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O ESCÂNDALO PROTESTANTE ( Prefácio, parte I)

10 de fev. de 2018
6 min de leitura

Segue a primeira tradução do prefácio de controvérsias de São Francisco de Sales, que seja proveitoso para todos.

[Espécies de Escândalo] A grande facilidade com que os homens se escandalizam foi, ao que parece, o motivo pelo qual Nosso Senhor disse: “é impossível não haver escândalos” (Lucas 17,1); ou, como diz São Mateus: “o escândalo é necessário” (Mateus 18,7); porque se os homens percebem seu mal a partir do próprio bem soberano, como seria possível não haver escândalos no mundo, onde existe tantos males?

Há três espécies de escândalos e as três são muito más em sua natureza, ainda que não de igual modo:

Há um escândalo que os nossos doutos teólogos denominam ‘ativo’: é uma ação má que dá ocasião para que outra pessoa aja mal; e a pessoa que provoca esse escândalo com razão é chamada de escandalosa.

Os outros dois modos de escândalo são chamados ‘passivos’; no entanto, uns são os ‘ab extrinseco’ e, outros, os ‘ab intrinseco’, porque entre as pessoas que são escandalosas, umas o são pelas más ações de outrem – e estas são as que recebem o escândalo ativo, colocando sua vontade em luta com os escandalosos – e outras o são por sua própria malícia, as quais não tendo motivo externo, os criam e forjam em seu próprio cérebro e se escandalizam elas próprias de um escândalo que é apenas fingido.

Quem escandaliza a outrem falta com a caridade que deve ao próximo; quem se escandaliza a si próprio falta com a caridade que deve a si mesmo; e quem é escandalizado por outrem carece de força e valor. O primeiro é escandaloso; o segundo, escandaloso e escandalizado; e o terceiro, escandalizado somente.

O primeiro escândalo é denominado ‘datum’, dado; o segundo, ‘acceptum’, aceito; e o terceiro, ‘receptum’, recebido.

O primeiro ultrapassa o terceiro em malícia. E o segundo, ultrapassa muito mais o primeiro, já que contém em si o primeiro e o terceiro; por ser, por sua vez, ativo e passivo; e porque degolar a si mesmo e se lançar [no precipício] é uma crueldade mais desnaturada que matar a outrem.

[O escândalo em relação a Cristo] Todas essas espécies de escândalo sobram no mundo. E não vemos nada ser tão enaltecido quanto o escândalo, que é a principal obra do diabo; sobre isso, dizia Nosso Senhor: “Infeliz o mundo por causa dos escândalos” (Mateus 18,7)

Porém, o escândalo tomado sem ocasião ocupa a primeira posição em todos os lugares, por ser o mais frequente, o mais perigoso e prejudicial; e é somente deste [escândalo] que Nosso Senhor é objeto por parte das almas que se entregam à iniquidade.

Explico-me: Nosso Senhor não pode ser escandaloso pois tudo Nele é soberanamente bom; nem escandalizável, por ser soberanamente poderoso. Como alguém poderia se escandalizar Nele, sendo Ele assim causa da ruína de muitos? Seria uma terrível blasfêmia atribuir o nosso mal à sua Divina Majestade, que “quer que cada um se salve e chegue ao conhecimento da verdade” (1Timóteo 2,4); que “não quer que ninguém pereça” (2Pedro 3,9). Nossa perdição, portanto, provém de nós mesmos e o nosso auxílio provém da Bondade Divina (cf. Oseias 13,9).

Com efeito, nem Nosso Senhor, nem a sua Santa Palavra podem nos escandalizar; mas nós nos escandalizamos a nós mesmos Nele, que é, neste ponto, a forma própria de se falar, pois foi isso que Ele mesmo nos ensinou quando disse: “Bem-aventurados os que não se escandalizam em Mim” (Mateus 11,6). E quando é dito que Ele foi colocado “para a ruína de muitos” (Lucas 2,34), devemos entender, de fato, que muitos se perderam, mas não como intenção da Bondade Suprema, que não O enviou senão para ser luz, “para ser revelada aos gentios e para a maior glória de Deus” (Lucas 2,32.34).

E se encontramos pessoas que queiram dizer o contrário, não lhes restará outro recurso senão amaldiçoar o seu Salvador, com sua própria palavra: “Infeliz daquele por quem vem o escândalo” (Mateus 18,7).

Eu vos peço: procuremos em nós a causa dos nossos vícios e pecados, pois a nossa vontade é a única fonte deles. Em vão nossa mãe Eva (cf. Gênesis 3,12-13) quis se excusar apontando para a serpente, e [por sua vez] seu marido apontando para ela, porque a desculpa não foi aceita; muito melhor teriam feito se dissessem um bom ‘peccavi’, como fez Davi (cf. Salmo 31,5-6), cuja falta foi-lhe imediatamente perdoada.

[O escândalo provocado pelos hereges] Eu vos digo tudo isso, senhores, para vos fazer saber de onde vem esta grande dissensão de vontade, no que diz respeito à Religião, que constatamos existir entre muitos que, com a boca, professam o Cristianismo. Este é o principal e o maior escândalo do mundo; aquele que por si só, em comparação com os demais, merece o nome de ‘escândalo’; e parece que quase todos são unidos, quando Nosso Senhor disse: “É necessário que haja escândalos” (Mateus 18,7); e quando São Paulo disse: “É necessário que haja heresias” (1Coríntios 11,19), pois este escândalo vai se diversificando aqui com o passar do tempo e, como todo movimento violento, vai sempre decrescendo em sua malícia, pois naqueles que iniciaram a divisão e esta guerra civil entre cristãos, a heresia é um escândalo puramente aceito, passivo ‘ab intrinseco’, de modo que não há mal no heresiarca que não nasça da sua vontade, bem como não há ninguém nesse mal que tenha parte maior do que ele.

O escândalo dos primeiros [a deixarem o Catolicismo], aqueles que [o heresiarca] seduz, já é participado, muito embora desigualmente, pois o heresiarca tem nele a sua parte, por causa da sua solicitação, e os iniciados têm nele uma parte um tanto maior, sendo menor a ocasião de segui-los.

Depois que a heresia finca raízes, aqueles que nascem entre os heréticos, [filhos] de pais hereges, têm cada vez menos parte na culpa. Porém, não lhes ocorre jamais que a uns e a outros não lhes alcança grande parte da culpa, principalmente em nossa época, quando quase todos incorrem em escândalo quase que puramente passivo (aceito), pois a Escritura que leem, a proximidade que têm com verdadeiros cristãos e os sinais que enxergam na verdadeira Igreja – da qual estão separados – podem dispor-lhes diante dos olhos as palavras de seu Esposo: “Buscai nas Escrituras, aquelas com que pensais ter a vida eterna: são elas que dão testemunho de Mim” (João 5,19) e não outras; “As obras que faço em nome do meu Pai também darão testemunho de Mim” (João 10,25).

Por isso, digo que o escândalo daqueles é ‘puramente’, ou seja, vai sendo murmurado em seus ouvidos para que consigam rir em meio às suas iniquidades.

—–

Objetivo da Obra

Isto é o que eu me proponho a demonstrar no presente Tratado. Não me guia outra intenção senão fazer-vos enxergar, senhores, que esta Suzana (=a Igreja Católica) é acusada sem fundamento e que tem razão de se queixar de todos aqueles que se afastaram dos seus Mandamentos, com as mesmas palavras do seu Esposo: “Me odiaram com um ódio injusto” (João 15,25; Salmo 24,19). O farei de duas maneiras: primeiro, através de alguns raciocínios gerais; depois, valendo-me de exemplos particulares sobre as principais dificuldades.

A isso tende e converge tudo o que tantos homens doutíssimos escreveram, porém não seguindo todos um igual procedimento, pois cada um propõe o seu plano particular. Da minha parte, tentarei dirigir todas as linhas do meu discurso para este ponto, como que a um centro, da forma mais justa que eu puder. A Primeira Parte servirá quase que por igual para todos os tipos de hereges; a Segunda, será dirigida mais particularmente àqueles cuja re-união é o objeto mais especial do nosso dever.

Tantas pessoas ilustres escreveram em nossa época, que a posterioridade simplesmente não terá nada para dizer, mas somente considerar, aprender, imitar e admirar. Portanto, não direi nada de novo aqui, [e eu] nem poderia proceder de outra forma, porque tudo é antigo; e se há algo meu além “do fio e da agulha”, isto só me custou o trabalho “de descosturar e recosturar” da minha maneira, segundo esta advertência de Vincente Livinense (Comm. 1,22): “Eadem tamen quae didicisti ita doce ut cum dicas nove non dicas nova”.

A alguns este Tratado talvez lhes possa parecer bem desordenado; porém, isto não é fruto da minha aridez, mas da minha pobreza. Minha memória é pouco feliz e não guarda senão de um dia para o outro e aqui tenho apenas um reduzido número de livros com os quais poderia eu enriquecê-la. Apesar disso, recebei de bom grado, senhores de Thonon, o presente escrito; e ainda que tenhais visto outros melhor redigidos e mais ricos, prestai um pouco de atenção a este, que talvez será mais cômodo a vós do que os outros, pois o seu ar é totalmente savoiano, sendo que uma das mais proveitosas receitas e derradeiros remédios é o retorno aos ares nativos; se isto não for do vosso proveito, recomendar-se-ão outros [ares] mais puros e sutis.

Inicio, assim, em nome de Deus, a quem suplico mui humildemente que faça correr suavemente sua Santa Palavra pelos vossos corações, como orvalho fresco. E a vós, senhores, e a [todos] quantos lerem isto, peço-vos que recordeis as seguintes palavras de São Paulo: “Toda amargura, ira, desdém, gritaria, blasfêmia e toda malícia afastem-se de vós” (Efésios 4,31). Amém.

Tradução: Carlos Martins Nabeto

 
 
 

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