O RATO E A COMUNIDADE – Murilo Mendes

1 O rato apareceu Num ângulo da sala. Um homem e uma mulher Apareceram também, Trocaram palavras comigo, Fizeram diversos gestos E depois foram-se embora.
? Que sabe esse rato de mim. E esse homem e essa mulher Sabem pouco mais que o rato.
2 Passam meses e anos perto de nós, Rodeiam-nos, sentam-se com a gente à mesa. Comentam a guerra, os telegramas, Discutem planos políticos e econômicos, Promovem arbitrariamente a felicidade coletiva. Conhecem nosso paletó, camisa e gravata, Nosso sorriso e o gesto de mover o copo. Têm medo de nos tocar, não conhecem nossas lágrimas. ? Que sabem do nosso coração, do nosso desespero, da nossa [comunicabilidade. ? Que sabem do centro da nossa pessoa, de que são participantes. …Subúrbios longínquos, esses homens.
3 Entretanto cada um deve beber no coração do outro. Todos somos amassados, triturados: O outro deve nos ajudar a reconstituir nossas partes. O homem que não viu seu amigo chorar Ainda não chegou ao centro da experiência do amor. Para o amigo não existe nenhum sofrimento abstrato. Todo o sofrimento é pressentido, trocado, comunicado. ? Quem sabe conviver o outro, quem sabe transferir o coração. Viver com o outro é agonizar, morrer e ressuscitar com. Ninguém mais sabe tocar na chaga aberta: Entretanto todos têm uma chaga aberta.
4 Desconhecido que atravessas a rua, ? Que tens de comum comigo. A mesma solidão e a mesma roupa.
Procuras consolo, mas não podes parar. És o servo da máquina e do tempo. Mal sabes teu nome, nem o que desejas neste mundo.
Procuras a comunidade de uma pessoa, Mas não a encontras na massa-leviatã. Procuras alguém que seja obscuro e mínimo, Que possa de novo te re-apresentar a ti mesmo.
5 A mulher que escolhemos, a única e não outra Dentre tantas que habitam a terra triste, Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia, Eis o mundo que nos é de novo apresentado Por intermédio de uma só pessoa. Esta é a que rompe as grades do nosso coração, Esta é a que possuímos mais pela ternura que pelo sexo. E nada será restaurado no seu genuíno sentido Se a mulher não retornar ao seu princípio: É a máquina instalada dentro dela que deveremos vencer. Quando esta mulher se tornar de novo submissa e doce, Os homens pela mão da antiga mediadora Abrirão outra vez um ao outro os corações que sangram.
(Murilo Mendes. Poesia liberdade. Rio, Agir, 1947, p. 109-112)
















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