[O FILÓSOFO E O ROSÁRIO] – Rodrigo Gurgel

Durante nossas viagens entre Petersburg e Richmond, na Virgínia, meu lugar no automóvel era atrás de Olavo, que jamais dirigia, mas sentava no banco do passageiro, ao lado da motorista, sua esposa Roxane.
Raramente conversávamos durante a viagem. Olavo permanecia num silêncio, nos primeiros dias, estranho para mim, como se fosse uma espécie de copiloto, responsável por algum mecanismo escondido sob o porta-luvas.
Quem já percorreu a região sabe das árvores imensas que margeiam as estradas, principalmente as vicinais. Concentrava-me, portanto, na paisagem, que se torna especialmente diversa no outono.
O silêncio de Olavo, contudo, intrigava-me. Roxane conversava, tranquila. E se houvesse outros passageiros, tudo transcorria como se Olavo não estivesse presente.
Certo dia, contudo, entendi. Passávamos por um trecho de arvoredo, cujas sombras envolviam o carro na estrada vazia — e então, olhando através da janela de Olavo, vi seu reflexo: ele sorria e balbuciava; seus olhos estavam presos a um ponto perdido no horizonte estreito; e a mão direita desfiava o rosário.
É o que também eu deveria estar fazendo, pensei. E muitas vezes rezei, não o terço, mas uma breve Ave-Maria.
A cena, presenciada dias e dias seguidos, agora jamais se repetirá. Mas quem pode arrancá-la da minha memória? Aqui, no centro da minha consciência, eu a preservo como a síntese — uma das muitas possíveis — desse homem que ainda estamos muito longe de conhecer.
Sua efusiva complexidade, sua arrebatadora inteligência e sua extraordinária bondade estão para sempre atadas ao rosário.
















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