PEQUENA CENA DE MISSA EM UM ROMANCE DE GILBERTO AMADO

[Gilberto Amado foi um escritor brasileiro do século XX, mais ou menos da idade de um Manuel Bandeira ou um Mário de Andrade, mas sem nenhuma ligação com o modernismo. Embaixador do Brasil em vários países, publicou ensaios, romances, memórias e até um livro de poemas. Era um nome bastante respeitado nas Letras e na política, cuja celebridade o tempo se encarregou de apagar, como ocorre com a imensa maioria dos escritores, mesmo os menos medíocres. Na passagem a seguir, extraída do romance Inocentes e culpados, o autor mostra um personagem em cena que é muito comum nas Missas: a falsa piedade].
Onde o sentimento de Emílio, a respeito da incolumidade do velho Sílvio a qualquer ideia de pecado, vinha mais agudamente espicaçá-lo era na missa.
Liberalão — insincero como todo liberal —, repetia ele, Dr. Sílvio não se tolhia de comparecer a nenhuma missa a que devesse assistir, dominical, de festa ou de defunto. Era “obrigação” que não se furtava de cumprir.
Se não rezava, ajoelhava-se como os outros; se não batia no peito à elevação do cálice, encolhia-se gravemente.
Em mais de uma ocasião, Emílio se encontrou com os olhos em cima dele, acompanhando-lhe as atitudes: era perfeito. Durante a exposição da hóstia, respeitoso, os olhos para o chão.
Mas em nenhuma passagem, mesmo nas mais solenes, naquelas em que mais terrivelmente se consuma o sacrifício, em que se invoca a união de Deus com os homens e se exalta a redenção; quando o sacerdote pronuncia palavras ressoantes em todas as almas, sentindo que lhe é permitido aproximar-se do trono divino com esperança, alça os olhos e o coração para o crucifixo, e chama o Espírito Santo para que bendiga o sacrifício preparado para a gloria do Seu nome — Veni Sanctificator, Omnipotens aeterne Deus —; nos salmos recitados em que se prometem a pureza de consciência e o horror de toda culpa; durante o “lavabo”, no Sanctus, na Consagração do Pão, na Consagração do Cálice, quando se atinge o supremo instante; quando o Verbo desce como na Encarnação, Hoc est enim corpus meum; quando o silêncio na igreja é profundo e mais profundo o recolhimento interior das almas visitadas pela presença real do Senhor — nem uma vez, das numerosas em que o viu na missa, Emilio deteve na fisionomia do velho qualquer reflexo: sua calma era a de sempre, sua identificação consigo mesmo integral; tranquilo, distante, imperturbado.
(Gilberto Amado, Inocentes e culpados. Rio, José Olímpio, 1941, p. 321)
















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