POR QUE A ESQUERDA DESDENHA A CULTURA MAIS ELEVADA?

A esquerda emburrece cada vez mais, ou seja, cada vez mais ela se aproxima de sua verdadeira natureza, que é a de propor para a sociedade um modelo de vida política e moral completamente inadequado.
Tal modelo inadequado, quase sempre revestido de aspectos utópicos e românticos, de fácil apelo popular, no fundo revela um desejo de viver ontologicamente essa inadequação — a inadequação como “sentido de vida” —, que parece ser de fato, para os socialistas de todos os matizes, o fim último da existência humana. A inadequação é a mãe da instabilidade. A instabilidade como morada definitiva é uma entre tantas possíveis definições do inferno.
A inadequação e a instabilidade como condição do homem: eis o projeto revolucionário. Segundo esse projeto, é preciso fazer de tudo para o indivíduo não se adaptar à realidade; antes, pelo contrário, deve ser educado para confrontá-la em todos os aspectos da vida: cultural, político, econômico, religioso etc.
Confronto é o estado natural da alma socialista, mesmo a mais brandamente fabiana, e não espera outra coisa senão colisão e destruição: colisão com princípios e valores que provêm do passado da espécie, destruição de tudo o que se tornou estável e consolidado pelo processo de depuração normal que muitas vezes a História torna possível.
Frise-se: o homem revolucionário (categoria que não inclui só os socialistas, mas também os liberais progressistas) não deseja só destruir a má herança do passado (que, evidentemente, existe), mas a própria ideia de tradição, de transmissibilidade, de geração a geração, das coisas que foram aprovadas pela humanidade em cada nação e cada período histórico.
Um exemplo desse ódio pelo passado é o que acontece no âmbito cultural. As últimas décadas de política socialista, no Brasil, assistiram a um desdém, jamais visto antes, pelo patrimônio histórico e arquitetônico do país. Quem volta de um passeio a Ouro Preto, ou de outra cidade histórica com semelhante formação histórico-social, é testemunha do abandono em que se encontram casarões e igrejas do período colonial.
“Para que conservar uma cidade, quando ela é um documento vivo de um passado socialmente classista e injusto?”, perguntaria o homem da colisão e da destruição, adepto natural da política de terra arrasada. A metodologia do Black Lives Matter americano, essencialmente violenta e terrorística, não é invenção recente: é cria normal e terrivelmente lógica do mesmo espírito revolucionário que despreza tudo o que provenha de Ontem.
Mas nem sempre os esquerdistas foram assim. Para ficar só num exemplo (e há vários outros), basta lembrar o caso do jornalista e crítico literário maranhense Franklin de Oliveira. Foi socialista, um hegeliano de esquerda; trabalhou com Brizola em cargo importante, quando este foi governador do Rio Grande do Sul, no início dos anos sessenta; defendeu as mesmas causas igualitaristas, irrealistas e equivocadas de seus parceiros de ideologia.
Franklin foi, porém, um homem de grande cultura literária e humanística. Tinha, especialmente pelo patrimônio histórico-arquitetônico do Brasil, um zelo verdadeiramente admirável, que o levou a escrever um dos livros mais belos que já vi em sua defesa: Morte da memória nacional, publicado em 1966 pela editora Civilização Brasileira, uma editora (pasme-se) de comunistas, e relançado em 1991 pela Topbooks.
De que tratava o livro? Do descaso em que se encontravam então, em meados dos anos sessenta, muitas construções tombadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do norte ao sul do país: casas, prédios públicos e igrejas de inegável valor histórico e artístico, testemunhas de momentos relevantes da história nacional, mas seriamente ameaçados em sua sobrevivência. O apelo do socialista Franklin de Oliveira continua vivo, com surpreendente atualidade.
A esquerda — quando ela ainda não estava tão próxima de sua verdadeira natureza, quando ainda estava a caminho — já foi mais inteligente.
















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