O SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE A INQUISIÇÃO CONVOCADO POR JOÃO PAULO II

O SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE A INQUISIÇÃO CONVOCADO POR JOÃO PAULO II
Não podemos pedir perdão por Pecados inventados.
O protestantismo criou uma nova historiografia da igreja com o objetivo de demonstrar que esta não apenas está manchada pelo pecado, mas está totalmente corrompida e destruída.
-comissão teológica internacional, Cardeal Joseph ratzinger, 7 de março de 2000
Perante a opinião pública a imagem da Inquisição representa de alguma forma o símbolo deste antitestemunho e escândalo. Em que medida está imagem é fiel à realidade? antes de pedir perdão é necessário conhecer exatamente os fatos e reconhecer as carências ante as exigências evangélicas, nos casos em que assim seja. Este é o motivo pelo qual o comitê pediu a consulta a historiadores cuja competência científica é universalmente reconhecida.
– João Paulo II, (carta de João Paulo II ao Cardeal Etchegaray sobre a inquisição [pela publicação das “atas do Simpósio Internacional” celebrado em Roma em 1998] zenit, 15 de junho de 2004, edição digital, http:// www.zenit.org/article-12713?1=spanish.
É justo, por outro lado, que a igreja contribua para modificar imagens de si falsas e inaceitáveis, especialmente nos campos em que,por ignorância ou má fé, alguns setores da opinião pública se comprazem em identificá-la com o obscurantismo e com a intolerância.
– comissão teológica internacional
Esta iniciativa demonstra que a igreja não teme submeter o próprio ao juízo dos historiadores.
– Cardeal Etchegaray
A igreja não tem medo à verdade que emerge da história, e esta disposta a reconhecerem erros onde houverem verificado.
– João Paulo II
É preciso observar que a abertura dos arquivos da Inquisição não constituía novidade alguma, pois já sabe havia sido ordenada – de acordo com as notícias que temos – em outras duas oportunidades: a primeira na década de 1840, e a segunda por parte de Leão XIII em 1881. Isto demonstra claramente que a igreja jamais temeu a verdade histórica, mas, ao contrário, submeteu-se ao “arquivo” de forma voluntária, a todos os momentos e em todos os lugares. Sempre o fez, com genuína humildade e abertura. Dizia o Papa Montini, Paulo VI, no princípio de seu pontificado:
O simpósio convocado por João Paulo II foi organizado pelo Cardeal francês George Cottier (membro da comissão histórico-teológica do comitê para o grande Jubileu do ano 2000), e suas Investigações culminariam em junho de 2004, seis anos após sua abertura, data na qual foram publicados seus resultados e conclusões.
Estas seriam compilados em “Atas”, em um livro intitulado A inquisição. Este volume consta de cerca de 800 páginas. A obra em questão recolhe a opinião de dezenas de historiadores e teólogos a respeito do Santo tribunal. Agostino borromeo, professor de história na universidade La Sapienza, de Roma, seria o coordenador deste extenso volume.
A seguir alguns comentários de 9 de novembro de 1998, pouco depois da conclusão do simpósio, em uma entrevista concedida pelo Cardeal Cotia agência de notícias Zenit:
A história da Inquisição não é a história da igreja. A igreja é santa e dá sempre frutos de santidade. Mas com isto não quer dizer que a igreja esteja composta apenas de homens Santos, e sim que produz frutos de santidade em cada geração, também em nossa época.A Inquisição foi uma instituição eclesiástica e temporal que teve certamente grandes defeitos, com seus consequentes efeitos negativos, mas este não é o caminho da igreja. A igreja, como esposa e corpo de Cristo, tem de gozar de toda a nossa confiança e, quando faz Penitência, como indica João Paulo II e na carta apostólica tertio Millennio Adveniente, “está realizando um ato de lealdade e valentia que nos dá novas forças para enfrentar o presente”. Somente quando se faz um esforço por pensar como raciocinavam as pessoas daquele tempo é que é possível compreender por que tanta gente e de grande fé não experimentou os questionamentos provocados por essa instituição.[…]
Vivemos hoje em uma sociedade pluralista na qual a distinção entre poder temporal e espiritual é muito mais clara do que no passado, e isto representa uma grande mudança. A partir desta consideração, é necessário fazer uma reflexão teológica. Mas gostaria de acrescentar que a realidade moderna é paradoxal. Hoje em dia vemos como muitas pessoas criticam as práticas violentas da Inquisição e lutam contra a pena de morte, porém ao mesmo tempo assistimos à liberação do aborto e da eutanásia. Deste modo, constatamos que o progresso da ciência não é linear: pode-se dar Passos adiante em um campo e andar para trás em outro. Se, Além disso, somos testemunhas de como alguns sistemas totalitários, em nome de “razões de estado”, não duvidaram em cometer massacres e torturas e massa, então compreenderemos a complexidade da História. O homem está chamado à Santidade, mas se é pecador, e o pecado faz parte da História. Os santos vivem a vida evangélica, e inclusive aqueles que aceitam a inquisição viveram segundo esse caminho. Um deles foi, por exemplo, São Pedro de Verona, Mártir que é recordado no calendário.
Temos de pedir perdão também por alguns pecados cometidos na história. Mas corre-se o risco de pedir perdão por fatos que nunca existiram. O Papa fala dq purificação da memória. Isto quer dizer que devemos purificar nossa imagem do passado dos erros promovidos pela propaganda. A idéia horrorosa da Inquisição difundida pela opinião pública é certamente exagerada. Por este motivo, decidimos escutar os historiadores, para que nos digam o que exatamente foi a inquisição. A petição de perdão deve formular-se com base na informação mais exata possível. Este era o objetivo fundamental do simpósio, e estamos contentes pelos resultados alcançados.
A inquisição — conclui cottier — combateu um mal ao real, a heresia, que ameaçava a fé e destruía a unidade da igreja. Lutar contra as ideias perigosas continua sendo uma necessidade em nossa época.
SOBRE O RESULTADO DO SIMPÓSIO, REFLETIDO NO LIVRO L’INQUISIZIONE
“No grau em que somos responsáveis, junto à meu antecessor, Paulo VI, imploro perdão” escreveu João Paulo II e na Encíclica Ut unum sinto, em Maio de 1995. O trecho entre aspas é o que nos interessa particularmente a este respeito, pois deixa claramente estabelecido que se pede e pedirá perdão unicamente, como é lógico, por aquilo por que somos verdadeiramente responsáveis; para o qual, justamente, organizou-se o simpósio e diversas investigações sobre esta e outras questões para saber o que é verdadeiro e o que há de falso naquilo que dizem os inimigos da igreja.
Vejamos a seguir alguns dos resultados mais significativos do congresso organizado em Roma em 1998.
Os documentos fornecidos refletem que, de um total de 100.000 processos, mais da metade dos acusados foram absolvidos e perdoados, ficando em liberdade. Muitos deles, entretanto, foram posteriormente condenados por tribunais civis. O resto dos processados, em sua maioria, foi castigado com penas muito leves, e apenas raramente se entregava um herege ao estado para sua execução.
Agostino borromeo, por ocasião da apresentação dos resultados das pesquisas do simpósio, comenta que, dos acusados processados entre os anos 1540 e 1700 (período em que foram realizados 44.674 julgamentos), só foram condenados à morte 1,8% dos quais apenas 0,1% foram executados pelo Estado (pois os 1, 7% restantes conseguiram escapar ou tinham paradeiro desconhecido). traduzido em números concretos, Isto significa que de fato morreram 25 pessoas em 160 anos. como são diferentes estas cifras daquelas sugeridas pela mídia Mundial.
Na Espanha, um dos países onde a inquisição trabalhou mais intensamente, das cerca de 125.000 pessoas acusadas de bruxaria, somente cerca de 59 foram executadas (compare-se este número com os reinos protestantes, onde os executados apenas por delitos de bruxaria chegam a 150.000). Na Itália, país notadamente mais populoso, o número baixa a 36; ao passo que em Portugal reduz-se a 4.
“Se somarmos estes dados — diz borromeo — não chegaremos sequer a uma centena de casos, contra as 50.000 pessoas condenadas à fogueira, em sua maioria por tribunais civis, em um total de cerca de 100.000 processos (civis e eclesiásticos) celebrados em toda a Europa durante a idade moderna”. Proporcionalmente, como bem denuncia o Padre Jordi Rivero, as matanças de Bruxas mais numerosas tiveram lugar na Suíça (foram queimadas quatro mil em uma população aproximada de um milhão de habitantes), polônia-lituânia (10.000 em uma população de 3.400.000), Alemanha (25.000 em uma população de 16 milhões) e Dinamarca -Noruega 1350 em uma população de 970.000).
O livro destrói definitivamente e categoricamente, de forma científica, algumas das grandes lendas que pesam sobre a inquisição, como a quantidade de mortes e a frequência do tormento. Assim, os autores sustentam que não é verdade que a maioria dos acusados acabassem na fogueira, nem tão pouco que a maioria das acusações estivessem baseadas em declarações obtidas submetendo os prisioneiros à tortura. Os autores de A inquisição coincidem em assinalar que, ao contrário do que se costuma pensar, a maior parte das condenações consistiam em peregrinações, Orações, ou outras experiências espirituais.
Outra grande novidade historiográfica é a tentativa de explicar o fenômeno inquisitorial contextualizando-o em sua época. Assim, esclarecem, antes de emitir um juízo moral, é necessário compreender, por exemplo, que durante toda a Idade Média a tortura e a pena de morte eram práticas habituais.
Deve-se ter sempre presente que foi o Papa em pessoa quem encarregou os historiadores da realização do estudo e do livro, colocando a sua disposição a documentação necessária e sem fazer nenhum tipo de pré-requisito. O próprio João Paulo II comunicou aos autores seu “Vivo apreço” pelo novo livro e reafirmou a necessidade de que a investigação histórica contribui para a busca da verdade.
Os frutos dessa honestidade são evidentes. Em 2005, ao ser entrevistado pelo Canal History Channel, e interpelado concretamente por sua opinião sobre a inquisição, Sua Santidades Bento XVI respondeu sem hesitar: “A inquisição foi um grande progresso, porque desde então ninguém pode ser condenado sem uma investigação.
Deveriam tomar nota disto, muito especialmente os católicos, alguns dos quais estão sempre tão prontos a somar-se aos preconceitos do mundo contra sua igreja.
















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