O TRANSUMANISMO CRISTÃO

No Primeiro Canto do Paraíso, da Divina comédia de Dante Alighieri, o leitor contemporâneo vai topar com o verbo transumanar e terá, inevitavelmente, a sensação do déjà vu: será difícil não se lembrar do badalado transumanismo de hoje, uma ideologia bastante em alta no mercado das fantasias pós-modernas.
Está lá no verso 67 Primeiro Canto do Paraíso, quando Dante, pronto para começar a viagem ao Céu ao lado de Beatriz, e depois de observá-la maravilhosamente envolta em luz celeste, sente-se de repente “mudado”. Algo tinha ocorrido em seu corpo, que o tornou de repente mais poderoso, livre das leis da natureza. A primeira mudança, que em si descobriu, foi a da velocidade supersônica: deslocava-se mais rápido que um relâmpago. O espaço não era mais problema: estava pronto para subir ao Céu com a sua luminosa e já divina cicerone.
A essa metamorfose, Dante chamou transumanação. O poeta compara essa transformação à que se deu com o pescador mitológico Glauco, que depois de ingerir uma erva mágica transformou-se em uma divindade marinha.
Em português, os dicionários dão ao verbo transumanar o sentido de humanar, atribuir características humanas a algo. Já na Itália, na certa por influência de Dante, “trasumanare” é ultrapassar o que é humano, e este é o significado que tem na atual “filosofia” transumanista.
Enquanto para o autor da Divina comédia a superação do humano só se pode realizar pela conjugação do esforço do homem e a infusão da graça divina — o homem só pode ver a Deus, face a face, se ultrapassar a sua condição humana —, os teóricos do atual transumanismo creem que essa ultrapassagem se dará pelas virtudes da ciência e da técnica. O “trans-homem” de Dante será o homem ressuscitado do cristianismo; o “trans-homem” do transumanismo ateu seria uma mistura de corpo humano com máquina.
Jesus, ao atravessar a parede do cenáculo, com porta e janela medrosamente bem fechados pelos apóstolos, pretendeu mostrar-lhes os poderes de um corpo transumanado pela ressurreição, que será um prêmio reservado exclusivamente aos justos, no final dos tempos, quando os homens de algum modo forem divinizados.
Já os transumanistas sem Deus, na linha dos filósofos iluministas e do super-homem nietzschiano, sonham com a deificação humana aqui e agora ou, pelo menos, para daqui a pouco.
Podemos escolher com qual acepção do verbo transumanar ficamos.
















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