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PAOLO E FRANCESCA (CANTO V DO INFERNO) – Dante Alighieri

12 de mar. de 2019
4 min de leitura

E descemos ao Círculo segundo, que área menor que o outro compreendia; maior, porém, na dor que punge fundo.

Dentes rilhando em fúria, ali se via Minós, que as culpas mede junto à entrada, pelas voltas na cauda, que fazia.

Digo que toda sombra condenada, ao chegar, os seus erros confessava; e ele, que entende do pecado, a cada

uma no inferno o seu lugar mostrava: Tantas vezes a cauda ia enrolando, tantos os graus abaixo a que as mandava.

Muitas notei à frente se agrupando: Mas de per si cada uma se apresenta ao juízo; fala, escuta, e vai passando.

“Ó tu que chegas à morada cruenta!” — disse Minós, ao avistar-me, então, suspendendo a tarefa triste e lenta:

“Vê como vens, e quem te traz à mão! Não te seduza a porta escancarada!” Meu mestre o interrompeu: “Gritas em vão!

Jamais lhe tolherás a caminhada; que assim foi decidido onde devia sê-lo, e não podes contra isto nada.”

E, pouco a pouco, gritos de agonia eu fui ouvindo, e tínhamos chegado aonde o pranto o seu clamor amplia.

Era um lugar de toda luz privado, bramindo como o mar sob a tormenta, quando por rudes ventos assaltado.

A borrasca infernal, que nunca assenta, as almas vai mantendo em correria; e voltando, e batendo, as atormenta.

Arremessadas contra a penedia, praguejavam, unidas, num crescendo, amaldiçoando a divindade pia.

Ouvi que ali gemiam, padecendo, os réus carnais, aqueles que a razão ao apetite andaram submetendo.

E tal como aos zorrais em migração movem as próprias asas para a frente — movia aquelas almas o tufão,

daqui, dali, e à volta, acerbamente, sem lhes dar esperança de parar, ou de abrandada a pena ver somente.

À feição das cegonhas que, no ar, seus gritos soltam voando enfileiradas, assim, em ais desfeitas, vi chegar

as sombras pelo vento impulsionadas. E perguntei-lhe: “Mestre, estas quem são , gentes assim no vórtice arrastadas?”

“A primeira das que na fila vão, da qual indagas”, disse, “foi rainha de povos de multíplice nação.

Ao vício da luxúria tanto tinha que em lei franqueou a todos a libido, legitimando o incesto que mantinha.

É Semíramis, pois, de quem foi lido que sucedeu a Nina, e o desposou: dela é o país pelo Sultão regido.

A outra é aquela que se suicidou, por muito amor, de Síqueo à fé faltando; mais Cleópatra, que ao vício se entregou.

Helena vês, que fez correr nefando e longo tempo, e Aquiles que na morte por mãos de Amor enfim foi penetrando.

Vês Paris e Tristão.” E uma coorte vastíssima de sombras me indicou, que a paixão retirou de nossa sorte.

Mal de nomear meu mestre terminou as damas e os senhores a girar, fiquei confuso, e a dor me dominou.

E comecei: “Poeta, de falar àqueles dois eu gostaria, certo, que juntos vão, alígeros, no ar.”

“Espera”, respondeu-me, “que mais perto cheguem de nós, e indagarás então do grande amor que neles foi desperto.”

Logo que o vento em nossa direção os impeliu, gritei: “Seres feridos, falai conosco de vossa paixão!”

E como os pombos que, de amor movidos, asas tensas, se abatem sobre o ninho, no ar dos desejos como conduzidos

— assim, deixando os mais pelo caminho, foram ambos chegando, ao sopro arfante, sensíveis ao meu grito de carinho:

“Ó ser afetuoso e insinuante, que nos visita, a nós que derramamos na terra o nosso sangue degradante;

se amigo fosse o rei a que faltamos, rogaríamos dele a tua paz, pois te condóis do mal que suportamos.

Do que falar e ouvir aqui te apraz, falemos já e ouçamos prontamente, nesta pausa que o vento agora faz.

A terra em que nasci é aquela assente na marinha por onde o Pó se estende, compondo-se com um e o outro afluente.

Amor, que a alma gentil no imo surpreende, prendeu-o à forma que era minha e viva; e foi tomada em modo que inda ofende.

Amor, que a amado algum de amar não priva, uniu-me a ele também, tão doce e forte, que, como vês, ainda aqui se aviva.

Amor nos conduziu à mesma morte, e certo espera a quem a fez Caim!” Do jovem par ouvira a infausta sorte.

E quando a sombra se calou por fim, baixei, vencido, o rosto, até que o poeta disse: “Que pensas? Por que estás assim?”

“À minha alma”, tornei-lhe, “muito afeta ver amor tão gentil, tal sentimento, rápidos voando à sanguinosa meta.”

E a ambos me dirigindo, eu disse, atento: “Francisca, a triste história que narraste move-me ao pranto e a grande sofrimento.

Revela-me a razão porque passaste do puro anelo e do inocente amor à culpa amarga que tão cedo expiaste.”

“Não existe”, falou-me, “maior dor que recordar, no mal, a hora feliz; e bem o sabe, creio, esse doutor.

Mas já que o nosso amor desde a raiz ansiosamente queres conhecer, narrá-lo vou, como quem chora e diz.

Estávamos um dia por lazer de Lancelote a bela história lendo, sós e tranquilos, nada por temer.

Às vezes um para o outro o olhar erguendo, nossa vista tremia, perturbada; e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Ao ler que, perto, a boca desejada sorria, e foi beijada pelo amante, este, de quem não fui mais apartada,

os lábios me beijou, trêmulo, arfante. Galeoto achamos nós no livro e autor: e nunca mais foi a leitura adiante.”

Enquanto aquela sombra o triste amor lembrava, a outra gemia em desconforto; e quase à morte eu fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.

(Dante Alighieri, A divina comédia. Trad. de Cristiano Martins. Belo Horiznte, Itatiaia, 1984, p. 138-146)

 
 
 

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