PARADOXOS DA ALDEIA GLOBAL

Um aspecto das grandes cidades, muito destacado pelas artes contemporâneas, era o da “multidão solitária”: milhões de pessoas espremidas num mesmo espaço — crescendo continuamente para os lados e para o alto —, e que perdiam a possibilidade de se comunicar diretamente, como ocorria nas pequenas cidades do interior, das quais a maior parte delas provinha. Essa gélida relação interpessoal da pólis, pressentida pelo poeta francês Baudelaire, foi mais tarde cantada e deplorada em prosa, verso, som e imagem por todo o século XX.
Essa frigidez das metrópoles de certo modo foi-se atenuando, graças aos meios eletrônicos de comunicação, que começaram a devolver às pessoas alguma coisa da perdida porosidade aldeã, como uma janela gradeada torna mais tolerável a cela de uma prisão. Se, inicialmente, já o rádio, o telefone e, depois, a televisão, teriam contribuído para amenizar os efeitos opressivos daquela solidão metropolitana — uma solidão cercada de gente por todos os lados —, com a internet e o telefone celular as distâncias urbanas e interurbanas foram sensivelmente diminuídas, sem contar outros benefícios trazidos pelo progresso tecnológico.
Se a mecânica e a eletricidade contribuíram para aumentar física e descontroladamente o mundo, criando esses monstros urbanos que são as metrópoles (responsáveis pelo paradoxo sociológico da multidão solitária), a eletrônica veio para encolher esse mundo desmesuradamente expandido, até transformá-lo na pequena “aldeia global” a que se referia o sociólogo canadense Marshall McLuhan, nos distantes anos sessenta. Retraía-se quase magicamente o “mundo mundo vasto mundo” do verso drummondiano. O planeta voltava a ficar misteriosamente pequeno, sem abdicar de sua grandiosidade planetária: cada vez maior e, ao mesmo tempo, oferecendo a ilusão de que tudo estava ao alcance das mãos, apesar desta proximidade ser apenas simulada, representada, imagística, virtual, construída por aplicativos de computador ou aparelhos (rádios, televisores) capazes de captar ondas eletromagnéticas.
Segundo McLuhan, o homem contemporâneo à televisão e às novas mídias jamais voltaria a ser o mesmo de antes. Não só pelos efeitos culturais que as novas tecnologias da informação pudessem ocasionar, enquanto veículos transmissores de mensagens (que podiam ser boas ou más), porém pela influência que essas novas tecnologias da informação exerciam sobre o mecanismo sensorial do homem, alterando a sua própria percepção da realidade.
A hipótese de McLuhan é a de que as mídias eletrônicas, independentemente do que transmitem, já por si mesmas interferem no desenvolvimento e formação da personalidade. Por seu forte apelo sensorial, predisporiam as pessoas a uma maior irracionalidade, um revivido espírito de tribo (creio que também não se possa descartar a sensação de estarem todos mais próximos de todos).
Enfim, as mídias já começam a mudar as pessoas pela forma como agem em seus sentidos, independentemente do conteúdo de suas mensagens. Provém daí a sua famosa frase: o meio é a mensagem.
O aperfeiçoamento tecnológico das ferramentas com que o corpo e a mente humana agem no mundo — suas “extensões”, na terminologia do sociólogo canadense —, deixou o homem moderno por demais mimado (como Ortega y Gasset já o tinha visto antes), e isto ao ponto de cair em pânico quando uma dessas extensões de repente lhe falta. O indígena eletrônico em que ele se transformou é na verdade um frouxo, existencialmente falando; um ser quase totalmente desprovido de testosterona moral. Paradoxalmente, as extensões que a tecnologia oferece ao homem torna-o mais poderoso, ao mesmo tempo que mais enfraquecido, pelo vício de tudo delegar a máquinas e aparelhos.
Foi por isso que o estudioso canadense optou por fazer uma inversão na prioridade de suas investigações: em vez da usual tarefa de localizar marcas do corpo social no comportamento humano, considerava mais fascinante descobrir os condicionamentos que as novas formas de percepção, alteradas pelas novas mídias, impunham às estruturas sociais. Que mudança teria ocorrido no mecanismo sensorial do homem moderno, por ação da mídia televisiva, ao ponto de alterar a sua própria percepção da realidade? A consequência mais grave terá sido uma espécie de retribalização social, um fascínio pelo retorno a modos de convivência humana pré-civilizacionais.
Se o raciocínio de McLuhan estiver correto, talvez se possa concluir da seguinte e pouco lisonjeira forma: o mundo voltou, sim, a ser uma aldeia, mas povoada menos por camponeses ocidentais reprimidos pela moral e os bons costumes, do que por pessoas semelhantes a indígenas pré-colombianos, em processo acelerado de repaganização.
















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