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O TOMO DE LEÃO Leão, bispo de Roma (440-461),Ep, XXVII, (a Flaviano), 13 de junho de 449

31 de jan. de 2018
4 min de leitura

[‘Pedro falou por boca de Leão. Esta é a doutrina de Cirilo. Anátema a quem pensar de outro modo!’ (os bispos em Calcedônia).] ” Esta Frase faz parte da liturgia bizantina e é anunciada no dia da comemoração de São Leão magno nas igrejas cismáticas”.

I. [O desvario de Eutiques e sua incompreensão das escrituras.]

II. Eutiques ignorando o que devia saber acerca da encarnação do verbo, não teve vontade de buscar a luz da inteligência no estudo diligente das escrituras. Devia ter admitido ao menos, com respeitosa solicitude, a fé comum e universal dos fiéis de todo o mundo que confessam crer. EM DEUS PAI TODO PODEROSOE EM JESUS CRISTO SEU ÚNICO FILHO, NOSSO SENHOR, QUE NASCEU DO ESPÍRITO SANTO E DA VIRGEM MARIA. Estes três artigos derrotam as pretensões de qualquer herege. Cremos que Deus é pai onipotente, ao mesmo tempo pai e onipotente. Segue-se que vemos o filho co-eterno ao pai, em nada diferente do pai, porque nasceu Deus de Deus. Onipotente de Onipotente, co-eterno de co-eterno, não lhe sendo posterior no tempo, nem inferior no poder, bem diferente na glória, nem separado dEle na essência. Este mesmo unigênito, filho eterno do pai eterno, nasceu do espírito santo e da virgem Maria. Seu nascimento no tempo, entretanto, nada tirou e nada acrescentou a seu nascimento eterno divino, mas se entregou inteiramente para a restauração do homem desviado, a fim de poder vencer a morte e por própria virtude aniquilar o diabo, detentor do poder da morte. Nós nunca Poderíamos derrotar o autor da morte e do pecado, se o filho não tivesse tomado nossa natureza, fazendo-a sua, o verbo que nem a morte nem pecado podem deter, visto que foi concebido pelo espírito santo no ventre da virgem Maria, cuja virgindade permaneceu intacta tanto em seu nascimento como em sua concepção…. Este nascimento, unicamente maravilhoso e maravilhosamente único, não deve ser entendido como se impedisse as propriedades distintas da espécie [isto é, da humanidade] através de novo modo da criação. Pois é verdade que o espírito santo deu fertilidade à virgem, embora a realidade do seu corpo fosse recebida do corpo dela….

III. Assim, intactas e reunidas em uma pessoa as propriedades de ambas as naturezas, a majestade assumiu a humildade, a força assumiu a fraqueza, a eternidade assumiu a mortalidade e, para pagar a dívida de nossa condição, a natureza inviolável uniu-se a natureza que pode sofrer. Desta maneira, o único e idêntico Mediador entre Deus os homens, o homem Jesus Cristo, pôde, como convinha à nossa cura, por um lado morrer e, por outro, não morrer. O verdadeiro Deus nasceu, pois, em natureza cabal e perfeita de homem verdadeiro, completo nas suas propriedades e completo nas nossas [Titus in suis totus in nostris]. Por “nossas”, entende-se aquelas que o criador no princípio formou em nós e que assumiu a fim de restaurar; pois as propriedades que para dentro de nós trouxe o sedutor ou que, seduzidos, adquirimos por própria conta, não existiram absolutamente no Salvador. O fato de entrar em comunhão com nossas fraquezas não o fez participar das nossas culpas; tomou a forma de servo e não a mácula do pecado, enobrecendo as qualidades humanas sem diminuir as Divinas. Assim, “esvaziando-se a si mesmo”, o invisível se tornou visível, o criador e Senhor de todas as coisas se fez mortal, não por alguma deficiência de poder mas por condescendência de piedade. Quem, sem perder a forma Divina, pôde criar o homem, também pôde fazer-se homem em forma de servo. Cada natureza guarda suas próprias características sem qualquer diminuição de tal maneira que a forma de servo não reduz a forma de Deus.

O diabo alardeava que, seduzido pela sua astúcia, o homem estava privado dos dons Divinos, despojado do Dom da imortalidade, implacavelmente condenado a morte, tendo encontrado, neste companheiro de pecado, certa Consolação de sua morte. Jactava-se também de que, por causa da justiça que exigia. Deus teve que mudar seu plano com respeito ao homem, criado com tanta distinção, pois precisou de nova dispensação para levar a cabo seus ocultos desígnios; de que o Deus imutável, cuja vontade não pode ser privada de sua própria misericórdia, só pôde realizar o plano original de seu amor por nós mediante outro plano mais misterioso, para que este homem, conduzido ao pecado pela fraude maliciosa de Satã, não perecesse contrariando os propósitos de Deus.

IV. Neste mundo fraco entrou o filho de Deus. Desceu de seu trono celestial, sem deixar a glória do pai, e nasceu segundo uma nova ordem, mediante um novo modo de nascimento. Segundo uma nova ordem, visto que invisível em sua própria natureza, se fez visível na nossa e, ele que é incompreensível¹, se tornou compreendido; sendo anterior aos tempos, começou a existir no tempo; Senhor do universo, revestiu-se da forma de servo, ocultando a imensidade de sua Excelência; Deus impassível, não se horrorizou de vir a ser carne passível; imortal, não se recusou às leis da morte. Segundo um novo modo de nascimento, visto que a virgindade, desconhecendo qualquer concupiscência, concedeu-lhe a matéria de sua carne. O senhor tomou da mãe a natureza, não a culpa. Jesus Cristo nasceu do ventre de uma virgem, mediante um nascimento maravilhoso. O fato de o corpo do Senhor nascer portentosamente não impediu a perfeita identidade de sua carne com a nossa, pois ele que é verdadeiro Deus é também verdadeiro homem. Nesta união não há mentira nem engano. Correspondem-se numa unidade mútua [sunt invincem] a humildade do homem e a excelsitude de Deus. Por ser misericordioso, Deus [divindade] não se altera; por ser dignificado, o homem [humanidade] não é absorvido. Cada natureza [a de Deus e a de servo] realiza suas próprias funções em comunhão com a outra. O Verbo faz o que é próprio ao verbo; a carne faz o que é próprio à carne; um fulgura com milagres; o outro submete-se às injurias. Assim como o verbo não deixa de morar na glória do pai, assim a carne não deixa de pertencer ao gênero humano… Portanto, não cabe a ambas as naturezas dizerem: “O pai é maior do que eu” ou “Eu e o pai somos um”.² Pois, ainda que em Cristo nosso senhor haja só uma pessoa Deus-homem, o princípio que comunica a ambas as naturezas as ofensas é distinto do princípio que lhes torna comum a glória …

¹ não circunscrito especialmente ² jo 10.30; 14.28 – contrastando com o quarto anátema de CIRILO.

 
 
 

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