NOSSOS NETOS VOLTARÃO A CAMINHAR – David Macaire (Bispo de Fort-de-France, Martinica)

Monsenhor David Macaire, arcebispo de Saint-Pierre et Fort-de-France (Martinica, França)
Todo o mundo diz que estamos testemunhando uma mudança de época. O lado trágico da história voltou. Ele parecia ter desaparecido definitivamente da vida humana, mas essa pax moderna era apenas uma ilusão, baseada em fantasias. O que está se desenrolando, diante de nossos olhos, não é o fim da paz nem o retorno da tragédia, mas a dissipação da cortina de fumaça construída pela ideologia imperialista ocidental que governou o mundo após a Segunda Guerra Mundial. Um mundo em que o progresso tecnológico, o comércio e a democracia liberal deviam garantir sossego, tranquilidade e prazer…
As crianças mimadas que fizeram o movimento de Maio de 68 governaram o mundo por 50 anos (incluindo o clero e a Igreja). Sob o pretexto de que os antigos fizeram duas guerras mundiais e toda espécie de abominação, eles se deram o direito de julgar e condenar sua herança.
Mas eles realizaram algo melhor? Detentores de um poder desproporcional sobre a sociedade, sobre as mentes e sobre o meio ambiente, eles levaram ao limite sua concepção de liberdade: licenciosidade política, licenciosidade moral, liberalismo econômico… Prometeram um mundo que se realizou graças ao “vale tudo” (como no baile de máscaras do grupo musical La Compagnie Créole!). Conseguiram transformar a sociedade num imenso e permanente vazio: tanto no Carnaval como no Natal; tanto no meio da Quaresma como na Páscoa; na época de corrida de veleiros ou no início do ano letivo; tanto nos meios de comunicação como nos funerais, e até mesmo na Missa. Tudo é uma agitação sem fim.
O mundo (na verdade, “o Ocidente”) acredita-se mais rico, mais livre e com mais conhecimentos que nunca. Isso não é totalmente falso, mas, apesar de seu declarado remorso, está mais imperialista do que nunca. No entanto, longe de gerar os prometidos tempos felizes, pacíficos e prósperos, a ideologia dominante produziu desespero, desilusão, desperdício, divisões, drogas, violência, libertinagem, suicídios, angústia, sentimento de maldição… Definitivamente, uma grande farsa!
A felicidade e a alegria de viver não estão na agenda dos netos da geração que tinha 20 anos em 1968. Isto é particularmente verdade aqui nas Antilhas: durante 50 anos se construíram cidades, estradas, instalações, áreas de lazer e consumo para todos. Apesar disso, o país está se esvaziando. Mesmo os jovens bem-sucedidos estão em geral constantemente preocupados com seus empregos, suas casas, seus parceiros, seus filhos (quando têm tudo isso!) e sentem a fragilidade desses supostos elementos de felicidade.
Há alguns meses que a fumaça se vem dissipando. O vírus Covid-19, a guerra na Ucrânia e as sucessivas crises esbofetearam os ídolos feitos pela mão do homem. Tudo terminou em “vaidade e aflição de espírito” (Eclesiastes 1,14). As obras da mente humana, quando não temem a Deus, tornam-se mestres terríveis. Ao prescindir do Bom Deus, de seus servos, de sua liturgia e até de seu Nome, nossa sociedade — baseada no humanismo, na ciência, na política e na economia — se extraviou. Longe de libertar o homem, ela o cegou, escravizou e enfeitiçou.
Vi um vídeo no YouTube em que um homem dizia: “Meu avô caminhava 16 Km, meu pai 8 km, eu dirijo um Cadillac, meu filho uma Mercedes e meu neto vai dirigir uma Ferrari… Porém meu bisneto voltará a caminhar”.
“Porém meu bisneto voltará a caminhar…” Por quê? Porque tempos difíceis fazem homens fortes, homens fortes fazem tempos fáceis, tempos fáceis fazem homens frágeis e homens frágeis fazem tempos difíceis.
Creio que os tempos difíceis voltaram… De certa forma, esta é até uma boa notícia: nossos netos voltarão a caminhar, serão mais pobres, mas serão mais dignos que seus pais!
















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