ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO – Carlos Drummond de Andrade

[O poeta Drummond já não era mais católico quando fez esse poema, mas tocou-o a morte prematura do escritor católico Jackson de Figueiredo, falecido em 1927, por afogamento, quando pescava com o filho na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Era uma época em que pessoas com posições distintas no mundo das ideias ainda conseguiam conviver civilizadamente; ou homenagear mortos que pensavam de forma diferente].
Jackson nem amigo nem inimigo, nem mesmo (o que seria cômodo) espectador displicente na sua poltrona espiando teus gestos, tuas palavras e obras, mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida, mais distante ainda dos mundos que exploraste, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los, e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer, aqui estou, testemunha, depondo. Jackson, os que te conheceram e te amaram os que te conheceram e não te amaram, os que não tiveram tempo de te amar, os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististes, estão todos um pouco mais pobres do que eram antes. Uns perderam o amigo. Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha. Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada. Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson, e eu o sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso. Voltou o tempo dos prodígios. Ainda há pescas maravilhosas, eu sei. E os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades estão cantando a glória do Senhor. Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam, que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar, enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor. Agora sentimos que estás mais perto de nós, que por obscuros caminhos nos chegamos mais a ti, pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição. Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano, pesca terrível e prodigiosa de amor e de redenção.
(Em A Ordem, 1930)
















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