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O CRUCIFIXO (A cabeça vista da direita) – Paul Claudel

6 de ago. de 2018
1 min de leitura

De todo o corpo crucificado só a cabeça permanece flexível. Os espinhos com que se teve o cuidado de cercá-lo tornam-lhe qualquer apoio impossível. Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas contemplamos a face divina. É natural que tombe por fim, pois que sua força declina. Eis chegado o momento por nós pacientemente esperado: Podemos encarar o Cristo, que não nos vê seu olhar imobilizado. Ei-lo no alto da cruz, tal como capitulou, tal como será. Por mais que façamos de agora em diante, sabemos que não mudará. Já não ergue a cabeça, permanece na transfixão de seus pés e na extensão definitiva de seus braços. Não mudará nunca mais essa espécie de parcialidade. Por mais que façamos, não volverá a outro canto a cabeça para o nosso voltada. Ele medita (sabia tudo com antecedência) e suporta os quatro pregos para me esperar. É tão fácil perceber que não está em condições de se libertar. A morte que há em mim, e o amor que há nele não fazem mais que uma coisa só. Sua inocência é meu pecado — há entre nós isso de vital, como um nó. Se ele é o meu Redentor, onde se passaria isto, caso eu não tivesse pecado? Os pregos doeriam menos ao corpo se eu próprio fosse menos culpado. Firme é a cruz, mas como é de chumbo, com ela, o que pelo peso e pelo desejo se liga ao meu ser, Tudo o que há nele de pesado tacitamente é meu, como um fruto que cumpre apenas recolher.

(Trad. de Carlos Drummond de Andrade)


 
 
 

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