O LINDO DISCURSO DE CONSOLAÇÃO DE TAKASHI NAGAI AOS CRISTÃOS DE URAKAMI
(…) “Para poder contemplar o significado do acontecido”, Takashi voltou onde Midori [ sua esposa] e 8 mil cristãos haviam morrido. Algumas pessoas murmuravam que a bomba atômica, evidentemente, tinha sido um Tenbatsu, castigo de Deus. Nesta conjuntura o Bispo anunciou o plano de uma missa campal pelos falecidos e pediu que Takashi falasse em nome dos leigos. Ele pôs-se a meditar para encontrar um sentido na bomba atômica.

(…) Dentro da catedral devastada, Takashi estava sentado em um monte de pedregulho, pensando no discurso que faria por ocasião da missa campal. Sob a luz fraca , as madeiras carbonizadas que jaziam entrecruzadas imitavam os caules pretos das ameixeiras no inverno. Pretos como a chuva e o sol no dia 9 de agosto e como o sol no livro das Revelações . Olhou para o altar destruído… O cordeiro que foi morto! O Cordeiro da Revelação foi seguido para onde quer que fosse ” por um coro de virgens , vestidas de branco, que cantavam. Subitamente na mente de Takashi uma imagem formou-se. As 27 irmãs do josei e as meninas de Junshin morreram cantando “o hino novo” aprendido com o cordeiro. O Hino da dimensão Redentora do sofrimento e da morte. O holocausto do Calvário emprestou sentido e beleza ao holocausto de Nagasaki. pegou o lápis e anotou um poema tanka:
HANSAI NO HONO NO NAKA NI UTAI TSUTSU SHIRA YURI OTOME MOE NI KERU KAMO. VIRGENS COMO OS LÍRIOS BRANCOS CONSUMIDAS NAS CHAMAS ARDENTES COMO UM SACRIFÍCIO CONSUMADO E ESTAVAM CANTANDO
No dia 23 de novembro de 1945, ao lado da catedral arruinada, estariam reunidos católicos feridos, com dificuldades para andar, desfiguradas pelas queimaduras, confusos, para celebrarem a missa fúnebre aos entes mortos. Takashi já tinha uma ideia clara sobre aquilo que falaria a eles. No momento em que chegou sua vez de falar, levantou-se um pouco inseguro, parecendo um sennin , um antigo Xamã das montanhas, com as feições macilentas, cabelos e barba por fazer.
Com uma reverência lenta em direção aos sacerdotes paramentados, e uma outra para comunidade, Takashi começou: Na manhã de 9 de agosto, no quartel-general Imperial, em Tóquio , uma reunião do Supremo Conselho de Guerra estava em andamento, para decidir se o Japão se renderia ou continuaria a guerra. Naquele momento o mundo estava diante de um impasse. Uma decisão tinha de ser tomada… Paz ou mais derramamento cruel de sangue e carnificina.
“Foi exatamente então, às 11:02, que uma bomba atômica explodiu sobre nosso bairro. Em instantes, 8 mil cristãos foram chamados para Deus, e em poucas horas as chamas transformaram em cinzas este venerável Santo Lugar do Extremo Oriente…
“À meia-noite daquele dia, nossa Catedral subitamente irrompeu em chamas e foi consumida. Foi precisamente naquele mesmo momento que, no Palácio Imperial, Sua Majestade, o Imperador comunicou a decisão sagrada de acabar com a guerra. O Decreto Imperial, que pôs fim aos combates, foi oficialmente promulgado em 15 de agosto, e o mundo inteiro viu a luz da paz. O dia 15 de agosto também é o grande Dia da Assunção da Virgem Maria. É significativo, julgo eu, que a Catedral de Urakami estivesse dedicada Maria. E aqui temos de fazer uma pergunta: Esta convergência de fatos, isto é, o fim da guerra e a celebração do Dia da Virgem Maria, terá sido meramente uma coincidência ou a Misteriosa Providência de Deus ?
Ouvi dizer que a bomba atômica… tinha sido destinada para uma outra cidade. As nuvens carregadas tornaram aquele alvo impossível ,e a esquadrilha americana dirigiu-se, então, ao segundo objetivo: Nagasaki, surgiu um problema mecânico, e a bomba foi lançada mais ao norte do que se tinha planejado e explodiu bem em cima da catedral… Não foi a esquadrilha americana, creio eu, que escolheu nosso bairro. Foi a providência divina que escolheu urakami e levou a bomba exatamente para cima de nossas casas. Não há aqui uma profunda relação entre o aniquilamento de Nagasaki e o fim da guerra? Não foi Nagasaki a vítima escolhida, o cordeiro sem mancha, morto como uma oferenda consumida pelo fogo sobre o altar do sacrifício, em reparação pelos pecados cometidos por todas as nações durante a Segunda Guerra Mundial?”
Takashi usou a palavra hansai, a palavra japonesa para holocausto ou a oferenda consumida pelo fogo na Bíblia. Algumas pessoas enlutadas reagiram com ira às palavras de Takashi, cena que foi muito bem elaborada pelo célebre direitor Keisuke Kinoshita em Children of Nagasaki ( Filhos de Nagasaki ), o filme mais recente sobre a vida de Takashi Nagai. Alguns da comunidade levantaram-se e gritaram, protestando que Takashi tentara interpretar com palavras piedosas a atrocidade perpetrada em suas famílias! Kakashi não manifestou nem ira nem surpresa. Tendo passado pelo mesmo vale escuro Em que outros se encontravam naquele momento, ele compreendeu a reação deles. Continuou com autoridade e serena de tal modo que os convenceu a guardar silêncio.
“Somos herdeiros do pecado de Adão… do pecado de Caim. Ele matou seu irmão. Nós nos esquecemos de que somos filhos de Deus. Esquecemos o amor e nos voltamos aos Ídolos. Odiando e matando uns aos outros, matando uns aos outros com alegria! Finalmente, o conflito maligno e horrível chegou ao fim, mas, para merecermos a paz, não bastou um simples arrependimento… Tivemos de oferecer um imenso sacrifício… Já havia cidades arrasadas, Mas mesmo isso Não bastou… Foi necessário este Hansai em Nagasaki, no exato momento em que, pela inspiração Divina, o Imperador emitiu a venerável proclamação que pôs fim à guerra durante. Três séculos de perseguição, a grei cristã de Nagasaki permaneceu fiel à fé. Durante esta última guerra, todos que rezaram incessantemente por uma paz duradoura. Aqui se achava o cordeiro puro que devia ser sacrificado como Hansai em seu Altar… de maneira que milhões de vidas pudessem ser salvas.
Na vigília Pascal, uma cerimônia noturna realizada todos os anos na catedral, um grande Círio é aceso. Parafraseando o verso da vigília, Takashi continuou: ” Quão Nobre, Quão esplêndido foi o holocausto da meia-noite de 9 de agosto, quando as chamas subiram da catedral, dispersando trevas e trazendo a luz da Paz. Na profundeza de nossa dor, Fomos capazes de contemplar alguma coisa bonita, pura e sublime.
Para concluir, Takashi invocou o Monte das bem-aventuranças e o Calvário, próximos à Jerusalém. “Felizes os que choram, eles serão consolados. É preciso andar o caminho da reparação… escarnecidos, açoitados, punidos por nossos crimes, sujo de suor e sangue, apesar disso, podemos dirigir os olhos da mente a Jesus, carregando sua cruz ao Monte Calvário. O Senhor o deu, o Senhor o tirou. Bendito seja o nome do Senhor. Sejamos agradecidos por Nagasaki ter sido Eleita como o sacrifício, totalmente consumido pelo fogo! Sejamos agradecidos ao sacrifícios que concedeu a Paz ao mundo e a liberdade religiosa o Japão…” Depois de terminar, Takashi sentou-se e o silêncio foi total. Sua descoberta da Providência Divina, em Ação, mesmo nos Horrores do dia 9 de agosto causou profunda impressão nos ouvintes assim como os leitores — de seus futuros livros — não-cristãos de Nagasaki e de todo Japão.
Hino a Nagasaki, Paul Glynn. Tradução : Pe. Lino Stahl, SJ. Edições Loyola. Pág. 176,177, 178 e 179.
















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