE – III

[História da passagem do padre paulistano Bento José Pereira pela cidade paulista de Batatais, há duzentos anos, e as encrencas que arranjou com dois fazendeiros do lugar. O capítulo anterior pode ser lido aqui.].
UM SACERDOTE APRENDIZ DE SERTÃO. Padre Bento não podia negar que o povoado do Bom Jesus da Cana Verde tivesse um clima agradável, nem que fosse um lugar privilegiadamente arejado; afinal, situava-se a quase mil metros acima do Atlântico.
O problema não era o vento, mas o que ele trazia quando generosamente soprava. Como a terra era intensamente vermelha — terra que algumas décadas mais tarde os imigrantes italianos chamariam de terra rossa, e o caipira paulista, que não lia Dante, logo substituiria por terra roxa —, bastava soprar o vento, sobretudo na seca rigorosamente seca da região, para a rubra e fina poeira recobrir, com sua cor, os desajeitados casebres do vilarejo, com tudo o que dentro deles houvesse, pois eram sempre insuficientemente fechados.
A vermelhidão impregnava-se como tinta pelos poros, de modo a não haver sabão, por mais poderosos que fossem os sabões caseiros da época, que pudesse lavar por fora um cristão e desencardi-lo (embora ainda fosse mais fácil do que limpá-los por dentro, na alma, com o sabão dos sacramentos).
Não só os corpos humanos tinham aquela dura sina. Dentro da pequena igreja, tudo andava penetrado da cor vermelha, da caiação das paredes ao altar-mor. Uma toalha, uma vez utilizada, dificilmente poderia servir de novo. E isso sem falar do chão batido, onde os fiéis se ajoelhavam e se sentavam durante a Missa, pois naquela época as igrejas não tinham bancos nem genuflexórios.
É certo que, algumas décadas mais tarde, com a chegada dos cafezais, a “terra roxa” ganharia merecida fama de solo fértil. Uma coisa, porém, era a relação de um pé de café com o solo avermelhado, e outra, muito diferente, a das sinhás e suas escravas, que tinham de manter limpas as casas de chão batido, ainda sem assoalho de madeira, cercadas dessa terra por todos os lados.
Com todos esses inconvenientes, que as pessoas daquele tempo suportavam bem melhor que as de hoje, padre Bento ia fazendo o que podia como administrador de paróquia e ministro de sacramentos, o que significava muitas vezes percorrer léguas e léguas para uma extrema-unção ou um batismo. Decidiu, no entanto, também incumbir-se informalmente, sem nenhuma remuneração da Corte, do ensino das primeiras letras às crianças e jovens, pois não havia no lugar quem se ocupasse dessas tarefas (coisa que seu antecessor não podia fazer, pois dividia o tempo de padre com ocupações de fazendeiro).
Nas primeiras semanas, cuidou ele de conhecer os “fregueses” (assim eram chamados os paroquianos), a começar dos que moravam no arraial, depois os das fazendas mais próximas, para em seguida, na medida do possível, o restante das almas a ele confiadas, pois era na roça que vivia a maior parte do rebanho cristão a ele confiado.
Quem vivia nas casas ao redor da capela era uma pequena minoria de pessoas que prestava alguns serviços à maioria arranchada pelas roças — serviços que tornavam menos difícil a vida na freguesia: gente como o ferreiro Timóteo com sua fornalha, bigorna e martelos; o português Rebelo, hábil no manuseio da tesoura e das agulhas de alfaiate; o carpinteiro Manuel, especialista em cangas, o seleiro Constâncio, que fazia de tudo o que pudesse sair do couro de boi: de cintos e botas, até cangalhas e bruacas (malas de fundamental importância numa época que não tinha carretas, e eram as bestas que levavam cargas à fazenda mais próxima ou à vila mais distante).
Um dos moradores do povoado, o mestiço Firmino, que morava numa das chácaras retiradas e era pau para qualquer obra (um jornaleiro, como se dizia então), logo despertou a atenção do padre por trazer no pescoço, bem à mostra, em comum acordo, um rosário mariano e um amuleto feito com dente de lobo.
— O rosário eu sei para que serve, Firmino. E esse dente de lobo? — provocou-lhe um dia o padre, depois de uns ajustes que o homem fez no telhado da igreja para tirar as goteiras.
— Desvia a má sorte, seu vigário.
Era com gente assim que o homem de Deus teria de lidar a cada momento. Aos poucos, viu como Firmino não era um caso isolado: as fronteiras do natural com o sobrenatural ainda estavam muito mal demarcadas, naquele sertão do Rio Pardo. Na maioria das vezes, os fiéis confundiam religião com magia, sem conseguir separar crendices pagãs das devoções da Igreja, e a eles seria necessário repetir sempre, de novo, as verdades da fé, o sentido dos sacramentos e da missa, a razão de ser das imagens católicas, a inutilidade das simpatias e superstições.
[Continua aqui].
















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