OS DESAFIOS DO CONSERVADORISMO – Václav Klaus

[Trecho do discurso de Václav Klaus pronunciado em 19 de maio no CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora Americana) em Budapeste, Hungria. Václav Klaus foi presidente da República Tcheca de 2003 a 2013, depois de servir como primeiro-ministro de 1993 a 1998. A Conferência de Ação Política Conservadora Americana (CPAC), que reúne dezenas de eminentes conservadores dos Estados Unidos, Europa e outros lugares, está ocorrendo pela primeira vez na Europa].
Esta primeira conferência sobre ação política conservadora, que acontece na Europa, deve ser dedicada a discutir, defender e promover valores e princípios conservadores. O termo “conservador” é absolutamente fundamental para nós.
Pouco depois da queda do comunismo, já há mais de 30 anos, consegui fundar um partido político no meu país, que era então a Checoslováquia e que hoje é a República Checa, baseado em ideias que – creio eu – merecem ser chamadas conservadoras.
Como recém-chegados ao mundo ocidental livre, não ousamos chamar nosso partido de “conservador” por duas razões. Em primeiro lugar, devido ao nosso enorme respeito por Margaret Thatcher e pelo Partido Conservador britânico, e em segundo lugar porque o termo “conservador” era, nos países da Europa Central e Oriental, reservado aos antigos apparatchiks comunistas [membros da Nomenklatura russa] que ainda sonhavam com a possibilidade de “conservar” o comunismo. O meu partido ganhou as duas primeiras eleições parlamentares livres e desempenhou um papel crucial na substituição do regime autoritário pelo regime democrático.
Tomamos isso como prova de que uma vitória da liberdade e da democracia é possível. Ficamos fascinados com o rápido sucesso de mudanças radicais nos aspectos principais de nossos sistemas políticos e econômicos, mas não esperávamos a erosão igualmente rápida que estamos testemunhando hoje. O mundo contemporâneo, mais ou menos socialista e pós-democrático, ligado a um progressismo woke agressivamente imodesto e quase anárquico, a uma arrogante “cultura do cancelamento”, bem como aos excessos quase inimagináveis da revolução de gênero, é o oposto do mundo que queríamos construir.
Sinto-me cada vez mais frustrado porque, no mundo de hoje, nossas ideias estão visivelmente em retrocesso; não devemos ter expectativas falsas e ingênuas. Devemos saber que este retrocesso será difícil de reverter.
Como isso aconteceu? Será porque nossas antigas ideias conservadoras, bem definidas e amplamente aceitas, se tornaram obsoletas, inadequadas, e até mesmo impraticáveis no novo mundo de hoje, que ainda espera por seus Aldous Huxleys e seus George Orwells? Devemos, portanto, renovar, modernizar, reformular essas ideias? Ou será que temos “somente” de voltar a essas ideias?
A minha resposta a esta pergunta é simples e bastante modesta: creio que basta voltar a elas. Alcançar isso já seria, no entanto, um feito revolucionário, e não apenas pela força inegável de nossos adversários e inimigos, como muitas vezes se afirma.
Vejo muitos problemas e inconsistências do nosso lado. Nossas ideias conservadoras foram insuficientemente expostas e promovidas por muito tempo, pelo menos desde os anos 1960, desde as barricadas de Paris em 1968 e os Students for Democratic Society (Estudantes para uma sociedade democrática na América). O problema foi ampliado pela evidente passividade dos pensadores conservadores após a queda do comunismo, quando o mundo ocidental, ingenuamente, aceitou a tese do “fim da história” de Fukuyama e apossou-se da garantia injustificada de que as ideias sobrevivem, funcionam e vencem sem serem constantemente defendidas e promovidas.
As perdas que vejo estão tanto no campo das ideias quanto nos arranjos institucionais, radicalmente alterados do mundo ocidental, especialmente aqui na Europa. Na área ideológica, vejo as principais mudanças para pior nas seguintes áreas:
— na vitória do direito-humanismo sobre os direitos civis no sentido conservador do termo e sobre o princípio de cidadania como tradicionalmente definido;
— em uma perda de liberdade ligada ao fato de que a democracia liberal progressista conseguiu substituir a liberdade por direitos; a ideologia dos direitos positivos alcançou o status de religião cívica;
— em uma vitória do ONGismo, do poder de grupos de pressão não eleitos e de interesses particulares sobre a democracia parlamentar pluralista;
— na vitória do ambientalismo agressivo sobre a racionalidade elementar e o bom senso, sobre a sabedoria do cidadão comum, sobre o pensamento econômico conservador;
— nas consequências do fato de os crentes no Estado-nação terem mais ou menos capitulado no seu confronto com as organizações internacionais (na Europa, através da União Europeia);
— na ruptura da continuidade; a sociedade ocidental começou a se afastar de suas raízes culturais e históricas e da longa tradição de moderação e decência;
— na negação da existência da natureza humana; os proponentes da revolução sexual conseguiram transformar homens e mulheres, o material biológico da sociedade humana, em um software cultural e social;
— e, finalmente, em novas moralidades e novos padrões de comportamento que substituíram tradições e valores conservadores.
Isso também tem seu aspecto institucional. Todas essas mudanças foram possibilitadas pela negação do papel dominante dos Estados-nação na estruturação da sociedade humana e pelo crescente papel das organizações e instituições internacionais. A evolução para a governança global e subglobal (ou seja, europeia) levou à supressão do único garante efetivo da democracia: o Estado-nação.
Os Estados-nação soberanos deixaram de ser uma unidade política fundamental dos assuntos internacionais. O modelo atual do processo de integração europeu, em que a integração se transformou em unificação e centralização de decisões em escala europeia, e em que a liberalização se transformou em harmonização, padronização e uniformidade, tornou-se o principal vetor da perda do pensamento conservador em nossa parte do mundo.
Estamos na defensiva há muito tempo. É preciso lançar uma ofensiva autoconfiante, baseada na crença de que as ideias importam e que as ideias conservadoras são uma parte fundamental e insubstituível delas. Há uma necessidade desesperada de defender o muito frágil Ocidente contra seus inimigos intelectuais internos. Não é só na Hungria que temos que lutar contra o crescente protagonismo dos representantes do Homo Sorosensus e a ascensão das elites cosmopolitas.
Não devemos permitir que os progressistas dominem a política, a mídia e o sistema educacional. James Burnham disse, certa vez, que “as civilizações só morrem por suicídio”. Temo que nossa ausência de ação possa facilmente levar a um tal fim. Como já disse, a queda do comunismo e o fim da Guerra Fria minaram a consciência e a vigilância que havia antes.
É preciso não cometer o mesmo erro novamente. O conservadorismo nunca significou uma rejeição a priori de mudanças fundamentais e de uma descontinuidade radical com o passado. Certamente, não sou o único a pensar que chegamos a um ponto de virada. Precisamos começar a defender e promover ativamente as ideias que herdamos de nossos predecessores. Estou convencido de que nossa conferência será um dos importantes fatores de aceleração para uma mudança fundamental.
Les défis auxquels le conservatisme est confronté à l’ère d’un progressisme toujours plus fort sont-ils gérables ?
















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