NESTE DEGREDO ONDE TUDO É CÁRCERE – IV

[História da passagem do padre paulistano Bento José Pereira pela cidade paulista de Batatais, há duzentos anos, e as encrencas que arranjou com dois fazendeiros do lugar. O capítulo anterior pode ser lido aqui].
UM MANUEL BOM DE CONVERSA. Por mais que pesasse no ânimo de padre Bento o grau de superstição daquela gente, fossem escravos ou não-escravos — e tudo isto bem somado ao aspecto deplorável dos casebres e aos efeitos da terra vermelha na superfície das coisas, além do que nas coisas verdadeiramente entranhava —, havia ainda algo de mais preocupante naquele lugarejo: um problema moral, talvez delituoso, diretamente ligado à construção da pequena matriz e que o bispo lhe encarregara de tirar a limpo.
Um padre, naquela época, antes da cisão republicana entre Estado e Igreja, era ao mesmo tempo um administrador a serviço da corte portuguesa e um diretor moral de comunidades, um pastor de almas a serviço de outro reino — o de Deus. Enquanto servidor de Dom João VI e do bem comum, o padre tinha responsabilidades de natureza mais imediata e prática, além das propriamente espirituais, mas, no fundo, as duas ordens de coisas acabavam por se misturar.
Era das paróquias, então ditas freguesias, que em geral nasciam os povoados. As pessoas que neles viviam, antes de ser “cidadãos”, eram “fregueses”, que em dia mais remoto já foram “filigreses” e, muito antes, “filius ecclesiae”. Pois não é outra a etimologia de freguês: filho da Igreja. Eram os paroquianos primeiramente filhos da Madre Igreja, antes de serem súditos do reino lusitano.
Os padres, portanto, se quisessem ser fiéis à própria natureza, tinham de ser verdadeiros pais, e muitos deles de fato o foram. Padre Bento, a serviço da Igreja-mãe, não tinha cavalgado quinze dias em lombo de mula, no Caminho de Goiás, apenas para uma viagem de turismo colonial: veio, na verdade, para botar ordem naquela nascente povoação de cristãos católicos, já tentados a iniciar com pé esquerdo o seu destino de cidade.
Vamos aos fatos. Esse início de caminhada urbana já tinha mais de uma década, pelo menos desde 1810, quando vários homens influentes do lugar — entre eles, os fazendeiros Manuel Bernardes do Nascimento e o Alferes José Dias — decidiram levar a cabo um plano que já andava pela cabeça de muita gente: criar-se uma freguesia própria naquelas paragens entre o rio Pardo e o Sapucaí, e ali começar um novo arraial, desmembrado da freguesia de Franca.
Para isto, o primeiro passo era levantar uma capela, pois nenhuma havia naquelas cercanias. De pronto, Manuel Bernardes se candidatou a ceder à Igreja, como era usual, alguns alqueires para a nova freguesia, em terreno entre sua fazenda e a fazenda da Prata, com a qual suas terras confrontavam, pertencente a uma viúva, dona Elena Martins.
Ele agia como sério candidato a liderança política da futura vila. Como não se erguia igreja sem um santo à qual fosse dedicada, providenciou-se um padroeiro. Ele mesmo, o convincente Manuel Bernardes, mineiro bom de conversa, conseguiu impor o orago da futura matriz: Senhor Bom Jesus da Cana Verde, muito cultuado na região de Minas de onde ele viera e de quem dona Liberata, sua primeira mulher, era grande devota.
Manuel Bernardes partiu logo para a ação. Numa única noite, de afogadilho, seus escravos — com a ajuda dos escravos do Alferes José Dias — enfiaram os pesados esteios de aroeira da pequena capela e a cobriram de capim, fato que sem dúvida revelava a sua grande habilidade como diretor de obras. Outros atributos do velho Manuel Bernardes se revelariam, porém, naquela distante noite do passado: uma inegável esperteza aliada a não menor ousadia, pois a capela tinha sido erguida, nada mais, nada menos, num canto devoluto de terras que não eram suas: a vizinha fazenda da Prata, de dona Elena Martins.
O marido de dona Elena, finado Manuel Guimarães, já não estava mais vivo para reclamar e impor respeito; e não seriam os rapazotes do casal que o fariam. Além do mais, apostava Manuel Bernardes que, uma vez lá instalada, era quase certo que de lá não sairia, pois conhecia bem a natureza religiosa da viúva: ela não teria coragem de mandar os filhos deitar por terra uma casa de oração, já com um cruzeiro ao lado e uma imagem do Bom Jesus ao fundo.
O velho Bernardes ganhou a aposta: tudo se ajeitou como ele previra. Quando, em 1815, Dom João VI assinou o Alvará Régio criando a freguesia, já fazia mais de um ano que lá estava a pequena e improvisada capela, com suas paredes mal barreadas e caiadas. O Bispo Dom Mateus confirmou o culto ao Bom Jesus, em respeito a uma devoção que presumia existente no lugar.
















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