O BISPO APÓSTATA – Juan Manuel de Prada

Acabo de ler um romance magnífico que, com certeza, não será celebrado nas mídias onde se elogiam as bobagens reinantes. Chama-se Marta, Marta (Ediciones de La Discreta) e foi escrito por Enrique Álvarez, um dos poucos escritores espanhóis em atividade que ainda se atrevem a abordar questões de natureza espiritual em seus romances. O gatilho para a ação de Marta, Marta, ambientado na cidade de Santander em plena agonia do século XX, não poderia ser mais sugestivo: o bispo da diocese anuncia inesperadamente que está deixando seu ministério, convencido de que Deus não existe. A partir dessa premissa perturbadora, Álvarez tece uma trama coral na qual volta a mostrar-se como um talentoso perscrutador de almas.
O título deste atraente romance teológico, escrito em clave realista, alude à gentil repreensão que Jesus lança à irmã “atarefada” de Lázaro (Lc 10,41-42). De certa forma, pode-se afirmar que Enrique Álvarez também lança esta branda recriminação à Igreja de nosso tempo; embora, é claro, não o faça à maneira de um apologista, mas como romancista, que entende que o mistério humano é marcado pelo drama.
Assim, por exemplo, o bispo apóstata não é retratado como um homem pérfido ou depravado, mas como alguém respeitado e de fama irrepreensível, que não deseja mais participar de uma pantomima. E em torno de sua apostasia se desenrola uma intriga humana emocionante, que não se perde em maniqueísmos grotescos, mas ilustra as dificuldades que a fé enfrenta em nosso tempo. “Diríamos — reflete um dos personagens do romance — que a fé cristã precisa de outro habitat. Um mundo menor e mais simples, um mundo antigo que já não existe.” Com efeito, a fé em nosso tempo é forçada a sobreviver em um habitat hostil, como aconteceu com Dom Quixote em seu objetivo de restaurar a cavalaria errante; todos os personagens de Marta, Marta tem, no fundo, algo de quixotes em conflito com seu tempo.
Entre as personagens de Marta, Marta, clérigos ou leigos, há duas que se destacam especialmente, delineadas com admirável delicadeza e nuance psicológica. Uma delas é Marta Barturen, uma freira progressista e experiente, dedicada ao trabalho de caridade, que acaba desnudando de forma exemplar a sua verdade mais íntima. O outro é Julián Bedia, vigário de Santander (eu poderia jurar que o autor se inspirou em Osoro, atual arcebispo de Madri), um padre conservador e virtuoso, embora prejudicado por uma certa tentação ‘carreirista’, em quem a apostasia de seu bispo provocou uma purificação íntima que o forçará a abandonar a sua superficialidade mainstream.
Marta, Marta, em suma, é um romance que revela um conhecimento muito sutil da natureza humana e das misteriosas estratégias que Deus desenvolve para permanecer presente nas almas dos homens, em meio a um mundo que parece ter dado as costas a Ele. Asseguro às três ou quatro leitoras que ainda me suportam, sejam elas ateias, crentes ou meio-cá-meio-lá, que a leitura dessa obra não as deixará indiferentes.
















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