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O CONSERVADORISMO NÃO É SÓ UM PROJETO POLÍTICO

27 de abr. de 2022
2 min de leitura

O filosofo católico francês Pierre Manent, em seu comentário ao recente resultado eleitoral de seu país, que reconduziu Macron ao poder, observou que “o segundo turno reuniu um titular que não corria risco de perder a eleição e um candidato que não tinha chance de ganhá-la”.

Por que Macron não corria risco de perder a eleição? Segundo ele, por representar a classe social que domina o Estado francês, beneficiária de uma educação de qualidade que não está mais disponível às novas gerações. Uma classe que, mesmo tendo contribuído bastante, com seus talentos, para a vida nacional, “testemunhou com uma indiferença difícil de compreender a liquidação de grande parte do aparato industrial francês, a deterioração da sociabilidade, o colapso do nível de estudos, a depreciação da língua francesa”.

Por que Marine Le Pen não tinha chance de ganhar? Na análise do filósofo, ex-aluno de Raymond Aron, a candidata representa “o protesto impotente contra a impotência política em que a República está afundando.”

Acredita que a direita nunca chegará ao poder, por não constituir uma verdadeira força política. E explica o que significa ser uma verdadeira força política:

“Durante trinta anos, o movimento da ‘direita nacional’ foi incapaz de criar o menor sindicato, a menor rede social, a menor editora, de adquirir a menor base de influência ou prestígio social, seja na mídia ou nas universidades… O partido que pretende chegar ao cume do poder é incapaz de fazer com que aqueles que votam nele se declarem a favor. Pelo contrário, qualquer um que tenha a menor posição na sociedade se apressa a declarar que deseja absolutamente ‘obstruí-lo’. O partido RN (Rassemblement national, “reunião nacional”) quer acreditar que está dizendo em voz alta o que os franceses pensam baixinho. Durante o debate do segundo turno, a própria Marine Le Pen não disse em voz alta o que pensava – talvez tenha dito em voz baixa…”

*

Que lições tirar de tudo isto para o Brasil, cuja incipiente direita inesperadamente conseguiu ganhar as eleições presidenciais, há alguns anos?

Sem a criação de uma verdadeira cultura conservadora no país — presente nas instituições sociais e culturais —, dificilmente a direita brasileira será uma opção viva e permanente para a alternância do jogo democrático. Terá vida curta o projeto dos atuais direitistas, se não se preocuparem com os fundamentos culturais e espirituais do conservadorismo. A direita não é só um projeto político e econômico, mas uma recusa veemente do niilismo pós-moderno.

Foi este um dos motes prediletos do recém-falecido filosofo Olavo de Carvalho, cujas análises sempre apontavam para uma estreita relação entre a ascensão das esquerdas e a decadência da cultura mais elevada. Percebeu, também, que entre as principais causas dessa crise cultural, estavam duas outras “decadências”: a do catolicismo e a do ensino da língua portuguesa.

A reconstrução, portanto, já tem um roteiro.

 
 
 

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