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O «Dom do Espírito Santo» na Tradicão iconográfica e litúrgica Bizantina

5 de abr. de 2018
3 min de leitura

Com freqüência nas liturgias orientais os textos se convertem em um comentário sobre os ciclos iconográficos das igrejas ou vice – versa, os ícones são a expressão visual deles . Nos anos setenta o iconógrafo padre Michel Berger, então oficial da Sagrada Congregação para as Igrejas Orientais , pintou a ábside da capela de São Benito no Pontifício Colégio Grego de Roma, a pedido do reitor, o Padre Olivier Raquez, inspirando- se nos afrescos da igreja grega de São Estêvão de Soleto em Otranto, que data de finais do século XIV. Na parte superior está representada, de maneira antropomórfica, a Santíssima Trindade na missio do Espírito Santo, representação que retoma a pneumatologia dos Padres Capadócios, especialmente de São Basílio. Ao lado aparecem dois anjos que, enquanto incensam , portam uma vela em cada mão e, abaixo, a Mãe de Deus que ora com os apóstolos no dia de Pentecostes.

Nas Matinas do ofício bizantino da Festa, dois textos parecem comentar o ícone : «Oh Espírito Santo, que procedes do Pai e por meio do Filho te fez presente nos iletrados discípulos, salva a quantos te reconhecem como Deus e santifica a todos», diz o primeiro. O segundo expressa o louvor : «Luz é o Pai, luz o Verbo, luz o Santo Espírito, que foi enviado sobre os apóstolos em línguas de fogo: graças a ele está iluminado o mundo inteiro para render culto a Santíssima Trindade. O dom do Espirito Santo é visto como o que dirige a Igreja e a todos os fiéis para louvar e confessar a Trindade.

Vários tropários do ofício contemplam à Mãe de Deus no mistério da Encarnação do Verbo de Deus, o qual após sua ascensão ao céu, sentado à destra do Pai, enviará à Igreja o dom do Espírito Santo: «Sem experimentar a corrupção concebeu e emprestou à carne ao Verbo, artífice do universo, oh Mãe que não conhece varão, oh Virgem Mãe de Deus, receptáculo daquele que não pode ser contido, morada de teu imenso creador: te glorificamos. É justo cantar para a Virgem que engendra; ela sozinha, de fato , levou, oculto em suas próprias entranhas, ao Verbo que cura a natureza enferma dos mortais, e que agora, sentado à destra paterna, enviou a graça do Espírito. Como pode se ver, o texto faz uso de uma audaz linguagem cristológica – ” emprestou -lhe a carne” – para falar da Encarnação.

Jesus promete o Espirito Santo aos discípulos e, por esta razão, alguns textos põem em relevo a estreita relação que há entre a Ascensão e o Pentecostes : «Disse a augusta e venerável boca: Não sofrereis por minha ausência, vós, meus amigos; de fato, sentado junto ao Pai no trono excelso, derramarei a generosa graça do Espírito, para que resplandeça sobre aqueles que a desejam. Lei imutável, o Verbo da verdade dá a paz aos corações: assim, levando a bom termo sua obra, alegra Cristo a seus amigos, outorgando o Espírito, como o tinha prometido, com vento impetuoso e línguas de fogo.

O Pentecostes é cantado como um momento salvífico em contraposição à dispersão de Babel: « O poder do Espírito divino, com seu advento compôs divinamente em uma única harmonia a língua que em um tempo se havia multiplicado nos que estavam unidos para um mal propósito; Ela instruiu os crentes na ciência da Trindade, pela qual fomos fortalecidos.

Finalmente, a Festa é celebrada como se de um momento batismal se tratasse. O dom do Espírito é, com efeito, iluminação para os apóstolos e para todos os cristãos : « Fez eloquentes aos analfabetos que com uma Só palavra fizeram calar os oráculos do erro e com o fulgor do Espírito subtrairam um número incontável de povos da profunda noite . É o eterno esplendor do imenso poder iluminador que procede da luz ingênita àquele que agora, através do Filho, da essência do Pai, com o rugir de fogo manifesta seu próprio esplendor conatural as gentes que estão reunidas em Sião . E o flanco transpassado de Cristo se converte em um batismo e em um dom do Espírito Santo: « Mesclando a palavra com o divino lavatório para a regeneração de minha natureza composta, tu o derramas sobre mim como um rio que transborda de teu imaculado flanco transpassado, oh Verbo de Deus, confirmando- o com o ardor do Espírito.

[Publicado por Manuel Nin em l’Osservatore Romano no dia 19 de Maio de 2013]

Tradução: David Nesta

 
 
 

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