PASSEIO NO PURGATÓRIO COM O ESCRITOR MARQUES REBELO

O escritor Marques Rebelo, ateu, só admitia uma espécie de purgatório: o da reescrita obsessiva.
Pertencia a uma espécie de escritores que não admitiam espontaneísmo no jogo literário, fazendo uma espécie de literatura da literatura. Eram desmistificadores por excelência, responsáveis por uma literatura autorreflexiva: criavam e ao mesmo tempo investigavam os segredos da criação, correndo sempre o risco de sucumbir diante dos riscos e perigos da inteligência esterilizante. Gustave Flaubert era, com pleno direito, o demônio-chefe dessa seita quase gnóstica.
Rebelo tinha consciência de pertencer a essa família pouco numerosa de eleitos. Sem ter exercido a crítica literária, foi sempre leitor atento de si mesmo e dos outros, vivendo e pensando o tempo todo em literatura, o que transparece nitidamente em O espelho partido, romance ensaístico em forma de diário, em que cultivava, num misto de dor e prazer, essa dupla e irreprimível tendência de sua personalidade intelectual: criar com o máximo de dificuldade possível e investigar os porquês da criação artística.
Esse “diabo de língua solta” (como o definiu Drummond), que via na prática da maledicência literária uma estranha espécie de obrigação moral, era no entanto excessivamente cuidadoso quando se tratava de palavra escrita: sua obsessão da reescrita (“De cada página que publico, faço de quatro a oito versos”) tornava-o à Flaubert um perseguidor quase doentio da forma absoluta, como se houvesse um céu literário a conquistar, mas que só franqueasse suas portas após um longo e purgativo exercício de reescrita.
Nesse purgatório da reescrita, o ateu Rebelo via-se como uma espécie de monge ou sacerdote:
Arqueólogo noturno, faço as minhas pacientes escavações, pena na mão qual picareta rombuda de tanta tentativa (…) Ofício torturante (…) exercendo-o com a severa paixão de um sacerdócio (…) a cada passo mais tempo e esforço me consome o ingrato exercício monacal, como se o cérebro não soubesse coar as idéias, nem filtrar as memórias, como se as palavras esgotadas, inválidas, recusassem a me obedecer e no tinteiro a pena só encontrasse borra. Mas, em contrapartida, constitui uma necessidade — necessidade, ânsia, sorvedoiro — a que me torno mais constante.
Há, em O espelho partido, dezenas de notas e reflexões sobre essa “necessidade, ânsia, sorvedoiro” da reescrita — expressão, sem dúvida, de um espírito religioso que, à falta do Deus verdadeiro a quem adorar, transformava a atividade literária numa espécie de ídolo substitutivo, confirmando a verdade bem percebida por Chesterton: quando se deixa de crer em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa.
É certo que a criação literária, sobretudo essa que aspira o máximo de beleza possível, não é “qualquer coisa”, mas não deixa de ter um aspecto idolátrico, mesmo se, de certa forma, indiretamente aponte para a existência do Deus em que o escritor, por insondáveis razões, não conseguia crer.
















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