ONDE ESTÃO OS QUE ANTES DE NÓS VIVERAM NO MUNDO?

O topos (ou tema recorrente) do ubi sunt, cristalizou-se na literatura medieval a partir da famosa pergunta (que os céticos acreditam sem resposta…) atribuída ao filósofo e poeta latino Boécio:
“Ubi sunt qui ante nos in mundo fuere?” (Onde estão os que antes de nós viveram no mundo?).
Para o cristão, só pode haver uma resposta: perdidos ou salvos na eternidade. O ensaísta Otto Maria Carpeaux, considerando improvável a formulação desta questão no seio da cristandade medieval, julga-a nascida das correntes averroístas que se infiltraram na Idade Média (Averróis, filósofo muçulmano que viveu no século XII, negava a imortalidade das almas individuais).
Segundo Carpeaux, foco importante de heresia, na Europa cristã medieval, foi a Universidade de Paris, onde estudou o poeta francês François Villon (nascido no século XV), antes de retomar o tema do ubi sunt e perguntar, em poema célebre — “Ballade des dames du temps jadis” (“Balada das damas de outros tempos”) —, pelas neiges d’antan (“as neves de outrora”):
“Dites-moi où, n’en quel pays, Est Flora la belle Romaine, Archipiadé, ne Thaïs, Qui fut sa cousine germaine, Écho, parlant quant bruit on mène Dessus rivière ou sus étang, Qui beauté ot trop plus qu’humaine? Mais où sont les neiges d’antan?”
(“Dizei-me em que terra ou país Está Flora, a bela romana; Onde Arquipíada ou Taís, Que foi sua prima germana; Eco, a imitar na água que mana De rio ou lago, a voz que a aflora, E de beleza sobre-humana? Mas onde estais, neves de outrora?” Trad. de Modesto de Abreu)
Nesse mesmo século XV, Jorge Manrique, da Espanha, perguntava:
“Qué se hizieron las damas, sus tocados e vestidos, sus olores? Qué se hizieron las llamas de amadores? Qué se hizo aquel trovar, las músicas acordadas que tañian? Qué se hize aquel dançar, aquellas ropas chapadas que traían?”
(“O que foi feito das damas, Seus penteados e vestidos, Seus perfumes? O que foi feito do ardor De seus amantes? O que foi feito das trovas E das serestas Que eles cantavam? O que foi feito daquelas danças, Daquelas belas roupas Que elas traziam?”)
O poeta americano Edgar Lee Masters (1868-1950) fez um belo e conhecido poema com esse topos medieval, “The hill”, que tem estrutura semelhante aos de Villon e Manrique. Seguem a primeira estrofe no original e na tradução do poeta Jorge de Lima:
“Where are Elmer, Herman, Bert, Tom and Charley, The weak of will, the strong of arm, the clown,the boozer, the fighter? All, all, are sleeping on the hill. One passed in a fever, One was burned in a mine, One was killed in a brawl, One died in a jail, One fell from a bridge toiling for children and wife — All, all are sleeping, sleeping, sleeping on the hill.”
“Onde estão Elmer, Herman, Bert, Tom e Charley, O irresoluto, o de braço forte, o palhaço,o ébrio, o guerreiro? Todos, todos estão dormindo na colina. Um morreu de febre, Um lá se foi queimado numa mina, O outro assassinaram-no num motim, O quarto se extinguiu na prisão, E o derradeiro caiu de uma ponte quando trabalhava para a esposa e os filhos, Todos, todos estão dormindo, dormindo, dormindo na colina.”)
Manuel Bandeira foi, talvez, o poeta brasileiro que melhor trabalhou esse assunto, e mais de uma vez. Veja-se o final do poema “Profundamente”:
“Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente.”
Enfim, “Ubi sunt qui ante nos in mundo fuere?” (Onde estão os que antes de nós viviam no mundo?). A resposta, para o ex-católico e desconvertido Carpeaux, só poderia ser uma: “Não estão”, ponto de chegada do averroísmo medieval transformado em materialismo moderno.
Se a pergunta ubi sunt? ecoou por todos os lados da Europa, na época do declínio da Idade Média, quando agonizava a cristandade, hoje é marca registrada de nossa época pós-cristã, que tem como feição principal a instabilidade progressista e revolucionária, num total desprezo pelas coisas permanentes.
















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