QUANDO A HUMILDADE ENLOUQUECEU

Há pessoas tão humildes, Tão sinceramente humildes, Que não se acham dignas da eternidade. Não querem ou não podem acreditar em Deus, Mas vivem milagrosamente como se Ele existisse: Não roubam, não matam, não mentem. No máximo roubam estrelas ariscas com os olhos cansados, Embriagando-se de vinho, de poesia ou de virtude. São tão humildes, Que não se acham dignas da misteriosa paternidade divina. Esses silenciosos monges do Nada Regam diariamente a sua cósmica solidão Como se ela fosse a mais extraordinária das roseiras. Adubam-na com o que possuem de mais íntimo: A ressequida lágrima do tédio. São almas boas, algumas boníssimas, Mas de uma bondade represada em si mesma. Uma bondade inútil que não serve nem para uso próprio: Trancaram Narciso no porão e perderam a chave. Nem serve para nós que com eles convivemos, Pois não acreditam em pontes e em nós outros. Só creem nos rios cegos de Heráclito, Que os levam inexoravelmente para longe, Para muito longe, Para além de Deus. Um Deus que jamais satisfará o seu pouco humilde projeto de Deus.
















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