O primeiro japonês convertido ao cristianismo foi um assassino fugitivo
Por Guillermo Carvajal
Na imagem mural da Catedral de Kagoshima que mostra São Francisco Xavier com Anjiro
A primeira conversão ao cristianismo no Japão da qual se tem documentação aconteceu em 1547, e não é a típica história milagrosa e beata.
Pelo contrário, com umas poucas pinceladas aqui e ali poderia sair uma entretida película de aventuras nos mares do Sul. Os protagonistas, um samurai, três capitães de barco portugueses e São Francisco Xavier, o navarro co-fundador da Companhia de Jesus.
Anjiro (ou Yajiro) era um samurai do domínio de Satsuma, um dos feudos mais poderosos e produtivos do Japão, situado na ilha de Kyushu, a terceira maior situada ao sul do arquipélago. Era de família nobre e possuía grandes riquezas, Mas cometeu um erro, assassinou um homem, por motivos que as fontes não explicam, e se converteu em fugitivo no ano 1546.
Em sua fuga alcançou o porto de Kagoshima, (algumas fontes dizem que Anjiro era mercador no próprio porto) a capital do domínio, onde topou com o capitão de um barco português chamado Alvaro Vas. Anjiro lhe explicou seu problema e o outro assentiu em acolhê-lo oferecendo-lhe um trabalho entre a tripulação de seu navio, indicando- lhe que devia apresentar-se a bordo da nave ao dia seguinte.
Mas se confundiu e, em lugar de apresentar-se a bordo do barco de Vas, o fez no de outro capitão português (provavelmente as naves devessem se parecer, com razão, muito similares), chamado Jorge Álvares. Deu a casualidade que este Álvares era um bom amigo de Francisco Xavier (que, evidentemente, ainda não era santo, mas já dirigia missões por aquelas latitudes).
Uma vez inteirado das circunstâncias de Anjiro, Álvares o leva a Malaca, que naqueles momentos era um importante enclave comercial português na península da Malásia, com o objetivo de que se confesse com Francisco Xavier. Esta é, evidentemente, a versão oficial. Na realidade, segundo alguns historiadores, é que foi capturado pelos jesuítas na própria Malaca.
Em qualquer caso Francisco Xavier havia partido para as Ilhas Molucas, pelo que Anjiro decide (ou é obrigado) a regressar ao Japão em outro barco. Pelo caminho lhes surpreende uma tormenta que lhes obriga a desviar-se da rota e refugiar-se na costa da China. Casualmente ali conhece outro capitão português (e já vão três), que lhe informa que Francisco Xavier havia regressado para Malaca e o leva de volta.
Esta vez sim, Anjiro conhece por fim a Francisco Xavier em dezembro de 1547, com o qual consegue conversar utilizando as poucas palavras portuguesas aprendidas durante as travessias (provavelmente de vários meses cada uma).
Em março do ano seguinte Francisco Xavier lhe envia ao Colégio de São Paulo em Goa, a capital da Índia portuguesa, onde aprende a ler, escrever e falar português, embora parece que não de maneira demasiado fluente , e dois meses mais tarde ali é batizado com o nome de Paulo de Santa Fé, convertendo-se no primeiro cristão japonês. Tinha 36 anos.
Daí em diante Anjiro será para Francisco Xavier sua principal fonte de informação sobre o Japão, seus costumes e sua religião, e a principal motivação para que este quisesse se deslocar pessoalmente àquele país para evangelizá-lo. Inclusive lhe encarregou a Anjiro a tradução do catecismo ao japonês, tarefa na qual utilizou numerosos termos budistas para explicar conceitos cristãos que, de outro modo, teria sido difícil expressar.
Em 25 de abril de 1549 Francisco Xavier parte para o Japão, acompanhado de outros seis missionários e levando a Anjiro como intérprete, a bordo de um baixel pirata chinês, que foi a única embarcação que puderam encontrar para que os levasse a Kagoshima.
Desembarcam no porto japonês no dia 15 de agosto e a curiosidade pelos recém chegados faz que inclusive sejam convidados pelo daimio de Satsuma a uma audiência em sua corte. Se Anjiro seguia sendo um fugitivo da justiça, não parece que ninguém o recordasse, ou pelo menos nada dizem as fontes.
O caloroso recebimento e a grande aceitação que tinham os missionários não deixava de surpreender Francisco Xavier e seus companheiros, que pregaram felizmente durante quase dois anos no país do sol nascente. Até que dois anos mais tarde se deram conta de seu grande erro.
Resulta que os japoneses não se haviam apercebidos que o que pregavam os europeus era uma religião distinta ao budismo. Por duas razões, porque haviam chegado desde a Índia (Goa), e porque utilizavam os termos budistas que Anjiro havia traduzido.
Assim que Francisco Xavier se deu conta do erro no verão de 1551 começou a utilizar em seu lugar termos latinos, e então as coisas começaram a ir mal. Tanto que para 1552, cansado e desanimado, decidiu dirigir-se e orientar seus esforços para a China.
Anjiro ficou a cargo da missão de Kagoshima, mas a perseguição a que se começava a submeter os cristãos no Japão provocou que em apenas dois anos tudo viesse abaixo. Aguçado pela pobreza e a falta de recursos, e sem outro meio para subsistir, em outro giro completo em sua vida, se enrolou em um barco que se dedicava a saquear as costas chinesas e coreanas e, finalmente, morreu como pirata wako em uma de tantas incursões.
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Bibliografia: Christianity in Early Modern Japan (Ikuo Higashibaba) / The Christian Century in Japan: 1549-1650(Charles Ralph Boxer) / A History of Christianity in Asia(Samuel Hugh Moffett) /Wikipedia
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Fonte: https://www.labrujulaverde.com/2017/01/el-primer-japones-convertido-al-cristianismo-fue-un-asesino-fugitivo Tradução: David Nesta.
















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