top of page

[O ABSURDO DA MORTE NA CONSCIÊNCIA MODERNA] – PADRE CORNELIO FABRO

14 de fev. de 2022
3 min de leitura

[O padre italiano Cornelio Fabro, nascido em 1911 e falecido em 1995, é um dos maiores filósofos tomistas do século XX. É autor de vasta obra filosófica e teológica, redigida na simplicidade da paróquia romana de Santa Croce, na via Flamínia. Foi o primeiro a denunciar e estudar em profundidade a “reviravolta antropológica” de Karl Rahner].

Georg Büchner, irmão do filósofo ateu e materialista Ludwig Büchner, no drama A morte de Danton, na cena da Conciergerie [antiga prisão de Paris], antecipou essa experiência lúcida do nada que tão bem caracteriza a consciência contemporânea:

Philippeau — Então o que é que você quer?

Danton — Paz!

Philippeau — Mas isto só Deus.

Danton — No Nada. Existe algo mais tranquilo em que você possa mergulhar do que o Nada? E se Deus é a paz suprema, não será Deus o Nada? Mas eu sou ateu. Ah esse maldito princípio, segundo o qual nada pode voltar ao Nada! E eu sou alguma coisa: eis a desgraça! A criação se expandiu assim: já não havia o vazio e tudo era um enxame fervilhante. O Nada se suicidou, a criação é sua ferida, nós somos suas gotas de sangue, o mundo é o sepulcro em ele (o Nada) apodrece. Parece loucura, mas é a pura verdade.

Camilla — O mundo é o judeu errante, o Nada é a morte, mas isso é impossível. Oh, não poder morrer, não poder morrer, como diz uma velha canção!

Danton — Estamos todos enterrados vivos, empilhados um ao lado do outro, uns em cima dos outros. Não há esperança alguma na morte. A única diferença é que a vida é mais fácil para uns e mais complicada para outros. É a mais organizada das putrefações. Mas já me acostumei com essa podridão.

(…) Mas que mensagem a Igreja trará então, que horizonte a teologia poderá oferecer para a salvação do homem moderno? A liberdade autêntica, radical e constitutiva da mensagem cristã.

Uma exigência de liberdade cristã radical é a agostiniano-tomista que se refere ao eu diante de Deus e de Cristo Salvador. Um apelo à liberdade cristã é o de Pascal, Kierkegaard, Newman, Dostoievski, Guardini, fundada na consciência da precariedade da existência, da aspiração infinita e pungente de repousar no cobiçado golfo da paz além do rio do tempo: imanência tética, emergente, elevando-se à união com o Pai que está no céu.

Na filosofia moderna, ao contrário, o ego se realiza através do “frenesi báquico” da negação (Hegel): assim, o eu funcional dissolve o eu real, a ciência com a tecnologia e a política com a economia estão dissolvendo a pessoa como sujeito moral em um mundo sem sentido, que se tornou um ninho de víboras, uma explosão — para o indivíduo, para a sociedade, para os Estados — de tensões e conflitos inextricáveis. Assim, a imanência, esvaziada da consciência, se subverte na transcendência vazia que é o ser como algo referente ao mundo, isto é, ser no mundo, o que é próprio tanto de Marx quanto de Heidegger e Sartre, Marcuse e Bloch.

Isso talvez explique também a crescente irrupção do absurdo da morte na consciência moderna e sua disseminação corrosiva na vida contemporânea: não da morte que é o adeus aos entes queridos e a crescimento da esperança, mas sim da morte que é o casamento trágico com o nada, do qual a insignificância do tempo é a matriz e o vazio da alma o hóspede invasor.

(Cornelio Fabro. L’avventura dela teologia progressista. Milano, Rusconi Editore, 1974)

 
 
 

Posts Relacionados

Ver tudo

Comentários


CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis