O NOVO PAGANISMO – Entrevista com a filósofa francesa Chantal Delsol

[Em entrevista ao jornalista italiano Giulio Meotti, publicada no dia 7 de Novembro de 2021 no jornal Il Foglio, a filósofa católica francesa Chantal Delsol falou sobre o seu último livro: La fin de la chrétienté [“O fim da Cristandade”], recém-lançado pelas Éditions du Cerf. Chantal Delsol, em cujo blog se pode entrar por aqui, declara-se uma liberal-conservadora. Termina a entrevista citando o escritor inglês Evelyn Waugh, que assim justificava a sua conversão religiosa à Igreja Católica: “Na fase atual da história europeia, a questão essencial não é mais entre o catolicismo, por um lado, e o protestantismo, por outro, mas entre o cristianismo e o caos”. A seguir, trechos da entrevista].
“Entramos em uma nova era. Mas não nos tornaremos ateus. Muitos cristãos falam em niilismo, em Nada. Mas eles estão errados. Nenhuma cultura prospera no niilismo. Em seu estado natural, todas as sociedades humanas são “pagãs”, politeístas, dotadas de crenças imanentes. É o monoteísmo judeu e cristão que constitui uma exceção, com um Deus único e transcendente. Quando o monoteísmo desaparece, a sociedade retorna às formas de paganismo”.
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“Quanto ao paganismo, acho que é a nova religião do nosso tempo, depois do fim do cristianismo e agora que o cristianismo se tornou minoria. Eu insisto nisso: muitos cristãos pensam em niilismo, em nada. Mas eles estão errados. Nenhuma cultura prospera no niilismo, ele não existe. O ser humano precisa de crenças, mesmo que não seja uma religião estabelecida”.
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“A civilização ocidental está intimamente ligada ao cristianismo, foi produzida pelos greco-romanos e pelo judaico-cristianismo”, explica Delsol a Il Foglio. “Ela se identificou com o Cristianismo e depois com o Iluminismo, que representa o início do fim do Cristianismo e o questiona brutalmente, retomando muitas de suas características. (…) O cristianismo demorou dois séculos para morrer, a partir do século XVIII. Para o Ocidente, o fim do Cristianismo é agora o reinado do Iluminismo sem limites (ou emancipação ilimitada). O cristianismo inventou a emancipação, mas estabeleceu limites para ela. O transhumanismo e o wokismo [ideologia que mistura justiça social e racial] são expressões de emancipação sem medida ou lei. Neste momento não sabemos o que acontecerá ao Iluminismo sem uma reflexão sobre a antropologia, que nos vem do cristianismo”.
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As virtudes essenciais da moralidade cristã foram transformadas em um tipo de moralidade secular. “Os escritores do século XX (Scheler, Kolnai, Chesterton) chamaram de humanitarismo. Isso é para distingui-lo do humanismo, porque não somos mais humanistas, tendo expulso o homem do centro do mundo. O humanitarismo reivindica as virtudes cristãs de compaixão e igualdade e as recicla na imanência de um mundo sem Deus”.
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“Uma religião nunca morre. Seus restos mortais são recuperados por quem vem depois. Os primeiros cristãos se estabeleceram em templos pagãos, cujos significados eles transformaram. Não há tabula rasa. (…) O mesmo ocorre com a modernidade em relação ao Cristianismo. A fé na transcendência desmorona, mas o edifício não desaparece, é reciclado. (…) A preocupação com a salvação [da alma] transformou-se em preocupação com a salvação social”.
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“…a ecologia é a principal religião do nosso tempo. Eu preciso esclarecer algo importante sobre este assunto. As graves questões ecológicas que nos preocupam hoje são as questões científicas, resultantes de dados científicos. Mas o que está acontecendo é que essa ciência dá origem a uma religião ecológica ou se transforma em uma religião ecológica. Em outras palavras, ele se vê dominado por crenças e medos que o minam e prejudicam, até mesmo questionam sua veracidade. Hoje a ecologia funciona como religião: tem seus sumos sacerdotes e suas grandes missas, seu catecismo ensinado às crianças, sua profetisa, suas excomunhões e seus anátemas. O próprio fato, por exemplo, de que os céticos do clima são proibidos de falar mostra que a fé religiosa está se infiltrando no lugar do pensamento científico. Uma ciência em princípio não teme seus adversários: ela argumenta, ela não anatematiza. Acho que a ecologia se tornou uma religião para substituir o cristianismo cancelado. É uma forma de panteísmo, e a religião comum hoje é o panteísmo, ou cosmoteísmo, se você preferir – pessoas beijando árvores ou adorando baleias, hinos à mãe terra etc. Nosso contemporâneo apagou completamente a transcendência e adora este mundo. (…) Nossos contemporâneos não querem mais que esta terra seja uma ‘estadia’, enquanto a vida após a morte seria a única ‘casa’; eles querem que esta terra seja a sua ‘casa’”.
















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