PARUSIA – Juan Manuel de Prada

Em tempos tão sombrios, muitos amigos e leitores me perguntam se minha fé não vacila. Certamente, não faltam motivos para desfalecimento, diante de um presente tão funesto quanto este em que tivemos a sorte (ou melhor, a desgraça) de viver. Mas a fé que professo me ensina a não me afligir diante do presente, na certeza de que tenho um futuro pela frente. Perante o otimismo desesperado típico do nosso tempo, que, por não acreditar no futuro, procura atirar-se euforicamente nos desfrutes materiais do presente (e quando esses desfrutes definham ou esmorecem, como ocorre agora, a sua euforia se transforma em angústia), a fé pode se dar ao luxo de ser pessimista em seu diagnóstico do presente, em troca de estar sempre esperançosa.
Mas mesmo às pessoas com fé, às vezes nos falta a esperança. E é inevitável que assim seja, porque o presente nos oferece inúmeras razões para desânimo. Talvez esta falta de esperança tenha muito a ver com a perda do horizonte escatológico, com o esquecimento da Parusia, que Jesus repetidamente anuncia nos Evangelhos (Lc 17, 20; Mt 24, 23; Mc 13, 21), que encontramos repetidos nas epístolas de Pedro e Paulo e é o assunto principal das visões que encerram a Bíblia. Em todas essas passagens evangélicas, epístolas e visões se repete que esta Parusia, ou segunda vinda de Cristo, será precedida por uma grande apostasia e uma grande tribulação; e também que não acontecerá – ao contrário do que afirmam os agourentos da mudança climática – porque o mundo esgotou seus recursos, nem porque sobrevenha uma catástrofe natural ou se desencadeie uma guerra (além do fato de que esses sinais podem precedê-la), mas por uma direta intervenção divina. O universo – lembra Leonardo Castellani – não é um processo natural, mas “um poema dramático do qual Deus cuida do começo, do clímax e do desenlace, que teologicamente seriam a Criação, a Redenção e a Parusia”.
Sempre me chamou muito a atenção a escassíssima, quase nula, consciência da Parusia que têm as pessoas de fé. Talvez seja porque estão contaminadas pelas desacreditadas visões apocalípticas espalhadas pela cultura de massa de nossa época, praguejada de explosões atômicas e hordas de zumbis. Talvez porque a nossa é uma fé sem esperança, que se retrai diante do sofrimento (porque esta Parusia, como o próprio Jesus a descreve, será precedida por eventos dolorosos). Mas, ao evitar este assunto, a fé se torna completamente falsificada, “eunuquisada”, reduzida a uma moralidade insípida; é o sal que se tornou insosso. Recordemos a admoestação dos anjos, na Ascensão: ““Homens da Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu”.” Esta é uma formidável censura que continua a nos interpelar ainda hoje.
Ao ocultar o processo divino da História, inevitavelmente juntamo-nos ao desespero típico do nosso tempo (todo enfeitado com a euforia que se quer), que promete ao homem o paraíso na terra pela suas próprias forças, isto é, pela intervenção da ciência e da política. Ou, no melhor dos casos, nos prendemos a uma certa visão espiritualista e deliquescente das últimas coisas, segundo a qual nossas almas serão premiadas com um futuro ao qual nossos corpos terão que renunciar, irrevogavelmente convertidos em passado, irrevogavelmente consumidos pela dor e pela decrepitude, até o inevitável fim.
Mas a Parusia nos fala de um futuro de espécie bem diferente, onde não só o sofrimento será abolido, mas também revogado. E essa revogação do sofrimento passado só pode ser plenamente alcançada através da ressurreição da carne, ponto extremo a partir do qual a fé cristã confronta o frágil espiritualismo de nossa época. E, em geral, de qualquer época, pois foi essa revogação do sofrimento passado, que ocorre na Parusia através da ressurreição da carne, que no Areópago contrapôs São Paulo aos filósofos gregos, dispostos a aceitar sua pregação com a condição de que fosse reduzida a uma fé “eunuquisada”, reduzido a uma moralidade insípida.
















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