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O CRÍTICO FRANKLIN DE OLIVEIRA

6 de jun. de 2022
3 min de leitura

A esquerda, hoje, predomina no jornalismo, no mundo da cultura e na universidade; e não admite concorrência. Jamais dialoga com o outro lado, pois seu projeto não tem a ver com ideias, mas com poder. Vai longe a época em que um crítico de esquerda, como Franklin de Oliveira, podia dedicar um livro de ensaios, como Viola d’Amore, a um amigo de direita, o romancista Adonias Filho, que era favorável à ditadura militar. Assim dizia a dedicatória: “A A. F., antiga e fraternal amizade, vinda das mesmas preocupações literárias, consolidada na defesa dos valores da Cultura e da Dignidade Humana, cuja frente de luta a diversidade das nossas posições ideológicas não restringe, antes amplia, pelo dever que nos anima de proteger a Inteligência.”

Quem foi Franklin de Oliveira? Nascido no Maranhão, em 1916, desde cedo interessou-se por música e literatura. Aprendeu teoria musical e violino, que tocava nas reuniões domésticas (todos, na família, sabiam algum instrumento).

Quanto à literatura, lia tudo o que lhe chegava às mãos, ao mesmo tempo em que se iniciava no estudo de várias línguas, tendência de sua personalidade que, mais tarde, o ligaria por estreita amizade ao poliglota Guimarães Rosa, cuja obra acompanhou de muito perto e da qual se tornaria um dos principais intérpretes entre nós.

Franklin ingressou no jornalismo em seu próprio estado. Em 1938, mudou-se para o Rio de Janeiro. Nas décadas de quarenta e cinquenta, manteve uma famosa coluna, “Sete dias”, na revista O Cruzeiro. Trabalhou, depois, no legendário Correio da Manhã, até o fechamento do importante diário carioca em meados dos anos sessenta. Ali, alternava com Otto Maria Carpeaux uma coluna de crítica literária e outra de crítica musical (sobre a arte de Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, Debussy, e não a de Chico-Caetano-Gil).

Sem dispor de sinecura universitária, foi, talvez, o último grande crítico que usou exclusivamente o jornal como veículo para seus artigos e ensaios, que oscilavam entre o debate mais especializado de ideias e a divulgação da literatura junto ao público não especializado.

Fez, sempre, crítica ideológica: era marxista e considerava a literatura uma forma privilegiada de tomada de consciência da realidade. Mas o seu marxismo se juntava e, não raro, se confundia com a perspectiva hegeliana, que pressupunha a existência do “espírito de época”, manifestado nas diferentes modalidades da cultura — a política, a religião, a educação, as artes, os costumes etc. A descoberta desse “espírito”, segundo esse modo de ver, só se daria pelo estudo interligado das chamadas “ciências do espírito” (hoje rebaixadas a ciências sociais), pois seus resultados individuais não passariam de reconstituição parcial daquela figura maior, o Zeitgeist — espírito de cada tempo ou cada época.

O crítico Franklin de Oliveira, sabendo que os romances e poemas “representam” a vida em sua totalidade, aproximava-se dos livros e dos autores com o cuidado de não mutilá-los com abordagens unilaterais — formalistas, sociológicas, psicanalíticas —, procurando antes compreendê-los em seu esforço de assimilação de tudo o que é humano e está no mundo. Com o tempo, o marxista que havia nele foi radicalizando ainda mais esse método, adaptando-o às circunstâncias brasileiras, que segundo ele exigiam dos criadores e dos críticos uma posição mais empenhada na construção urgente daquilo que o Brasil ainda não tinha: uma civilização. Assim, a dimensão estética da literatura deveria, provisoriamente, ceder terreno à política.

Mesmo sem concordar com o crítico — e dele podemos discordar não poucas vezes —, é preciso relê-lo sempre. Uma voz inteligente não tem partido, mesmo quando ideologicamente empenhada, pois o seu verdadeiro partido é o do espírito, que sempre tem se beneficiado com a discordância e a diversidade de ideias.

Infelizmente, parece cada vez mais utópico o dia em que esquerdistas voltarão a ler direitistas, e vice-versa, do mesmo modo como o esquerdista Franklin de Oliveira e o direitista Adonias Filho um dia se leram e civilizadamente se falavam, sem mútuo cancelamento.

 
 
 

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