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PAPA EMÉRITO BENTO XVI QUEBRA SILÊNCIO SOBRE CRISE DE ABUSO: TEXTO COMPLETO

11 de abr. de 2019
21 min de leitura




10 de abril de 2019 ( EWTN ) - De 21 a 24 de fevereiro, a convite do Papa Francisco, os presidentes das conferências episcopais do mundo se reuniram no Vaticano para discutir a atual crise da fé e da Igreja; uma crise experimentada em todo o mundo após revelações chocantes de abuso de escritório perpetrado contra menores.


A extensão e a gravidade dos incidentes relatados causam angústia tanto aos sacerdotes quanto aos leigos, e levou mais do que alguns a questionar a própria fé da Igreja. Era necessário enviar uma mensagem forte e buscar um novo começo, para tornar a Igreja novamente verdadeiramente credível como luz entre os povos e como força a serviço dos poderes de destruição.


Como eu mesmo havia exercido uma posição de responsabilidade como pastor da Igreja no momento do surto público da crise, e durante o período que antecedeu a ela, tive que me perguntar - mesmo que, como emérito, não sou mais diretamente responsável - o que eu poderia contribuir para um novo começo.


Assim, depois que a reunião dos presidentes das conferências episcopais foi anunciada, compilei algumas notas pelas quais poderia contribuir com uma ou duas observações para ajudar nesta hora difícil. 


Tendo entrado em contato com o Secretário de Estado, o Cardeal [Pietro] Parolin e o próprio Santo Padre [Papa Francisco], parecia apropriado publicar este texto no Klerusblatt [um periódico mensal para o clero na maioria das dioceses da Baviera].


Meu trabalho está dividido em três partes. 


Na primeira parte, pretendo apresentar brevemente o contexto social mais amplo da questão, sem o qual o problema não pode ser entendido. Tento mostrar que, na década de 1960, ocorreu um evento flagrante, em uma escala sem precedentes na história. Pode-se dizer que, nos 20 anos de 1960 a 1980, os padrões anteriormente normativos em relação à sexualidade entraram em colapso por completo e surgiu uma nova normalidade que até agora foi objeto de trabalhosas tentativas de rompimento. 


Na segunda parte, pretendo apontar os efeitos dessa situação na formação dos padres e na vida dos padres.


Finalmente, na terceira parte, gostaria de desenvolver algumas perspectivas para uma resposta adequada por parte da Igreja.


EU.


(1) O assunto começa com a introdução prescrita e apoiada pelo estado de crianças e jovens na natureza da sexualidade. Na Alemanha, a então ministra da Saúde, [Käte] Strobel, fez um filme no qual tudo o que anteriormente não tinha permissão para ser exibido publicamente, incluindo as relações sexuais, agora era exibido para fins educacionais. O que inicialmente se destinava apenas à educação sexual dos jovens foi conseqüentemente amplamente aceito como uma opção viável.


Efeitos semelhantes foram alcançados pelo “Sexkoffer” publicado pelo governo austríaco [Uma polêmica 'mala' de materiais de educação sexual usada nas escolas austríacas no final dos anos 80]. Os filmes sexuais e pornográficos tornaram-se uma ocorrência comum, a ponto de serem exibidos nos cinemas [ Bahnhofskinos ]. Ainda me lembro de ter visto, enquanto caminhava pela cidade de Regensburg, um dia, multidões de pessoas em fila diante de um grande cinema, algo que antes só vimos em tempos de guerra, quando se esperava uma alocação especial. Lembro-me também de ter chegado à cidade na Sexta-feira Santa no ano de 1970 e visto todos os outdoors com um grande cartaz de duas pessoas completamente nuas em um abraço próximo.

Entre as liberdades pelas quais a Revolução de 1968 procurava lutar estava essa liberdade sexual total, uma que não concedia mais nenhuma norma.


O colapso mental também estava ligado a uma propensão à violência. É por isso que filmes sexuais não eram mais permitidos em aviões, porque a violência irrompeu entre a pequena comunidade de passageiros. E como as roupas da época provocaram igualmente agressão, os diretores da escola também tentaram introduzir uniformes escolares com o objetivo de facilitar o clima de aprendizado.


Parte da fisionomia da Revolução de 68 foi que a pedofilia também foi diagnosticada como permitida e apropriada.


Para os jovens da Igreja, mas não apenas para eles, esse foi de muitas maneiras um momento muito difícil. Sempre me perguntei como os jovens nessa situação poderiam abordar o sacerdócio e aceitá-lo, com todas as suas ramificações. O extenso colapso da próxima geração de padres naqueles anos e o número muito elevado de laicizações foram conseqüências de todos esses desenvolvimentos.


(2) Ao mesmo tempo, independentemente desse desenvolvimento, a teologia moral católica sofreu um colapso que tornou a Igreja indefesa contra essas mudanças na sociedade. Vou tentar descrever brevemente a trajetória desse desenvolvimento.


Até o Concílio Vaticano II, a teologia moral católica era amplamente fundamentada na lei natural, enquanto as Escrituras Sagradas eram citadas apenas para antecedentes ou fundamentação. Na luta do Conselho por um novo entendimento do Apocalipse, a opção da lei natural foi largamente abandonada, e uma teologia moral baseada inteiramente na Bíblia foi exigida.


Ainda me lembro de como a faculdade jesuíta de Frankfurt treinou um jovem pai altamente dotado (Bruno Schüller) com o objetivo de desenvolver uma moralidade baseada inteiramente nas Escrituras. A bela dissertação de Padre Schüller mostra um primeiro passo para a construção de uma moralidade baseada nas Escrituras. O padre Schüller foi então enviado à América para estudos adicionais e voltou com a constatação de que somente a Bíblia não podia expressar sistematicamente a moralidade. Ele então tentou uma teologia moral mais pragmática, sem ser capaz de responder à crise da moralidade.


No final, foi principalmente a hipótese de que a moralidade deveria ser determinada exclusivamente pelos propósitos da ação humana que prevaleciam. Enquanto a antiga frase “o fim justifica os meios” não foi confirmada dessa forma grosseira, seu modo de pensar se tornou definitivo. Consequentemente, não havia mais nada que constituísse um bem absoluto, mais do que algo fundamentalmente mau; [poderia haver] apenas julgamentos de valor relativo. Não havia mais o bem [absoluto], mas apenas o relativamente melhor, dependente do momento e das circunstâncias.


A crise da justificação e apresentação da moralidade católica atingiu proporções dramáticas no final dos anos 80 e 90. Em 5 de janeiro de 1989, foi publicada a “Declaração de Colônia”, assinada por 15 professores de teologia católicos. Centrou-se em vários pontos de crise na relação entre o magistério episcopal e a tarefa da teologia. [As reações a] este texto, que a princípio não se estenderam além do nível usual de protestos, rapidamente se transformaram em protestos contra o Magistério da Igreja e reuniram, de maneira audível e visível, o potencial de protesto global contra os textos doutrinários esperados de João. Paulo II (cf. D. Mieth, Kölner Erklärung, LThK, VI 3 , p. 196) [LTHK é o  Lexikon für Theologie und Kirche, um “Lexicon of Theology and the Church” em língua alemã, cujos editores incluíam Karl Rahner e o cardeal Walter Kasper.]


O papa João Paulo II, que conhecia muito bem a situação da teologia moral e a seguiu de perto, encomendou uma encíclica que colocaria essas coisas de novo em ordem. Foi publicado sob o título “ Veritatis splendor ” em 6 de agosto de 1993 e provocou reações veementes por parte dos teólogos morais. Antes dele, o “Catecismo da Igreja Católica” já apresentava de maneira persuasiva, de maneira sistemática, a moralidade proclamada pela Igreja.


Nunca esquecerei como o então teólogo moral alemão Franz Böckle, que, retornando à Suíça natal após sua aposentadoria, anunciou em vista das possíveis decisões da encíclica “ Veritatis splendor ” que, se a encíclica determinasse a existência de ações que sempre e sob todas as circunstâncias fossem classificadas como más, ele a desafiaria com todos os recursos à sua disposição.


Foi Deus, o Misericordioso, que o poupou de ter que pôr em prática sua resolução; Böckle morreu em 8 de julho de 1991. A encíclica foi publicada em 6 de agosto de 1993 e de fato incluiu a determinação de que havia ações que nunca poderiam se tornar boas.


O papa estava plenamente consciente da importância dessa decisão naquele momento e, para esta parte de seu texto, consultou novamente os principais especialistas que não participaram da edição da encíclica. Ele sabia que não devia deixar dúvidas sobre o fato de que o cálculo moral envolvido no equilíbrio de mercadorias deve respeitar um limite final. Existem produtos que nunca estão sujeitos a trocas.


Existem valores que nunca devem ser abandonados por um valor maior e até superam a preservação da vida física. Há martírio. Deus é mais do que mera sobrevivência física. Uma vida que seria comprada pela negação de Deus, uma vida baseada em uma mentira final, é uma não-vida.


O martírio é uma categoria básica da existência cristã. O fato de o martírio não ser mais moralmente necessário na teoria defendida por Böckle e muitos outros mostra que a própria essência do cristianismo está em jogo aqui.


Na teologia moral, entretanto, outra questão havia se tornado premente: a hipótese de que o Magistério da Igreja deveria ter competência final (“infalibilidade”) apenas em assuntos relativos à própria fé, ganhou ampla aceitação; (nesta visão) questões relativas à moralidade não devem se enquadrar no escopo de decisões infalíveis do Magistério da Igreja. Provavelmente, existe algo certo nessa hipótese que justifique uma discussão mais aprofundada. Mas há um conjunto mínimo de costumes que é indissoluvelmente vinculado ao princípio fundamental da fé e que deve ser defendido para que a fé não seja reduzida a uma teoria, mas seja reconhecida na sua reivindicação à vida concreta.


Tudo isso torna aparente o quão fundamentalmente a autoridade da Igreja em questões de moralidade é posta em causa. Aqueles que negam à Igreja uma competência final de ensino nessa área obrigam-na a permanecer em silêncio precisamente onde está em jogo o limite entre verdade e mentira.


Independentemente desta questão, em muitos círculos da teologia moral foi exposta a hipótese de que a Igreja não tem e não pode ter sua própria moralidade. O argumento é que todas as hipóteses morais também teriam paralelos em outras religiões e, portanto, uma propriedade cristã da moralidade não poderia existir. Mas a questão da natureza única de uma moralidade bíblica não é respondida pelo fato de que, para cada frase em algum lugar, um paralelo também pode ser encontrado em outras religiões. Pelo contrário, trata-se de toda a moralidade bíblica, que, como tal, é nova e diferente de suas partes individuais.


A doutrina moral das Sagradas Escrituras tem sua singularidade, em última análise, baseada em se apegar à imagem de Deus, na fé naquele Deus que se mostrou em Jesus Cristo e que viveu como ser humano. O Decálogo é uma aplicação da fé bíblica em Deus à vida humana. A imagem de Deus e a moralidade estão juntas e, portanto, resultam na mudança particular da atitude cristã em relação ao mundo e à vida humana. Além disso, o cristianismo tem sido descrito desde o início com a palavra  hodós  [grego para uma estrada, no Novo Testamento freqüentemente usado no sentido de um caminho de progresso].


A fé é uma jornada e um modo de vida. Na igreja antiga, o catecumenato foi criado como um habitat contra uma cultura cada vez mais desmoralizada, na qual eram praticados os aspectos distintos e frescos do modo de vida cristão e, ao mesmo tempo, protegido do modo de vida comum. Penso que ainda hoje são necessárias comunidades catecumenais para que a vida cristã se afirme à sua maneira.


II

Reações eclesiais iniciais 


(1) O processo de dissolução do conceito cristão de moralidade, há muito tempo, foi marcado, como tentei mostrar, por um radicalismo sem precedentes na década de 1960. Essa dissolução da autoridade de ensino moral da Igreja necessariamente teve que ter um efeito nas diversas áreas da Igreja. No contexto da reunião dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo com o Papa Francisco, a questão da vida sacerdotal, bem como a dos seminários, é de particular interesse. No que diz respeito ao problema da preparação para o ministério sacerdotal nos seminários, há de fato um colapso abrangente da forma anterior dessa preparação.


Em vários seminários, foram estabelecidas panelinhas homossexuais, que agiram de maneira mais ou menos aberta e mudaram significativamente o clima nos seminários. Em um seminário no sul da Alemanha, candidatos ao sacerdócio e candidatos ao ministério leigo do especialista pastoral [ pastoral referente ] moravam juntos. Nas refeições comuns, seminaristas e especialistas em pastoral comiam juntos, os casados ​​entre os leigos às vezes acompanhados por suas esposas e filhos e, ocasionalmente, por suas namoradas. O clima neste seminário não poderia fornecer apoio para a preparação da vocação sacerdotal. A Santa Sé sabia de tais problemas, sem ser informada com precisão. Como primeiro passo, foi organizada uma visita apostólica de seminários nos Estados Unidos.


Como os critérios para a seleção e nomeação de bispos também foram alterados após o Concílio Vaticano II, a relação dos bispos com seus seminários também era muito diferente. Acima de tudo, um critério para a nomeação de novos bispos era agora a sua "conciliaridade", que obviamente poderia ser entendida como significando coisas bastante diferentes.


De fato, em muitas partes da Igreja, as atitudes conciliares eram entendidas como tendo uma atitude crítica ou negativa em relação à tradição até então existente, que agora seria substituída por um novo relacionamento radicalmente aberto com o mundo. Um bispo, que havia sido reitor do seminário, havia providenciado para que os seminaristas fossem exibidos filmes pornográficos, supostamente com a intenção de torná-los resistentes a comportamentos contrários à fé.


Havia - não apenas nos Estados Unidos da América - bispos individuais que rejeitaram a tradição católica como um todo e procuraram criar um tipo de “catolicidade” nova e moderna em suas dioceses. Talvez valha a pena mencionar que em poucos seminários os alunos que foram pegos lendo meus livros foram considerados inadequados para o sacerdócio. Meus livros estavam escondidos, como literatura ruim, e lidos apenas debaixo da mesa.


A Visitação que agora ocorreu não trouxe novas idéias, aparentemente porque vários poderes se uniram para ocultar a verdadeira situação. Uma segunda visita foi encomendada e trouxe consideravelmente mais insights, mas no geral não conseguiu alcançar nenhum resultado. No entanto, desde a década de 1970, a situação nos seminários geralmente melhorou. E, no entanto, apenas casos isolados de um novo fortalecimento das vocações sacerdotais surgiram, pois a situação geral havia mudado de direção.


(2) A questão da pedofilia, pelo que me lembro, não se tornou aguda até a segunda metade da década de 80. Enquanto isso, já se tornara uma questão pública nos EUA, de modo que os bispos de Roma procuraram ajuda, uma vez que o direito canônico, como está escrito no novo Código (1983), não parecia suficiente para tomar as medidas necessárias.


Roma e os canonistas romanos tiveram dificuldades com essas preocupações; na opinião deles, a suspensão temporária do ofício sacerdotal deveria ser suficiente para produzir purificação e esclarecimento. Isso não pôde ser aceito pelos bispos americanos, porque os padres permaneceram a serviço do bispo e, portanto, puderam ser considerados [ainda] diretamente associados a ele. Apenas lentamente, a renovação e o aprofundamento da lei criminal deliberadamente vagamente construída do novo Código começaram a tomar forma.


Além disso, porém, havia um problema fundamental na percepção do direito penal. Somente o chamado garantidorismo [uma espécie de protecionismo processual] ainda era considerado "conciliar". Isso significa que, acima de tudo, os direitos do acusado tinham que ser garantidos, a ponto de excluir de fato qualquer condenação. Como contrapeso às opções de defesa muitas vezes inadequadas disponíveis para os teólogos acusados, seu direito à defesa por garantia foi estendido a tal ponto que as condenações eram quase impossíveis.


Permita-me uma breve excursão neste momento. À luz da escala da má conduta pedofílica, uma palavra de Jesus voltou a chamar a atenção, dizendo: “Quem faz um desses pequeninos que acreditam em mim pecar, seria melhor para ele se uma grande pedra de moinho estivesse pendurada em sua pescoço e ele foi jogado no mar ”(Marcos 9:42).


A frase “os pequenos” na linguagem de Jesus significa os crentes comuns que podem ser confundidos em sua fé pela arrogância intelectual daqueles que se consideram espertos. Então aqui Jesus protege o depósito da fé com uma enfática ameaça de punição para aqueles que o prejudicam.


O uso moderno da frase em si não está errado, mas não deve obscurecer o significado original. Nesse sentido, fica claro, contrariamente a qualquer garantidorismo, que não é apenas o direito do acusado que é importante e exige uma garantia. Grandes bens como a fé são igualmente importantes.


Uma lei canônica equilibrada que corresponde a toda a mensagem de Jesus deve, portanto, não apenas garantir o acusado, o respeito por quem é um bem legal. Também deve proteger a Fé, que também é um ativo legal importante. Uma lei canônica devidamente formada deve, portanto, conter uma dupla garantia - proteção legal do acusado, proteção legal do bem em jogo. Se hoje se apresenta essa concepção inerentemente clara, geralmente cai em ouvidos surdos quando se trata da questão da proteção da Fé como um bem legal. Na consciência geral da lei, a Fé não parece mais ter a classificação de um bem que requer proteção. Esta é uma situação alarmante que deve ser considerada e levada a sério pelos pastores da Igreja.


Gostaria agora de acrescentar, às breves notas sobre a situação da formação sacerdotal no momento da eclosão pública da crise, algumas observações sobre o desenvolvimento do direito canônico nesta matéria.


Em princípio, a Congregação do Clero é responsável por lidar com os crimes cometidos pelos padres. Mas como o garantidorismo dominou a situação em grande parte na época, concordei com o papa João Paulo II que era apropriado atribuir a competência para esses delitos à Congregação para a Doutrina da Fé, sob o título “ Delicta maiora contra fidem . "


Esse arranjo também possibilitou impor a penalidade máxima, ou seja, expulsão do clero, que não poderia ter sido imposta sob outras disposições legais. Este não foi um truque para poder impor a penalidade máxima, mas é uma consequência da importância da Fé para a Igreja. De fato, é importante ver que tal má conduta dos clérigos prejudica a Fé.


Somente onde a fé não determina mais as ações do homem, essas ofensas são possíveis.

A severidade da punição, no entanto, também pressupõe uma prova clara da ofensa - esse aspecto do garantidorismo permanece em vigor.


Em outras palavras, para impor a pena máxima legalmente, é necessário um processo criminal genuíno. Mas tanto as dioceses quanto a Santa Sé ficaram sobrecarregadas com tal exigência. Por isso, formulamos um nível mínimo de processo criminal e deixamos em aberto a possibilidade de a própria Santa Sé assumir o julgamento, onde a diocese ou a administração metropolitana é incapaz de fazê-lo. Em cada caso, o julgamento teria que ser revisto pela Congregação para a Doutrina da Fé, a fim de garantir os direitos dos acusados. Finalmente, na Féria IV (ou seja, a assembléia dos membros da Congregação), estabelecemos uma instância de apelação a fim de prever a possibilidade de apelação.


Porque tudo isso realmente foi além das capacidades da Congregação para a Doutrina da Fé, e porque surgiram atrasos que precisavam ser evitados devido à natureza da questão, o Papa Francisco empreendeu reformas adicionais.


III


(1) O que deve ser feito? Talvez devêssemos criar outra igreja para que as coisas funcionassem? Bem, esse experimento já foi realizado e já falhou. Somente a obediência e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo podem indicar o caminho. Então, primeiro tentemos entender de novo e de dentro [de nós mesmos] o que o Senhor deseja e deseja conosco.


Primeiro, sugiro o seguinte: Se realmente quiséssemos resumir muito brevemente o conteúdo da Fé, conforme estabelecido na Bíblia, poderíamos fazê-lo dizendo que o Senhor iniciou uma narrativa de amor conosco e deseja incluir tudo criação nele. A força contrária ao mal, que ameaça a nós e ao mundo inteiro, pode consistir apenas em nossa entrada nesse amor. É a verdadeira força contrária contra o mal. O poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus. Aquele que se confia ao amor de Deus é redimido. Nosso ser não redimido é uma conseqüência de nossa incapacidade de amar a Deus. Aprender a amar a Deus é, portanto, o caminho da redenção humana.


Vamos agora tentar descompactar um pouco mais esse conteúdo essencial da revelação de Deus. Podemos então dizer que o primeiro presente fundamental que a fé nos oferece é a certeza de que Deus existe.


Um mundo sem Deus só pode ser um mundo sem significado. Para onde, então, tudo o que vem é? De qualquer forma, não tem propósito espiritual. De alguma forma, está simplesmente lá e não tem objetivo nem sentido. Então não há padrões de bem ou mal. Então somente o que é mais forte que o outro pode se afirmar. O poder é então o único princípio. A verdade não conta, na verdade não existe. Somente se as coisas tiverem uma razão espiritual, forem pretendidas e concebidas - somente se houver um Deus Criador que seja bom e deseje o bem - a vida do homem também terá significado.


O fato de haver Deus como criador e como a medida de todas as coisas é, antes de tudo, uma necessidade primordial. Mas um Deus que não se expressaria, que não se tornaria conhecido, continuaria sendo uma presunção e, portanto, não poderia determinar a forma [ Gestalt ] de nossa vida.


Mas um Deus que não se expressaria, que não se faria conhecido, continuaria sendo uma suposição e, portanto, não poderia determinar a forma de nossa vida. Para que Deus seja realmente Deus nesta criação deliberada, devemos procurar que Ele se expresse de alguma maneira. Ele o fez de várias maneiras, mas decisivamente no chamado que foi a Abraão e deu às pessoas em busca de Deus a orientação que leva além de todas as expectativas: o próprio Deus se torna criatura, fala como homem conosco, seres humanos.


Dessa maneira, a frase “Deus é” se transforma em uma mensagem verdadeiramente alegre, precisamente porque Ele é mais do que compreensivo, porque Ele cria - e é - amor. Mais uma vez, conscientizar as pessoas sobre isso é a primeira e fundamental tarefa que o Senhor nos confiou.


Uma sociedade sem Deus - uma sociedade que não o conhece e o trata como inexistente - é uma sociedade que perde sua medida. Em nossos dias, o slogan da morte de Deus foi cunhado. Quando Deus morre em uma sociedade, ela se torna livre, estávamos certos. Na realidade, a morte de Deus em uma sociedade também significa o fim da liberdade, porque o que morre é o propósito que fornece orientação. E porque a bússola desaparece, isso nos indica a direção certa, ensinando-nos a distinguir o bem do mal. A sociedade ocidental é uma sociedade em que Deus está ausente na esfera pública e não tem mais nada a oferecer. E é por isso que é uma sociedade em que a medida da humanidade está cada vez mais perdida. Em pontos individuais, torna-se subitamente evidente que o que é mau e destrói o homem se tornou uma questão de curso.


Esse é o caso da pedofilia. Foi teorizado há pouco tempo como bastante legítimo, mas se espalhou cada vez mais. E agora percebemos com choque que as coisas estão acontecendo com nossos filhos e jovens que ameaçam destruí-los. O fato de isso também poder se espalhar na Igreja e entre os padres deve nos perturbar em particular.


Por que a pedofilia atingiu tais proporções? Por fim, a razão é a ausência de Deus. Nós, cristãos e padres, também preferimos não falar de Deus, porque esse discurso não parece prático. Após a revolta da Segunda Guerra Mundial, nós na Alemanha ainda tínhamos expressamente colocado nossa Constituição sob a responsabilidade de Deus como um princípio orientador. Meio século depois, não era mais possível incluir a responsabilidade perante Deus como princípio norteador na constituição européia. Deus é considerado a preocupação do partido de um pequeno grupo e não pode mais permanecer como o princípio orientador da comunidade como um todo. Essa decisão reflete a situação no Ocidente, onde Deus se tornou assunto privado de uma minoria.

Uma tarefa primordial, que deve resultar das convulsões morais de nosso tempo, é que nós mesmos novamente voltemos a viver por Deus e por Ele. Acima de tudo, nós mesmos devemos aprender novamente a reconhecer Deus como o fundamento de nossa vida, em vez de deixá-Lo de lado como uma frase de alguma forma ineficaz. Nunca esquecerei o aviso que o grande teólogo Hans Urs von Balthasar me escreveu uma vez em um de seus cartões de cartas. "Não pressuponha o Deus trino, Pai, Filho e Espírito Santo, mas apresente-os!"


De fato, na teologia, Deus é frequentemente dado como certo como uma questão de disciplina, mas concretamente não se lida com ele. O tema de Deus parece tão irreal, tão distante das coisas que nos preocupam. E, no entanto, tudo se torna diferente se alguém não pressupõe, mas apresenta Deus. De alguma forma, não O deixando em segundo plano, mas reconhecendo-O como o centro de nossos pensamentos, palavras e ações.


(2) Deus se tornou homem para nós. O homem, como Sua criatura, está tão próximo de Seu coração que se uniu a ele e, assim, entrou na história humana de uma maneira muito prática. Ele fala conosco, vive conosco, sofre conosco e levou a morte sobre si por nós. Falamos sobre isso em detalhes na teologia, com palavras e pensamentos aprendidos. Mas é precisamente dessa maneira que corremos o risco de nos tornarmos mestres da fé, em vez de sermos renovados e dominados pela fé.


Vamos considerar isso em relação a uma questão central, a celebração da Santa Eucaristia. Nosso manejo da Eucaristia só pode suscitar preocupações. O Concílio Vaticano II concentrou-se corretamente em devolver este sacramento da Presença do Corpo e Sangue de Cristo, da Presença de Sua Pessoa, de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, ao centro da vida cristã e da própria existência da Igreja. . Em parte, isso realmente aconteceu, e devemos ser muito gratos ao Senhor por isso.


E, no entanto, uma atitude bastante diferente é predominante. O que predomina não é uma nova reverência pela presença da morte e ressurreição de Cristo, mas uma maneira de lidar com Ele que destrói a grandeza do Mistério. A participação declinante na celebração eucarística de domingo mostra o quão pouco nós, cristãos de hoje, ainda sabemos sobre apreciar a grandeza do dom que consiste em Sua Presença Real. A Eucaristia é desvalorizada em um mero gesto cerimonial quando é dado como certo que a cortesia exige que Ele seja oferecido em celebrações familiares ou em ocasiões como casamentos e funerais a todos os convidados por razões familiares.


A maneira como as pessoas geralmente simplesmente recebem o Santo Sacramento em comunhão normalmente mostra que muitos vêem a comunhão como um gesto puramente cerimonial. Portanto, ao pensar sobre que ação é necessária, acima de tudo, é óbvio que não precisamos de outra Igreja de nosso próprio projeto. Antes, o que é necessário, antes de tudo, é a renovação da fé na realidade de Jesus Cristo dada a nós no Santíssimo Sacramento.


Em conversas com vítimas de pedofilia, tomei consciência desse primeiro e mais importante requisito. Uma jovem que era ex-servidor de altar me disse que o capelão, seu superior como servidor de altar, sempre introduzia o abuso sexual que estava cometendo contra ela com as palavras: “Este é o meu corpo que será entregue a você. . ”


É óbvio que essa mulher não pode mais ouvir as próprias palavras de consagração sem experimentar novamente toda a terrível angústia de seu abuso. Sim, precisamos implorar urgentemente ao Senhor por perdão, e antes de mais nada, devemos jurar por Ele e pedir que Ele nos ensine a todos novamente a entender a grandeza de Seu sofrimento, Seu sacrifício. E devemos fazer tudo o que pudermos para proteger o dom da Santa Eucaristia de abusos.


(3) E finalmente, há o mistério da igreja. A frase com a qual Romano Guardini, quase 100 anos atrás, expressava a alegre esperança que foi incutida nele e em muitas outras, permanece inesquecível: “Um evento de importância incalculável começou; a Igreja está despertando nas almas. ”


Ele queria dizer que a Igreja não era mais experimentada e percebida como meramente um sistema externo que entra em nossas vidas, como um tipo de autoridade, mas, ao contrário, começou a ser percebida como estando presente no coração das pessoas - como algo não apenas externo, mas internamente nos movendo. Cerca de meio século depois, ao reconsiderar esse processo e ver o que estava acontecendo, senti-me tentado a reverter a frase: "A Igreja está morrendo em almas".


De fato, a Igreja hoje é amplamente considerada apenas algum tipo de aparato político. Fala-se quase exclusivamente em categorias políticas, e isso se aplica até aos bispos, que formulam sua concepção da igreja do amanhã quase exclusivamente em termos políticos. A crise, causada pelos muitos casos de abuso clerical, insta-nos a considerar a Igreja como algo quase inaceitável, que devemos agora tomar em nossas próprias mãos e redesenhar. Mas uma Igreja criada por si mesma não pode constituir esperança.


O próprio Jesus comparou a Igreja a uma rede de pesca na qual peixes bons e ruins são finalmente separados pelo próprio Deus. Há também a parábola da Igreja como um campo no qual crescem os bons grãos que o próprio Deus semeou, mas também as ervas daninhas que "um inimigo" semeou secretamente sobre ele. De fato, as ervas daninhas no campo de Deus, a Igreja, são excessivamente visíveis, e os peixes maus na rede também mostram sua força. No entanto, o campo ainda é o campo de Deus e a rede é a rede de pesca de Deus. E em todos os momentos, não há apenas as ervas daninhas e os peixes maus, mas também as colheitas de Deus e os bons peixes. Proclamar ambos com ênfase não é uma forma falsa de apologética, mas um serviço necessário à Verdade.


Nesse contexto, é necessário referir-se a um texto importante no Apocalipse de São João. O diabo é identificado como o acusador que acusa nossos irmãos diante de Deus dia e noite (Apocalipse 12:10). O Apocalipse de São João retoma, assim, um pensamento do centro da narrativa de enquadramento no Livro de Jó (Jó 1 e 2, 10; 42: 7-16). Nesse livro, o diabo procurou falar abaixo da justiça de Jó diante de Deus como sendo meramente externa. E é exatamente isso que o Apocalipse tem a dizer: o diabo quer provar que não há pessoas justas; que toda a justiça das pessoas é exibida apenas do lado de fora. Se alguém pudesse se aproximar de uma pessoa, a aparência de sua justiça desapareceria rapidamente.


A narrativa em Jó começa com uma disputa entre Deus e o diabo, na qual Deus se referiu a Jó como um homem verdadeiramente justo. Ele agora deve ser usado como exemplo para testar quem está certo. Tire suas posses e você verá que nada resta da piedade dele, argumenta o diabo. Deus permite a ele essa tentativa, da qual Jó emerge positivamente. Agora o diabo empurra e ele diz: “Pele por pele! Tudo o que um homem tem, ele dará por sua vida. Agora, estenda a mão agora, e toque o osso e a carne dele, e ele te amaldiçoará ao teu rosto. ”(Jó 2: 4f)


Deus concede ao diabo um segundo turno. Ele também pode tocar a pele de Jó. Apenas matar Jó é negado a ele. Para os cristãos, é claro que este Jó, que está diante de Deus como um exemplo para toda a humanidade, é Jesus Cristo. No Apocalipse de São João, o drama da humanidade é apresentado a nós em toda a sua amplitude.


O Deus Criador é confrontado com o diabo que fala mal de toda a humanidade e de toda a criação. Ele diz, não apenas para Deus, mas sobretudo para as pessoas: Veja o que esse Deus fez. Supostamente uma boa criação, mas na realidade cheia de miséria e nojo. Essa depreciação da criação é realmente uma depreciação de Deus. Ele quer provar que o próprio Deus não é bom e, assim, desviar-nos dEle.


A atualidade do que o Apocalipse está nos dizendo aqui é óbvia. Hoje, a acusação contra Deus é, acima de tudo, sobre caracterizar Sua Igreja como totalmente ruim e, assim, nos dissuadir dela. A ideia de uma Igreja melhor, criada por nós mesmos, é de fato uma proposta do diabo, com a qual ele deseja nos afastar do Deus vivo, através de uma lógica enganosa pela qual somos enganados com muita facilidade. Não, ainda hoje a Igreja não é apenas composta de peixes e ervas daninhas. A Igreja de Deus também existe hoje, e hoje é o próprio instrumento através do qual Deus nos salva.


É muito importante opor-se às mentiras e meias-verdades do diabo com toda a verdade: Sim, há pecado na Igreja e o mal. Mas ainda hoje existe a Santa Igreja, que é indestrutível. Hoje existem muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, em quem o Deus real, o Deus amoroso, se mostra para nós. Hoje Deus também tem suas testemunhas ( mártires ) no mundo. Nós apenas temos que estar vigilantes para poder vê-los e ouvi-los.


A palavra mártir é retirada do direito processual. No julgamento contra o diabo, Jesus Cristo é a primeira e verdadeira testemunha de Deus, o primeiro mártir, que desde então tem sido seguido por inúmeros outros.


A Igreja de hoje é mais do que nunca uma "Igreja dos Mártires" e, portanto, uma testemunha do Deus vivo. Se olharmos em volta e ouvirmos com um coração atento, podemos encontrar testemunhas em todos os lugares hoje, especialmente entre pessoas comuns, mas também nas altas fileiras da Igreja, que defendem a Deus com sua vida e sofrimento. É uma inércia do coração que nos leva a não querer reconhecê-los. Uma das grandes e essenciais tarefas de nossa evangelização é, tanto quanto possível, estabelecer habitats de fé e, acima de tudo, encontrá-los e reconhecê-los.


Eu moro em uma casa, em uma pequena comunidade de pessoas que descobrem essas testemunhas do Deus vivo repetidas vezes na vida cotidiana e que alegremente apontam isso para mim também. Ver e encontrar a Igreja viva é uma tarefa maravilhosa que nos fortalece e nos alegra em nossa fé várias vezes.


No final das minhas reflexões, gostaria de agradecer ao Papa Francisco por tudo o que ele faz para nos mostrar, repetidas vezes, a luz de Deus, que não desapareceu ainda hoje. Obrigado Santo Padre!


(Bento XVI)


Traduzido por Anian Christoph Wimmer.


As citações das Escrituras usam a Edição Revisada da Versão Católica (RSVCE).


Este documento foi publicado originalmente por EWTN.




Comentários sobre a Carta do Papa Bento VXI


Por Professor Bellei



Primeiro Vídeo - Apresentação



Segundo Vídeo - Primeira Live


Terceiro Vídeo - Segunda Live (Em breve...)


 
 
 

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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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