O HOMEM NÃO PODE VIVER SEM HARMONIA COM O REAL – Corrado Gnerre

[Corrado Gnerre parte de uns curtos versos de Guiseppe Ungaretti para essa bela meditação entre o vínculo indissolúvel existente entre o ser humano a a realidade: “Il mio supplizio/ È quando/ Non mi credo/ In armonia” (“Meu suplício é quando não me creio em harmonia”). São versos do poema “I fiume” (“Os rios”), escrito em 1916, mais de dez anos antes da conversão católica do poeta].
Há uns versos de Giuseppe Ungaretti (1880-1970) que dizem o seguinte: “Meu suplício é quando não me creio em harmonia”.
Com estas palavras o poeta quer expressar um fato indiscutível: o homem precisa reconhecer que há uma harmonia entre ele e a realidade. No sentido de que o homem deve encontrar-se na realidade. Ou seja, ele não deve julgar sua existência como algo que está fora do real, pois a essa espécie de existência não se poderia conferir nenhum significado.
Não perceber uma harmonia entre vida e realidade causa desconforto. É o aborrecimento de descobrir a falência da própria vida: uma descoberta que é uma verdadeira tortura, como Ungaretti deve admitir.
O homem aspira à felicidade, mas a felicidade nesta vida não pode ser uma alternativa ao sofrimento, porque este (o sofrimento) é infelizmente inevitável. Em vez disso, a verdadeira felicidade só pode ser uma alternativa ao desespero. Ou seja, a felicidade possível consiste em evitar o desespero; e o desespero é precisamente a percepção de que não pode haver harmonia entre a vida e a realidade. Harmonia a ser entendida no sentido que indicamos anteriormente: como descoberta de um sentido, como convicção de que a vida responde a um projeto, ou seja, a uma razão de ser.
O discurso da harmonia entre existência humana e realidade remete ao dilema fundamental: o homem é “lançado” no mundo ou sua vida responde a um projeto de amor?
É a alternativa entre o domínio da irracionalidade ou o domínio da racionalidade. Entre o absurdo e o sentido. Entre o sem sentido e o Significado.
Bento XVI disse aos jovens, reunidos na Basílica de São Pedro em 6 de abril de 2006: “Deus existe ou não existe. Existem apenas duas opções. Ou se reconhece a prioridade da razão, da Razão criadora que está no início de tudo e é o princípio de tudo — a prioridade da razão é também a prioridade da liberdade — ou se mantém a prioridade do irracional, segundo a qual tudo o que ocorre em nosso planeta e em a nossa vida seria apenas ocasional, marginal, um produto irracional; a razão seria um produto da irracionalidade.”
Portanto, trata-se realmente de uma questão de harmonia.
No que Ungaretti tem razão.
















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