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O legado do doutor Takashi Nagai : testemunhos da bomba atômica de Nagasaki. Parte 1

29 de mar. de 2018
8 min de leitura
68.Takashi

Harano Jōji Às 11:02 h do dia 9 de agosto de 1945 a segunda bomba atômica explodiu no céu de Nagasaki, a 500 metros de altura sobre a Catedral de Urakami, erigida após abolir a perseguição do cristianismo no Japão e principal ponto de reunião da comunidade cristã da cidade. O sacerdote e algumas dezenas de fiéis que se achavam rezando na catedral morreram instantaneamente e o edifício ficou destruído. A vizinha Universidade de Medicina de Nagasaki também sofreu numerosas vitimas mortais. Para Takashi Nagai , um dos médicos do hospital universitário que ficou gravemente ferido por causa da bomba, esse episódio marcou o princípio de uma luta para deixar às gerações posteriores constância documental dos danos causados pela bomba.

Nyoko-dō: uma casa batizada com o preceito “Ama a teu próximo como a ti mesmo”

“Consolo, ânimo, soam os hinos de Nagasaki”. Assim reza Nagasaki no kane ( Os sinos de Nagasaki), uma Canção com letra de Satō Hachirō e música de Koseki Yūji interpretada por Fujiyama Aiichirō que foi um êxito de vendas no Japão em 1949, pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Já se passaram 70 anos desde aquele 9 de agosto de 1945 em que Nagasaki sofreu a explosão da bomba atômica. E não poderíamos relatar esse ponto da história sem mencionar Takashi Nagai , un radiólogo que legou una extensa obra documental na qual destaca o livro Nagasaki no kane ( Os sinos de Nagasaki), que inspirou a Canção antes mencionada.

A obra e a marca que deixou Nagai, que ofereceu assistência médica e socorro a numerosas vítimas da bomba atômica ainda que ele mesmo tenha ficado gravemente ferido, são testemunhos de primeiro nível do terrível legado da bomba, ao mesmo tempo que destilam o amor e o desejo de paz que professava como cristão.

Na colina junto à Estátua da Paz, símbolo de Nagasaki, há uma casinha de madeira com pouco mais de três metros quadrados. Ali viveu Nagai estando enfermo de leucemia, e ali escreveu 17 livros em 4 anos e meio. Nagai batizou a casa como Nyoko-dō (casa de “como a ti mesmo”), inspirado pelo preceito cristão “Ama a teu próximo como a ti mesmo”, para viver guiado pelo amor aos demais e não esquecer às numerosas pessoas que faleceram ou ficaram feridas na zona de Urakami, epicentro da bomba atômica.

Em nossa viagem a Nagasaki visitamos a casa Nyoko-dō de Takashi Nagai —cuja figura está muito esquecida entre os japoneses— e falamos com seu neto de 49 anos, Nagai Tokusaburō, que atualmente dirige o Museu Comemorativo de Takashi Nagai

Dois meses antes da bomba lhe deram 3 anos de vida

O doutor Takashi Nagai nasceu em 1908, em Matsue, prefeitura de Shimane. Após licenciar-se na Universidade de Medicina de Nagasaki (atual Faculdade de Medicina da Universidade de Nagasaki), se especializou na prática e na investigação da radiologia. Ao se envolver também no tratamento da tuberculose, a enfermidade mais grave da época, contraiu leucemia mielocítica crônica. Dois meses antes da explosão da bomba atômica os médicos prognosticaram que lhe restavam três anos de vida. Tinha 38 anos.

Quando caiu a bomba Nagai se encontrava no hospital universitário e ficou gravemente ferido com um corte na artéria temporal direita. Sua amada esposa Midori ficou calcinada dentro de casa. Nos sinos de Nagasaki, Nagai descreve o panorama após a explosão da bomba com as palavras seguintes: “Era o inferno, o mesmo inferno. Tal como no mundo dos mortos, não havia ninguém que pudesse emitir nem um mero gemido”.

Após a explosão atômica, o doutor Nagai se envolveu nas tarefas de primeiros auxílios e resgate das vítimas apesar de estar muito ferido. Posteriormente enterrou os restos de sua esposa e, a partir do dia 12 de agosto e durante 58 dias, constituiu um posto de socorro médico na zona de Mitsuyamamachi na qualidade de capitão do 11.º Corpo Médico e se dedicou a tratar as vitimas da bomba. Durante esse período a saúde de Nagai passou por um momento crítico da qual se recuperou milagrosamente.

No ano seguinte, em 1946, Nagai se formou em professor da Universidade de Medicina de Nagasaki; mas num dia de julho do mesmo ano caiu enfermo na estação de Nagasaki e ficou prostrado na cama até o fim de seus dias. Deitado de bruços no estreito futon de sua casa, o doutor início seu vigoroso labor literário. Dois anos depois se transladou a Nyoko-dō, uma casinha de 3 metros quadrados que os vizinhos de Urakami construíram-lhe com madeiras que sobreviveram ao fogo da bomba.

Os sinos de Nagasaki tardou mais de dois anos para ser publicado

Nagai finalizou a redação de seu ensaio Os sinos de Nagasaki em agosto de 1946, mas não foi fácil para publicá-lo. Ainda que se tratasse de um registro dos danos causados pela bomba atômica desde o ponto de vista médico, ao ser a primeira obra do mundo escrita por uma vítima da bomba, se viu submetida à estrita censura do Comandante Supremo das Forças Aliadas.

Demorou mais de dois anos para conseguir a permissão de publicação, que se outorgou com uma condição inegociável : a obra deveria ser editada em um mesmo volume junto com a tragédia de Manila, una série de arquivos do massacre cometido pelo exército japonês em Manila em fevereiro de 1945. Esses arquivos constavam de declarações juradas de religiosos, militares e civis sobre o massacre, editadas pelo governo de ocupação. O fato de que os sinos de Nagasaki tivesse 160 páginas e a tragédia de Manila tivesse 159 permite compreender o nivel de rigidez da censura. Nagai Seiichi, filho falecido do doutor Nagai, dá detalhada conta do processo de publicação do livro em sua obra Nagai Takashi (São Paulo).

Finalmente os sinos de Nagasaki foi publicado en janeiro de 1949 e, apesar da escassez de papel da época, foi super vendas sem precedentes. Em julho do mesmo ano se lançou a canção de mesmo título composta por Satō Hachirō (letra) e Koseki Yūji (música), que também obteve um êxito arrasador. No ano seguinte o intérprete da peça, Fujiyama Aiichirō, agarrou o acordeão e foi visitar ao convalescente doutor Nagai na casa Nyoko-dō. Fujiyama também cantou Os sinos de Nagasaki com grande sentimento no 1.er Concurso de Canção Vermelho e Branco da NHK, que se emitiu no dia 3 de janeiro de 1951.

Em 1950 a produtora Shōshiku reproduziu os sinos de Nagasaki na grande tela com a direção de Ōba Hideo e o roteiro de Shindō Kaneto, Mitsuhata Sekirō e Hashida Sugako. O filme contou com Wakahara Masao como protagonista e com as atrizes Tsukioka Yumeji e Tsushima Keiko em papéis secundários. Ao ser o primeiro filme que tratava o tema da bomba atômica, e com o controle do governo provisório estadunidense ainda vigente, não pôde mostrar de forma direta o dano causado pela bomba e se limitou a por a ênfase na esperança da recuperação.

Está previsto que dentro de pouco tempo estreie o filme All That Remains: The Story of Takashi Nagai (Tudo o que fica: a história de Takashi Nagai), uma biografia do doutor Nagai produzida no Reino Unido que demorou quase quatro anos para filmar.

A visita de Hellen Keller

Segundo Nagai Tokusaburō, neto do doutor Nagai que dirige o Museo Comemorativo de Nagai Takashi, o museu recebe uns 150.000 visitantes ao ano. O edifício que hospeda o museu foi originalmente uma sala de leitura chamada Uchira no Honbako (Nossa Livraria) que o doutor Nagai financiou de seu bolso para os órfãos da guerra. Logo a sala se converteu em uma biblioteca graças aos donativos dos japoneses expatriados do Brasil e as subvenções municipais . Em 1969 recebeu seu nome atual e passou a expôr obras e fotografias do doutor. E no ano 2000 o edifício foi reformado por completo. Ainda que a exposição ocupe un espaço reduzido, segundo o diretor do centro “ há visitantes que passam até 30 ou 40 minutos observando – a em silêncio.

Foram muitíssimas as pessoas que visitaram o doutor Nagai durante sua enfermidade, mas uma das visitas mais inesperadas foi a de Helen Keller, a célebre escritora surda cega que dedicou a vida a trabalhar pelo bem estar social e a paz mundial. Ainda que só durasse quinze minutos, essa visita de 8 de outubro de 1948 fez chorar de emoção ao professor Nagai. Segundo logo escreveu em Itoshigo eu ( menino querido): “Me agarrou as mãos! Por um instante senti que um doce sentimento de amor percorria todo meu corpo como se fosse um circuito elétrico.

Além disso , no dia 27 de maio de 1949 Nagai teve um encontro com o imperador Shōwa, que visitou a zona bombardeada de Nagasaki para oferecer seu consolo. Três dias depois Nagai beijou a relíquia do braço de São Francisco Xavier, que havia sido transladada ao Centro Social de Urakami, e logo recebeu a visita do cardeal Gilroy, representante do papa de Roma. Em finais do mesmo ano Nagai se converteu na primeira pessoa a receber o título de Cidadão Ilustre da cidade de Nagasaki.

as vitimas da bomba dizem não a guerra

O professor Nagai não foi sempre cristão; costumava ser devoto do santuário xintoísta de Izumo Taisha. Mas o tangido dos sinos do ángelus da Catedral de Urakami, que escutava diariamente da universidade, e o descobrimento da obra Pensées(Pensamentos) de Blaise Pascal o aproximaram do catolicismo.

Após regressar da guerra na Manchúria, em agosto de 1934 Nagai recebeu o batismo e se casou com Moriyama Midori. Midori procedia de uma estirpe de devotos cristãos que se haviam mantido na clandestinidade durante sete gerações. Nagai decidiu batizar- se com o nome de Paulo em honra a Paulo Miki, um dos 26 mártires do Japão que foram executados em 1597, durante o governo do shogun Toyotomi Hideyoshi.

Segundo o diretor do museu Nagai, “ As pessoas diziam que Nagai Takashi era um santo, mas ele não gostava disso. Nagai dirigiu estas palavras às gerações futuras: ” Eu gostaria que compreendessem meu desejo de paz e meu desejo da paz duradora que surge do amor ao próximo, e que o aplicassem em suas vidas”.

O doutor Nagai celebrou a aprovação da Constituição japonesa que entrou em vigor no dia 3 de maio de 1947. Como escreve em Heiwa no Tō ( A torre da paz): “Nunca até então havíamos estado todos tão decididos a não provocar mais guerras. E isso se deve exclusivamente à explosão das duas bombas atômicas. Agora que temos declarado que renunciamos à guerra mediante a Constituição, devemos eliminar de todo a guerra do fundo do coração das pessoas.

Descanse em paz, doutor Nagai

Os sinos de Nagasaki deve seu título aos sinos do angelus da Catedral de Urakami, que o doutor Nagai havia escutado desde sua época universitária e que sofreram os efeitos da bomba atômica. Um dos sinos se conservou inteiro , e no dia 24 de dezembro de 1946 os fiéis o recuperaram dentre os escombros. Posteriormente o suspenderam com troncos de madeira e o fizeram soar na Noite de natal . Nagai encontrou o título para sua obra ao escutar as badaladas da missa que se dedicou as vitimas da bomba.

O diretor do museu Nagai comenta que frequentemente lhe perguntam que teria dito o doctor Nagai se tivesse sobrevivido ao acidente nuclear que ocorreu após o Grande Terremoto do leste do Japão. Ele lhes responde que a pergunta está fora de lugar, já que o doutor teria considerado necessário tomar as medidas adequadas entendendo a segurança e os perigos da energia atômica desde antes do acidente, e por conseguinte não teria emitido nenhum comentário destacável.

O doutor Nagai faleceu na Universidade de Medicina de Nagasaki no dia 1 de maio de 1951. Tinha 43 anos. A autopsia revelou que seu baço era 35 vezes maior que o normal e seu fígado, 5 vezes. No dia 14 do mesmo mês celebrou- se um funeral oficial da cidade na Catedral de Urakami em que acudiram 20.000 pessoas para lhe dar o último adeus. Segundo Nagai Seiichi, filho mais velho do doutor, até o ator e cantor Maruyama Shingo (atualmente, Miwa Akihiro) assistiu ao funeral.

Ao final da visita o diretor Nagai comenta: “Talvez algum dia as pessoas esqueçam que houve uma guerra e que se lançaram bombas nucleares. Ainda assim, espero que meu avô possa descansar em paz muito em breve ”. Não obstante, apesar disso em Nagasaki seguem tocando badaladas de réquiem, o legado de Nagai Takashi seguirá presente entre nós.

 
 
 

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